Idosa abandonada em Feira viaja para Recife

Edson Borges

“Pedi muito a Jesus que me trouxesse Severina ou você, Tonho. Já estou pronta. É só botar as pernas na estrada”. Esta foi a frase emocionada que dona Lídia do Bom Parto Simões, 87 anos, disse na sexta-feira, 10, quando reencontrou o filho, Antônio Ferreira da Silva, depois de 26 anos.

Ele veio à Feira de Santana fazer uma espécie de resgate da mãe, que foi abandonada, como uma bagagem, num ônibus que saiu do Rio de Janeiro para o Ceará. Na sexta mesmo, por volta das 17h, a novela teve fim com a viagem para Recife e depois Olinda, onde a idosa vai morar com o filho e uma neta.

“Sofri muito. Se fosse uma pessoa de menos juízo, tinha tomado veneno”, desabafou dona Lídia, abraçada com o pedreiro Antônio, 63 anos, casado, pai de oito filhos e avô de 17 netos e um bisneto. Ele veio de Olinda, onde reside, com a missão de buscar a mãe para morar com ele. Uma filha dela, Severina, também apareceu no Lar do Irmão Velho, entidade que abrigou a idosa em Feira desde o dia 29 de setembro. Mas Severina alegou que não tinha como manter a mãe em casa, recomendando que ela continuasse no abrigo.

Dona Lídia foi embarcada no Rio de Janeiro por um homem não identificado e chegou a Feira de Santana no dia 27 de setembro. Passou um breve tempo internada num hospital e depois foi encaminhada ao Lar do Irmão Velho.

Antônio chorou quando viu a mãe, ajoelhou-se ao lado dela e disse logo que ela iria morar com ele. Ele trouxe uma filha, Maria do Bom Parto, que viu a avó paterna pela última vez há quase 30 anos. “Ele (o pai) se comunicava com a mãe por telefone ou carta”, contou.

Em meio a toda a emoção do reencontro, Lídia do Bom Parto Simões mostrou que estava novamente feliz ao fazer uma brincadeira com o filho: “Quantos anos você já tem, Tonho?”, perguntou. “Já estou com 63, mãe”, respondeu o pedreiro. “Você é muito engraçadinho. Quem tem 63 sou eu; você deve estar com uns 24”, retrucou e os dois sorriram muito.

A secretária municipal de Ação Social, Lúcia Miranda, que localizou Antônio em Pernambuco, disse que estava impressionada com a recuperação de dona Lídia. “Ela estava mal humorada, agressiva, não queria conversa com ninguém. Sofreu um choque grande e parecia que havia perdido completamente a lucidez. É incrível como ela está agora, depois que viu o filho”, comentou. “Ela sofreu muito. E natural que tivesse ficado tão mal humorada e agressiva”, acrescentou a presidente do Lar do Irmão Velho, Luiza Brandão.

Feliz com o fim do abandono a que foi relegada, dona Lídia demonstrou que estava muito preocupada com um dos dois filhos adotivos que tem no Rio de Janeiro. “Tonho, nós temos que levar Jorge também para morar com a gente, ajudar ele criar os filhinhos dele”, apelou para o filho Antônio.

Depois de um longo tempo abraçados e conversando, dona Lídia fez questão de mostrar ao filho o quarto em que ela ficou durante esses 12 dias no Lar do Irmão Velho. Vivendo um momento de privacidade depois de 26 anos que não se viam, os dois caminharam sozinhos até o cômodo, conversando. No final da tarde, mãe, filho e neta foram para a rodoviária, onde embarcaram para Pernambuco.
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Fonte: A Tarde On Line, 11/10/2008.
http://www.atarde.com.br:80/cidades/noticia.jsf?id=982300