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O que o Esporte pode fazer pelos atletas... e por idosos
Por Maria Aparecida dos Santos Silveira (*)
Muitos idosos que se acostumaram a acompanhar o esporte pela tevê – os chamados torcedores de poltrona - jamais se sentiram motivados a deixar o sofá para se exercitar em praças ou parques próximos à sua casa. Pois é preciso que saibam que o esporte pode muito ajudá-los a se sentir melhor em seu dia-a-dia. E já que a humanidade está vivendo cada vez mais, qual a razão para negar ao nosso corpo e à nossa mente os benefícios que o esporte pode proporcionar?
Os Jogos Olímpicos de Pequim, disputados ano passado (2008), mostraram as vantagens da prática esportiva para atletas mais velhos. Foram nas pistas, ginásios e piscinas chinesas que vários atletas, acima dos 30 anos, ganharam aplausos e medalhas.
Isso surpreende, não é verdade? Afinal, tal idade havia se imposto quase como um limite para atletas de alta performance em atividades de explosão, de velocidade, de muito contato físico. Tudo porque com treinos intensos e longos, competições acirradas e frequentes, o físico se desgasta mais rápido e as contusões geralmente são constantes.
A soma de tudo isso levava a grande maioria a se despedir deste evento tão sonhado exatamente por volta desta faixa etária. A continuidade ou não no esporte iria depender do estímulo que eles ainda conseguissem ter.
Entretanto, alguma coisa diferente aconteceu na China. Tanto no masculino como no feminino, os Jogos Olímpicos de Pequim mostraram que, “além de ser mais rápido, mais forte e mais ágil do que os demais, o ser humano pode ser tudo isso por mais tempo”, escreveu o dr. Wilson Jacob Filho, em sua coluna do suplemento Equilíbrio, da Folha de São Paulo, parodiando o lema olímpico sitius, altius, fortius.
A maior sensação entre eles foi a nadadora norte-americana Dara Torres. Aos 41 anos, ela mostrou vigor e preparo exuberantes ao vencer uma semifinal dos 50 metros livre – uma prova de explosão total –, deixando em segundo Cate Campbell, uma jovem australiana de 16 anos. Mas o melhor viria na final, um dia depois. As qualidades de veterana, cuja primeira participação olímpica ocorreu em 84, em Los Angeles, voltaram a possibilitar que ela voasse dentro da piscina.
Pelo Brasil, aos 32 anos, Maurren Maggi, na primeira tentativa na final do salto em distância feminino, conseguiu sua melhor marca na temporada (7m04), a segunda maior do ano, e foi a campeã. Por sua vez, o vôlei feminino mostrou a excelente performance da levantadora Fofão que, aos 37 anos, foi a artífice das belas jogadas que levaram o Brasil à inédita medalha de ouro. Que façanha de todas essas atletas!
Mas, o que as levou – e também a outros não mencionados aqui - a obter tal performance com uma idade antes proibitiva para um atleta de ponta? Estes longevos atletas pareciam não sentir nenhum desgaste a mais aos olhos grudados do público, que os acompanhou e torceu muito por eles.
Afinal, o que aconteceu?
Algumas explicações
Uma das respostas que a medicina tem para tal exibição diz que “todo atleta campeão é um fenômeno genético. A sua singularidade pode ser no nível de desempenho e, em outros aspectos, na longevidade competitiva. Mas, além da genética privilegiada, outros fatores podem ter contribuído, tais como a nutrição, as técnicas de treinamento, ou mesmo drogas não detectadas. Mas, não é possível identificar os fatores mais atuantes”, diz o dr. José Maria Santarém, médico fisiatra.
Por tal explicação, deduz-se então que as exibições brilhantes partiram de homens e mulheres fenomenais. Mas, também se pode concluir que os extenuantes treinos diários mudaram a ponto de permitir que esses atletas competissem, nessa altura dos anos, sem serem incomodados pelas fatídicas lesões. As mesmas lesões que, em centenas de casos, forçam o indivíduo a se retirar do esporte pelo qual ele foi capaz de limitar sua vida a treinos e mais treinos, deixando de lado família e vida social. Finalmente, também se depreende que a alimentação adequada e ainda drogas imunes aos exames antidoping podem ter contribuído para o desempenho perfeito de todos esses longevos esportistas.
Uma outra corrente da medicina concorda com o fato desses atletas serem exceção, mas envereda por outro caminho. “No esporte de alta performance há uma tendência em aumentar o tempo de competitividade, a longevidade atlética, comparando-se com anos anteriores. Isto vem acontecendo em função dos recursos mais modernos de treinamento, mas também em virtude dos recursos médicos em ortopedia que levam as pessoas a se recuperarem mais. E há um diferencial nestes atletas de exceção: eles são mais maduros - lidam melhor com a ansiedade para obter melhor performance, sabem quais são os caminhos mais curtos para chegar até onde desejam, se auto-conhecem melhor. Eles aliam maturidade e experiência ao apoio da ciência esportiva, o que permite o aumento da longevidade competitiva”, avalia o dr. Marcos Murillo Galan, clínico médico com aperfeiçoamento em geriatria.
Ao juntarmos as duas explicações uma pergunta vem à mente: e então, esses atletas continuarão competindo nos Jogos Olímpicos? Dizer que sim seria assinar uma sentença utópica? Dizer que não seria apostar em uma estagnação?
Os especialistas voltados ao prolongamento do bom funcionamento desses corpos atléticos garantem que a competitividade fatalmente vai decair com o envelhecimento, o que equivaleria a dizer que, para os Jogos Olímpicos, a grande maioria deles estaria descartada.
O fato, porém, não significa que estes atletas vão deixar de competir. “Em uma competição como as Olimpíadas será quase impossível”, frisa o dr. Santarem. “Sem dúvida, provas por faixa etária são o mais adequado. E cuidados com a detecção de doenças também devem ser enfatizados porque os atletas não estão imunes a elas, e a competição é um fator de risco”, complementa.
Não há escapatória, mesmo para os fenômenos. Os geriatras que trabalham com seriedade avisam que “o conceito de senescência, que é o envelhecimento fisiológico natural, cabe em todo mundo que não envelheça com doença (conceito de senilidade). Sendo assim, mesmo um atleta de alta ou média performance muda o físico e passa pela redução da capacidade fisiológica do organismo, isto é, por uma redução da reserva funcional dos órgãos. Com todo mundo acontece isso. Não existe terapia antienvelhecimento. A nadadora Maria Lenk, que nadou durante toda sua vida, não possuía, aos 80 anos, o mesmo pulmão que tinha aos 60”, lembra o dr. Galan.
Agora, se mesmo os fenômenos pararem de se exercitar, o sinal de alerta será ligado. “Muitos atletas de alto nível param de competir em função de queda do desempenho, que pode ocorrer devido a lesões ou ao envelhecimento. Muitos perdem o estímulo para treinar e isso pode levar à piora da sua composição corporal, afetando negativamente a aparência física”, diz o dr. Santarém.
Definitivamente, quem pára perde tudo o que ganhou ao longo da carreira esportiva. “Mesmo um atleta de alta performance, se pára, perde massa muscular, capacidade aeróbica e não consegue competir mais”, explica o dr. Galan. “E isso não ocorreria se continuassem com os exercícios e cuidando da alimentação”, completa o dr. Santarém.
Sendo assim, espera-se que esses campeões também sejam inteligentes e se cerquem de pessoas capazes de estender essa longevidade que tanto espantou o mundo a partir de Pequim. Espera-se que continuem competindo e se dirigindo para uma velhice ativa e, claro, saudável. “Para envelhecer bem, eles terão de continuar com atividade física moderada. O ganho não permanece”, orienta o dr. Galan. “Mesmo assim, não vamos esquecer que são fenômenos genéticos”, relembra o dr. Santarém.
A palavra de quem não é médico
Ricardo Prado simplesmente é o ex-recordista mundial dos 400 metros medley, resultado que obteve no Campeonato Mundial de Natação do Equador, em 1983. Ele, ao contrário de muitos colegas de piscina, não conviveu com problemas de contusão, mas não escapou do treino exaustivo, repetitivo e diário. Foi medalha de prata na mesma prova, nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, nos Estados Unidos, em 1984, onde viu a Dara Torres de Pequim ganhar medalha por equipe na prova de revezamento 4x100 metros livre.
Ele, assim como todos que presenciaram a exibição dessa longeva norte-americana, admirou-se e aplaudiu-a. “Em Pequim, ela conseguiu vencer a eliminatória e ficar em segundo, por apenas um centésimo, numa prova de explosão como é a de 50 metros livre. E se alguém ainda coloca em questão sua atuação pelo fato de a prova ser curta, basta dizer que ela nadou os 100 metros livre igualmente muito bem”, explica. “Ela tem muito mérito pessoal naquilo que conseguiu fazer na China”.
Mas, ao mesmo tempo em que elogia a nadadora, Ricardo explica um aspecto importante para se entender a longevidade de Torres. “A Dara parou de competir por oito anos entre os Jogos Olímpicos de 2000 e este último. O que ela fez durante esse período, foi manter-se em atividade, cuidando de sua saúde, da alimentação e redirecionando seu treinamento para competir nos 50 metros, uma prova curta que não existia em 1984. Ela não competiu durante todos esses anos”.
Nosso ex-recordista mundial lembra que Dara nunca sofreu com lesões por excesso de treinos na piscina. “Como uma velocista na água, ela nunca precisou treinar muito, tanto quanto eu, por exemplo, que nadava uma prova mais longa e que exigia mais resistência. Ela alternava piscina com exercícios fora dela, como a musculação. E continua fazendo isso também hoje.”
Longeva, mas com alternâncias em competição de alta performance e com mudanças de perspectiva. Sábia combinação. No caso específico de Dara Torres, Prado credita outro aspecto para sua longevidade na natação: o fato de poder se dedicar integralmente ao esporte, desde quando os dois nadavam juntos nos Estados Unidos, graças a patrocinadores e ao suporte de uma família abastada. Ricardo, ao contrário, não pôde contar com esse benefício e largou a piscina aos 22 anos, consagrado e satisfeito com seu êxito. Mas, largou a piscina de vez e passou a trabalhar com a natação. Engordou 15 quilos, na contramão de Dara, que se aproveitou de sua boa condição de vida para se beneficiar fisicamente e, quem sabe mais para frente, se consagrar como atleta longeva. Exatamente o que aconteceu.
“Atualmente, dentro da natação, os especialistas vêm descobrindo que é melhor começar a nadar mais tarde e a competir também. De 20 anos para cá a natação viu atletas mais velhos caírem na água das piscinas dos Jogos Olímpicos. Os casos de atletas com 16 ou 17 anos praticamente não existem mais. Eu parei de nadar com 22 anos e era isso o que acontecia em minha época. Eu não fui uma exceção, fui a regra!!”, exclama Ricardo.
O tempo em que Dara se manteve ativa, isto é, por quase três décadas, foi um período em que ocorreram ajustes que beneficiaram os atletas, tais como introdução do profissionalismo nas provas, um maior conhecimento sobre o perfil do atleta para a natação, o início com idade mais elevada, os treinos mais adequados para cada prova.
“Eu vi a Dara nadar nos Jogos Olímpicos de Sidney, em 2000, e muita gente dizia naquela época que ela não mais nadaria ao sair de lá. E ela voltou em Pequim, oito anos depois, e vitoriosa. Agora, se ela pode nadar novamente nos Jogos Olímpicos de 2012? Não sei. Se ela quiser prosseguir, acho que vai depender de como ela se planejar para a prova que pretender nadar”, arrisca a dizer.
Atualmente com 43 anos e de volta à piscina e à academia de ginástica, depois de ter sofrido um enfarto há cinco anos, Ricardo Prado afirma com conhecimento de causa que o esporte é a salvação para todo ser humano. “Digo isto sem demagogia. Competir pode ser uma coisa para a vida inteira. Em qualquer idade, em qualquer modalidade. O atleta pode sair de um esporte que o levou a ter lesões para um outro em que não haja possibilidades de isso ocorrer. Tenho certeza disso”.
Portanto, à atividade, senhores idosos!
Mudanças nos treinos, com enfoque específico para cada prova, possibilidade de contar com a evolução constante da medicina para curar as lesões dos atletas, novidades na alimentação, introdução de drogas que favoreçam à saúde e não sejam consideradas doping, etc, etc, etc... Os médicos especialistas explicam; o atleta que vivenciou tudo e acompanhou as mudanças também tem sua opinião; os Jogos Olímpicos de Pequim nos mostraram a realidade. 2008 foi, sim, um ano de mudanças para a longevidade dos esportistas. Mas, não só para os esportistas de alta performance.
Do lado de fora das pistas, a ciência esportiva vem se surpreendendo com o aumento das performances na terceira idade. Nas academias de ginástica, vêem-se os idosos levantando cargas cada vez maiores nos exercícios de musculação. E em um esporte como a maratona, por exemplo, onde se corre 42,1 quilômetros, pode-se ver corredor com início tardio na modalidade apresentando um bom desempenho em sua faixa etária. Ou seja, o esporte é sim o suporte que o ser humano precisa para se manter saudável.
“Claro que o limite é individual, mas não há por que não se iniciar no esporte, na atividade física, durante a terceira idade, após uma avaliação médica. Estamos verificando quebras sucessivas de paradigmas e isso é surpreendente”, reforça o dr. Galan.
Apesar disso e mesmo com orientação médica, ainda não são muitos os idosos que se rendem à “salvação do ser humano”, como afirmou Ricardo Prado. No Brasil, o número dos ativos aumentou bastante, mas poderia ser bem maior se as academias não fossem tão caras. Ou se existissem políticas públicas que criassem mais piscinas públicas, praças esportivas com uma estrutura adequada, aliadas a um sistema de transporte coletivo eficiente, que propiciasse um rápido deslocamento pela cidade, por exemplo.
(*) Jornalista. Este trabalho foi apresentado como conclusão do curso: Psicogerontología: fundamentos e perspectivas, COGEAE-PUC-SP. |
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