|
||
![]() |
||||
|
|
Tereza Jovê Fermino, 78 anos
Por Marisa Feriancic
Tereza Jovê Fermino, 78 anos, é uma artista na arte da costura. Modista muito requisitada, atualmente não faz mais vestidos de noivas porque dá muito trabalho, mas continua fazendo blazers, terninhos, jeans, e enxovais de bebês personalizados com um esmero incrível. Não adianta se animar muito com a beleza e criatividade das confecções. Sempre ocupada com seus compromissos, é difícil arranjar um horário livre com a Tereza. Ela tem que se dividir entre os pedidos de costura das freguesas e os pedidos da família. Vou requisitar um lugar em sua agenda de costura, vamos ver se consigo.
A história Nasci no dia 05 de Novembro de 1930, em Pontaporã, fronteira do Paraguai com o Brasil. Éramos em 7 irmãos e eu sou a filha mais velha. Quando eu tinha 8 anos, mudamos para Campo Grande, Mato grosso do Sul. Minha mãe, Elvira Jovê dos Santos, está com 95 anos, e ainda mora em Campo Grande. Meu pai, Manuel Jovê Latorre, faleceu em 1974. Vim para São Paulo com 16 anos. Tenho só uma filha, 4 netos e 5 bisnetos.
Estudei no Grupo Escolar Joaquim Murtinho, em Campo Grande. Era uma casa linda e o melhor colégio público da cidade. Ele ainda existe, mas hoje é um prédio enorme. As meninas ricas da cidade estudavam no Colégio Nossa Senhora Aparecida, um colégio de freiras e os meninos ricos estudavam no Colégio Dom Bosco. Aqueles que não seguiam uma religião rígida estudavam no Colégio Osvaldo Cruz, também particular.
Conheci o Alberto, meu marido, quando estava terminando o ginásio. Eu tinha 15 anos e ele 19 anos. Alberto estava servindo na base aérea de Mato Grosso do Sul.
Alberto- 1945 Quando terminou o serviço militar, ele disse: nós vamos casar, aqui não tem emprego para mim, e eu não vou deixar você aqui. Estávamos namorando há 8 meses. Ele nunca tinha entrado na minha casa, não conhecia a minha família e nem eu conhecia a dele.
Era um namorico, mas ele foi conversar com meu pai e me pediu em casamento. Conversou com meu pai somente meia hora. Depois que ele foi embora, meu pai virou-se para mim e disse: é muito cedo, mas quem vai dormir com ele é você, é você quem tem que decidir, a vida é sua; ser feliz ou infeliz, fica nas suas mãos. Mas era muito cedo para ficar em minhas mãos. Eu tinha somente 15 anos. Meu pai deveria dizer não. Eu queria muito estudar, queria fazer o curso normal, ser professora. Meu pai esperava que eu fosse farmacêutica. Ele dizia que o farmacêutico era a uma pessoa inteligente com muitos conhecimentos, que conhecimento das formulas dos remédios.
O casamento Casei com 16 anos e viemos para São Paulo. O casamento foi só no civil. Minha mãe mandou meu irmão Fernando, que na época tinha 14 anos vir junto comigo. Eu queria continuar os estudos e meu marido prometeu que eu voltaria a estudar.
Chegando a São Paulo nós fomos morar na casa de meu sogro, no Jabaquara. A casa tinha 4 quartos, e meu sogro alugou um quartinho para nós. Eu e o Alberto ficávamos no quarto menor e meu irmão ficou com os irmãos do Alberto. Minha cunhada tinha um quarto para ela e meu sogro um quarto para ele. Meu sogro já era viúvo, não cheguei a conhecer minha sogra.
No dia seguinte que chegamos meu marido começou a trabalhar numa garagem de ônibus, na rua Guaicurus, na Lapa. Naquela época era mais fácil conseguir emprego.
Fiz 17 anos, e no dia seguinte do meu aniversario, minha filha nasceu. Quando ela tinha 3 anos, conforme o combinado voltei a estudar. Fui fazer o colegial supletivo, na época chamava-se Madureza. As provas eram realizadas em cidades do interior e eu teria que passar um final de semana fora. Nos alojamentos, ficavam separados os rapazes e as moças, mas meu marido não me deixou ir sozinha. O casal que quisesse ir junto poderia ficar num hotel, mas não tínhamos condições de pagar hotel. Fiquei frustrada, o grupo todo foi e eu fiquei. Tinha que compreender, não dava para brigar, não era porque ele não queria, ele não podia, a situação financeira era difícil e também tinha a questão do trabalho.
Certa vez, encontrei no ônibus, um amigo do curso, e ele me disse que eu deveria ter feito as provas, que tinham sido muito fáceis.
Eu era muito novinha, sentia muita falta da minha família e chorava escondido do Alberto. Depois de um tempo, minha mãe esteve em São Paulo e levou meu irmão embora com ela. Esse meu irmão faleceu com 62 anos.
A profissão A opção de ter só uma filha foi minha. Eu ouvia muito minha mãe falar de histórias de homens arrumar amante e a mulher ficar com ele só pela questão financeira. Isso me assustava. Eu nunca aceitei isso. Pensava assim: se a mulher aceita é porque é sustentada pelo marido e faz vistas grossas. Vou ter só uma filha porque quero ter independência financeira. Na pior das hipóteses vou ser doméstica. Com uma filha, posso trabalhar como doméstica, se tiver mais filhos fica difícil.
Queria muito trabalhar, mas precisava fazer algum curso porque não tinha nenhuma formação especifica.
Em 1951, quando passava no Bairro do Paraíso, vi uma placa anunciando aulas de corte e costura. Resolvi que aprenderia costura. Contei para o Alberto e ele achou que era uma boa idéia. Comecei o curso, mas não tinha máquina para costurar. A professora disse que não tinha importância, que no começo, eu poderia usar a máquina da escola. Quando iniciei o curso estava toda feliz. Era uma ocupação, um novo horizonte. Eu tinha 21 anos, cuidava da casa, da minha filha, mas eu queria trabalhar e ganhar meu dinheiro.
Um dia, chegando do curso, meu cunhado, que era taxista, entregou uma caixa em casa, dizendo que era do Alberto. O pacote ficou no lugar onde ele colocou. Eu nunca abri pacote de ninguém. Meu pai sempre me ensinou que abrir correspondência dos outros é crime. Ele me dizia: se não está no seu nome, não mexa.
Quando o Alberto chegou, me perguntou se eu não tive a curiosidade de abrir o pacote e eu disse que não, que era dele. Ele falou que era para mim, que eu poderia abrir. Quando abri fiquei surpresa e feliz. Era uma máquina de costura G.E, portátil. Ele trabalhava numa firma que tinha representação G.E (General Eletric) e pagaria em 10 vezes, o valor seria descontado no salário. Com essa máquina eu costurei muitos anos para fora. Sempre gostei de costura. Comecei fazendo roupas para casa e depois comecei a costurar para fora. Fazia uma roupa, as pessoas gostavam, e já viravam freguesas. Fiz muitas roupas.
Eu já costurava há algum tempo, quando minha filha viu a propaganda na televisão do método Magic Corte e achou que eu iria gostar. Era um método inovador, mais prático e o molde da roupa ficava perfeito. Resolvi fazer o curso. Estudava o método a sério, tinha que confeccionar as provas: era gola smoke, gola esporte e gola italiana. A pessoa que desenvolveu esse método pesquisou 15 anos. O curso era composto por 3 livros. Terminando o segundo livro, que era didático, já poderia dar aula. O fato de eu já saber costurar, facilitava. Depois do curso, parecia que eu tinha tirado uma venda dos olhos. De repente, eu via tudo mais claro, mais fácil. Lecionei aulas de corte e costura por mais de 25 anos, até me aposentar. Formei muitas turmas.
Tereza- 1980
Em 1977 fui fazer um curso de bordado em tela, e conheci dona Benedita, dona de uma lojinha em frente o Cine Estrela, no bairro do Jabaquara.
Essa senhora tinha alugado uma casa inteira, e ofereceu-me uma sala para dar aulas de corte e costura. A proposta foi boa. Eu não pagava aluguel e dividiríamos o lucro meio a meio. Se tivesse muitas alunas ganhava mais, caso contrário também não teria prejuízo. Fiquei lá durante 3 anos. Depois aluguei outro local, abri uma firme e continuei lecionando corte e costura.
Nos bons tempos, eu tinha 22 alunas por turma. Saía de casa às 7 horas da manhã e voltava às 9 da noite, não dava tempo de costurar para fora, só lecionava. Lecionava todos os dias. Eram 5 classes por dia, 2 turmas pela manhã e 2 turmas à tarde. Trabalhei muito. Paguei minha casa com esse dinheiro. Era para pagar em 20 anos, eu paguei em 17 anos.
Tereza- Num dia de formatura de suas alunas, 1994
Em 1966 fechei a escola porque não dava mais lucro, quando parei, só dava mesmo para pagar o aluguel.
Muitas alunas queriam continuar o curso, então comecei a lecionar na casa delas. Trabalhei assim mais 6 anos, em várias regiões. Saía de um bairro e ia para outro, o dia todo: São Bernardo, Santo André, Santo Amaro, Vila Mariana. Eu pegava o endereço e ia embora, e eu já tinha 61 anos. Nessa época o Alberto tinha uma oficina mecânica.
Tereza e Alberto- 1996
Trabalhei bastante, fazia até vestido de noiva, mas foi bom, fiz muitas amigas. Ainda tenho 5 amigas do tempo que eu dava aula. Eram minhas alunas. Atualmente, algumas não querem mais costurar e me pedem para fazer as roupas delas. Uma delas, frequentou o curso durante 8 anos, hoje está com 85 anos e costura muito bem. Ela gosta de usar terninhos, ela faz as calças compridas e eu faço os blazers.
Não sei ficar sem fazer nada, tenho várias atividades. Costuro e tenho outras atividades, então tenho que dividir melhor meu tempo, mas não deixo de fazer roupas para os bisnetos. Quando levanto pela manhã, já penso: que dia é hoje? O que tenho para fazer? Às vezes minha programação muda, se a neta me liga e precisa de mim, vou para casa dela. Minha neta tem trigêmeos e quando ela precisa vou com ela ao pediatra.
Às segundas-feiras vou à aula de espanhol, das 14h às 16horas. Caminho 5 km todos os dias, nunca freqüentei academia. Depois da caminhada arrumo meu apartamento, tenho uma diarista que faz a limpeza e eu vou ajeitando durante a semana. Quando vou ao Brás fazer compras para as costuras, caminho mais uns 6 km. Faço ginástica oriental, no posto de saúde 2 vezes por semana, e aos domingos vou ao Parque Ibirapuera, fazer ginástica ou caminhar. Vou sozinha, estou acostumada
Quando dá tempo eu leio. Gosto de ler. Agora estou lendo: “Lucas, médico de homens e de almas, de Taylor Caldwell.
O interesse pela informática Há alguns anos, meu neto me orientou para comprar o computador e achei interessante. Precisamos estar bem informados. As pessoas dizem: Olha na Internet! Mas como? Se você não souber lidar com o computador fica de fora. Em 2000 comecei a aprender um pouco, depois parei 3 anos para ajudar a cuidar dos bisnetos, e agora voltei e comecei a usar o computador outra vez, mas não faço curso de informática. Eu falo para meu neto que estou atrevida, já entro em vários sites. Entro no Google e localizo o que eu preciso. Com a Internet, você se atualiza, se diverte e passa informações por e-mail.
Minhas amigas me mandam muitas coisas bonitas, meu genro também. Minha irmã tem uma câmara webcan, eu vou comprar uma, assim podemos nos comunicar e ver nossa imagem na tela.
A viuvez Em março de 2006 Alberto teve uns problemas de saúde, com uma taxa de glicose alta, passou mal, mas depois se recuperou.
Tereza e Alberto- 1998
Em 02 de novembro de 2006 o Alberto faria 80 anos. Em maio do mesmo ano, estávamos vendo a “Dança dos famosos” na televisão, quando pensamos em comemorar o aniversário dele em Buenos Aires.
Fomos nos organizando e em novembro viajamos para Buenos Aires. Chegamos lá no dia 1° de novembro e fui me informando sobre os passeios. Fizemos uma reserva para o dia 2 que era uma sexta-feira, para comemorarmos o aniversário dele numa casa de tangos chamada “Señor Tango”. A agente de turismo perguntou se queríamos deixar para o sábado e eu disse que não, seria para o dia 02 mesmo, que era o aniversário do Alberto. Nesse dia, fizemos passeios pela manhã, almoçamos no Porto Madero. Fizemos compras para os bisnetos e à tarde voltamos ao Hotel. Tomamos banho e nos vestimos. Alberto estava com tudo novo, meias, sapatos, cinto, tudo. Todo bonito.
Fomos para o “Señor Tango”, nem jantamos direito porque tínhamos almoçado churrasco. Estava tudo bem. Sentamos no camarote, casualmente próximo de 2 casais que estavam hospedados no mesmo hotel que nós. No início do espetáculo entrou um índio no palco, tocando flauta e pedindo que o acompanhássemos, Alberto todo animado, batia palmas para acompanhar. Depois fiquei sabendo que a música era o Hino da Patagônia.
Quando faltavam 15 minutos para meia noite, o cantor Fernando Soler, dono da casa de tango, entrou cantando e o Alberto comentou comigo que ele tinha um vozeirão.
Fernando Soler cantou o primeiro tango e no segundo tango, no meio da música, Alberto, carinhoso, passava a mão na minha cabeça, beijava minha cabeça, beijava meu ombro, e falava: como estou feliz, como está bom. Realmente eu sentia que ele estava muito feliz.
O Fernando ainda cantava, eu me virei para o Alberto para falar alguma coisa para ele, e ele estava de cabeça baixa. Percebi que ele estava morto. Ele ia cair. Eu levantei a cabeça dele, só saía o ar do pulmão. Pedi ajuda, e os casais se aproximaram para ajudar. Logo chegou socorro, fizeram respiração boca a boca, tentaram dar choque para reanimar, foi tudo tão rápido, ele foi bem atendido, mas não adiantou.
Eu sou muito chorona, choro com facilidade, até assistindo novela. Mas naquele momento eu não chorei. Os momentos que mais precisei me controlar, eu não chorei. Saí dali, fiquei sentada olhando o que eles estavam fazendo, e falava comigo mesmo que ele já estava morto. A esposa do Fernando Soler e a filha sentaram-se ao meu lado, e eu percebia que elas estavam preocupadas comigo, tentando me conter. Estávamos num lugar público, e se eu começo a fazer um escândalo? Ia acontecer um pânico geral. Ficamos conversando e elas tentando me distrair.
O médico tentou tudo. Eu esperava o médico fazer um sinal com a cabeça, mas ele não fazia. Mesmo assim eu tinha certeza de que não adiantaria mais nada. Lembro-me, que quando levantei a cabeça dele, falei só isto: Alberto, não faz isso comigo.
Foi no dia do aniversario dele de 80 anos. Fecharam o cortinado nosso camarote e o Fernando Soler continuou cantando ainda lá embaixo.
Fomos à delegacia, a moça da agência de turismo foi muito atenciosa, queria dormir comigo no Hotel, ficou preocupada, achou que eu estava muito controlada. Mas eu não quis. Queria ficar um pouco só. Tomei banho e chorei em baixo do chuveiro. Foi só.
Eu não pensava em nada, o choque foi muito forte. Deitei-me às 5 horas da manhã e levantei às 6 horas. Desci para tomar um café, tomei só café, não comi nada. É a pior hora, o momento dos pêsames. Não entendo como foi num momento tão grave na morte do meu marido e eu não chorei. Não sei onde fui buscar forças.
Fomos à delegacia, repeti tudo novamente, fomos para os advogados da agência de turismo, conversamos e ao meio dia o corpo já estava liberado. A Argentina já tinha autorizado a vinda para o Brasil, mas era sábado, e o consulado brasileiro estava fechado, só abriria na segunda feira. A moça da agência de turismo me perguntava toda hora se eu já havia avisado a família, se queria que ela ligasse. Eu dizia que não, que iria avisar. Não tinha nem dado o telefone do hotel para a família, falei que se precisasse eu ligaria.
No sábado à noite, liguei para a casa da minha filha e falei com meu genro. Falei para ele não perguntar nada, só escutar. Ele perguntou o que tinha acontecido e eu disse que o Alberto havia falecido, mas precisava esperar a abertura do consulado na segunda feira. Ele contou para minha filha e ela me ligou, queria ir para Argentina. A agência de turismo perguntou-me se eu queria alguém comigo, eles pagariam a passagem, mas eu não quis. Não tinha mais o que fazer, não adiantava ela ir para lá. A agência de turismo me deu toda assistência. No domingo a representante me mandou flores no hotel com um recadinho que almoçaria comigo. Fomos almoçar, ficamos conversando a tarde toda e ela me fez eu tomar um sorvete da patagônia. Na segunda feira nem precisei ir ao consulado, já estava tudo encaminhado. O advogado da agência de turismo providenciou tudo. Cheguei ao Brasil na quarta feira à noite. Minha filha e meu genro estavam me esperando no aeroporto. O corpo poderia ser cremado na Argentina, mas teria que esperar 60 dias. Eu não poderia ficar lá todo esse tempo, e nem deixar. Não tivemos a preocupação de fazer o seguro viagem, tive que pagar 13 mil reais do translado.
No outro dia pela manhã o corpo seguiu para a Vila Alpina e minha família toda veio para participar da cerimônia de cremação. Na verdade, a cremação é feita depois, não é no mesmo dia.
O Alberto adorava o mar, a as cinzas seriam jogadas ao mar. Jogamos as cinzas no Morro do Maluf, no Guarujá (São Paulo).
Não sinto solidão Quando Alberto faleceu, não tive depressão, mas no primeiro mês, eu não fiquei bem, emagreci muito. Não fiquei sozinha, graças ao nascimento dos trigêmeos, meus bisnetos. Quando os trigêmeos nasceram, o Alberto ainda estava vivo e eu ajudava a cuidar deles. Eu dormia na casa deles e pela manhã voltava para a minha casa. Sempre que chegava, lá pelas 10 horas da manhã, encontrava o Alberto na varanda, sentado em uma cadeira escrevendo, foi essa imagem que demorou a sair da minha mente.
Fazia o almoço, almoçava com ele, tomava banho e quando era 15 horas já estava novamente com os trigêmeos.
Depois que o Alberto faleceu, eu não voltava mais para casa, ficava direto na casa dos meus bisnetos e uma vez por semana eu ia cuidar da minha casa e das plantas. Minha neta é comissária de bordo e tem que viajar. Fiquei direto lá até os bebês completarem 1 ano e meio. Isso me ajudou muito.
Em janeiro de 2008, voltei para minha casa, chamei minha diarista e retomei minha vida. Senti muita falta do Alberto. Tenho muita saudade.
Voltei a fazer minhas caminhadas e voltei a costurar, fico até as 22 horas costurando. Meu quartinho de costura é gostoso, todo equipado, organizado, com tudo à mão. Tem o ferro, a mesa de passar roupa, minha máquina de costura, as linhas, os moldes, os tecidos, fica tudo à mão. Tenho até uma televisão no quartinho.
Ocupo-me o tempo todo. A solidão está dentro da gente, não é o movimento que afugenta a solidão. Você pode ter muita gente em volta e sentir-se sozinha. Às vezes a gente está sozinha, mas não está solitária. Tenho amigas, também tenho minha família.
Sempre fui muito independente. Nunca gostei de “bengala”. Como estou acostumada a fazer tudo sozinha, acho que as pessoas também são assim e esqueço-me de oferecer ajuda. Sempre que minha amiga vai ao açougue ela pergunta se preciso de algo. Sou tão independente que às vezes até esqueço-me de oferecer ajuda a ela. Quando alguém vai à feira, pergunta se eu quero alguma coisa eu digo que não. Comecei a prestar mais atenção a isso. Quando a pessoa tem alguma coisa, ela não sabe o que é não ter.
A saúde Sempre fui magra, nunca fiz regime. Quando casei tinha 45 quilos, hoje estou com 48 quilos. No ano passado tive uma alteração de pressão, acho que foi preocupação, com alguns problemas de saúde da minha mãe. Minha pressão oscilava entre 10 e 16. O médico achou que não era necessário tomar medicamento. A pressão normalizou. Faço controle e ela está sempre boa.
Alimento-me de forma saudável. Pela manhã tomo café com leite, pão integral ou torrada, queijo branco e uma fruta, de preferência mamão. Gosto de pão com manteiga, não gosto de margarina. Minha neta fala que é preciso tomar cuidado com a manteiga, mas eu só como manteiga pela manhã.
Entre 10 e 11 horas, como uma fruta e tomo um café. Sempre fiz minha própria comida. Enjoa comer sempre fora. Faço meu almoço, me alimento bem. Almoço e janto. Prefiro jantar a tomar lanche. Gosto de arroz, feijão, mas não abro mão da carne vermelha, porque sou metade gaúcha, metade Argentina. O chimarrão eu só tomo quando vou à minha mãe. Atualmente só como carne vermelha de vez em quando. Substituí pelo frango e pelo peixe.
Não tomo refrigerante. Tomo bastante água. Antigamente eu não tomava tanta água e meu fígado estava comprometido, depois que passei a consumir mais água por recomendação médica, meu fígado sarou. Não tomo remédio nenhum, nem comprimidos de vitaminas. Meu colesterol está normal. Uma vez tive uma pequena alteração, mas nem cheguei a tomar remédio. Só com a alimentação normalizou. Sempre comi de tudo. Adoro fritura, carne de porco, costelinha, mas hoje evito, não como tanto. Às vezes antes de dormir como uma fruta. Não fumo, faz 27 anos que parei de fumar. Um dia decidi e achei que estava na hora de parar.
Gostava de fazer pizza em casa. Aos sábados eu fazia uma pizza com meu marido e tomava uma latinha de cerveja. O Alberto não gostava de beber, só tomava água. Gosto muito de vinho também e às vezes eu tomo. Minha mãe tem 95 anos e ainda toma cerveja. Não podemos encher a cara, mas uma latinha pode. O médico autorizou.
Hoje minha pizza é diferente, mais leve. Faço com pão integral. Pego o pão integral, coloco tomate, azeite, orégano, mussarela e coloco no forno, fica mais nutriente. Pego minha latinha de cerveja e pronto.
Durmo bem e raramente eu acordo à noite. Nunca tomei remédio para dormir. Sempre vou dormir por volta da meia-noite porque eu entro na Internet depois que acaba a novela. Meu telefone toca o tempo todo. Cheguei à conclusão que é melhor trocar e-mails à noite
Uma lição de casa... para envelhecer bem Envelhecer para mim é viver o tempo, é acumular experiências, aceitar o envelhecimento e viver bem com saúde. Minha mãe está com 95 anos e está bem. Envelhecer é colher o que você plantou. Plantam-se coisas boas vai dar frutos bons. Envelhecer é colher, é aceitar os sinais de vivência. Não tenho essa vaidade de achar que tenho que concertar aqui ou ali no corpo. As pessoas que trabalham na televisão precisam estar sempre em forma porque dependem da imagem, mas as pessoas comuns, não. Pode se cuidar sem ser demasiadamente vaidosa. A família também é importante Fico com pena de pessoas que não têm família, que não têm ninguém. Às vezes têm, mas abdicou da família, se afastou. Minha família é unida, conseguimos nos reunir.
O que me ajudou e me ajuda a envelhecer bem: a união da família, a saúde que eu tenho, a alimentação saudável, saber aproveitar bem a vida, ter lazer, horário de descanso, e meu trabalho. O trabalho é muito importante. Na verdade o trabalho é tudo. Tendo trabalho você não tem tempo de pensar bobagem.
Às vezes eu penso: até quando? Até quando eu vou poder caminhar, fazer minhas costuras, ter coordenação motora, poder ler? Minhas irmãs também estão bem. A genética é boa, mas também não adianta só ter uma genética boa, tem que se cuidar também.
|
![]() |
||