Um diálogo sobre papéis sociais, vazio existencial, envelhecimento e velhice...

Karina Marques da Silva 1
Mauri de Carvalho Braga 2
Diretamente para o Portal

 

Olá Karina,
O artigo que lemos recentemente me fez refletir muito sobre algumas questões existenciais... Penso muito sobre os papéis que exercemos socialmente e como são vitais para estarmos bem. Isto me remeteu a um filme que assisti: "O Náufrago" - quando o protagonista cria o amigo Wilson para poder interagir. Não tenho muitos conhecimentos de Gerontologia, mas vejo a solidão da terceira idade como um grande desafio para nós profissionais. Vou um pouco além, na questão do auto-extermínio, há alguns estudos que apontam o aumento de suicídio entre jovens, que da mesma forma não dão muito conta de espaços vazios existenciais. Ao mesmo tempo, vejo o idoso como um ser mais pré-disposto a este vazio.
Queria a sua opinião sobre isto.
Mauri

 

Mauri,
"Representações Sociais", "Suicídio", "Vazio Existencial", "A Solidão do Idoso"... As temáticas que você levantou em sua reflexão requerem mais do que uma opinião! Dariam verdadeiras dissertações! São fortes e profundas!

Como você frisou, os papéis sociais são vitais (e em qualquer idade!). Pergunto eu: como manter a essência da vida quando são "roubados" os papéis sociais de um ser humano? Com a nossa mania de infantilizar os idosos e desvalorizá-los contribuímos para a promoção do isolamento e da solidão. O ser humano, mergulhado numa atitude paradoxal de prolongar a vida, tem demonstrado não saber o que fazer com ela depois.

Concordo com você quando diz que estamos diante de um grande desafio profissional. Acredito que UM (de nossos muitos) importante desafio é promover a desconstrução da negativa imagem social da velhice. Já é hora de encararmos a velhice de frente e entendê-la como uma fase de perdas e ganhos tão comum quanto a infância e a adolescência, por exemplo (ou será que também não temos perdas e dificuldades a serem enfrentadas em outras fases da vida??!!!). Já é tempo de pararmos de pensar que o velho é o outro. É chegada a hora de respeitarmos a velhice "do outro". E, mais do que isso, precisamos aceitar a nossa própria velhice, sem essa de "melhor ou pior idade".

À exceção dos que morreram ou morrerão precocemente, TODOS NÓS, já envelhecemos ou envelheceremos nas próximas décadas. Logo, faz-se necessário falar sobre a velhice, pensar na velhice... Se ela é uma iminência (mundial, inclusive) em nossas vidas, aprendamos, portanto, a vivê-la de forma digna e sensata! Falemos sobre a senescência e sobre a senilidade nas escolas, na comunidade, nas ruas, em nossas casas... nas mais variadas instituições! Trabalhemos para a garantia de condições de vida mais adequadas, para que possamos viver (e não meramente sobreviver) nesta passagem terrestre comum a todos nós!

Estudiosos da força da mente humana dizem que "somos o que pensamos". Oras! Então tratemos de investir em nossas atitudes e em amadurecer nossos pensamentos!

A literatura, os filmes (a mídia de maneira geral) e a própria vida mostram que há pessoas que envelheceram à flor da idade e outras que morreram (muito idosas) iluminadas pela luz e pelo vigor da juventude! Penso que, quando deixarmos de nos apegar às cronologias, aos estigmas, às discriminações e aos estereótipos, perceberemos que vida é VIDA em todo seu esplendor... em todas as idades! Notaremos, com maior clareza, que somos fatalmente sociais e, portanto, dependentes uns dos outros... Daí sim, quando "tudo" isso acontecer é possível que a morte deixe de ser a única solução... é possível que tenhamos menos crianças abandonadas, menos idosos desprezados e menos seres humanos perdidos em seus vazios existenciais.

Nossa! É realmente um desafio muito grande, não? E como encontrar a solução? Nas próprias atitudes humanas!

Eu, Mauri, verdadeiramente, acredito no poder de adaptação do ser humano, bem como na sua incrível capacidade de (re)criação. O processo de envelhecimento e a velhice (que apesar de fazerem parte de toda a história da humanidade e receberem, até pouco tempo, uma atenção muito sutil) têm alcançado, gradativamente, pautas muito importantes. Quando vejo os comentários, as buscas e as discussões na área, lembro-me de quando estávamos prestes a encarar o "bug do milênio"... tínhamos a impressão que um grande "buraco negro" estava à nossa espera... Que perderíamos informações... que "daria a louca" no mundo da informática! E cá estamos nós, a cada dia mais inseridos no mundo virtual! ... E não conheço pessoa alguma que tenha sido devorada pelo "bug"!

Da mesma forma, eu penso no aumento acelerado da população idosa. Tudo é ainda bastante novo! Assusta! Há muito que se avançar, muitos desafios a serem ultrapassados (PRINCIPALMENTE NO QUE DIZ RESPEITO À SENILIDADE!!!). Mas penso, também, que somos transição, somos processo... processo que ao mesmo tempo em que assusta, conduz à superação e ao amadurecimento. Muitas idéias serão, de pronto, repudiadas, outras... aplaudidas...

Sem otimismo exacerbado, tampouco, fatalismos, eu escolho acreditar que dias melhores virão para o envelhecimento, para a velhice e para todos nós... que lá já chegamos ou que estamos caminhando em sua direção, dia-a-dia...
Essa é minha opinião.
Karina

Junho/2008

1Karina Marques da Silva - Graduação em Serviço Social; extensão universitária em “Psicogerontologia: Fundamentos Teóricos, Ações e Intervenções”, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC/SP; aperfeiçoanda em Gerontologia, pelo Hospital do Servidor Público Estadual / São Paulo; integrante do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Envelhecimento (GEPE), do Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas (UniFMU); integrante do Núcleo do Envelhecimento, do Conselho Regional de Serviço Social de São Paulo (CRESS/SP – 9ª. Região).

2 Mauri de Carvalho Braga - Graduação em Serviço Social; pós-graduação em Metodologia do Ensino Superior. Experiência profissional em desenvolvimento de comunidade, adolescentes em situação de vulnerabilidade social, consultoria de grupos operativos, escuta preventiva ao suicídio com ênfase em abordagem humanista, educação à distância e supervisão acadêmica de estágio.