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Audição e envelhecimento O Brasil está deixando de ser um país jovem. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE (2005), o brasileiro está vivendo mais. Até 1991, a população idosa não ultrapassava 11 milhões; em 2000 já eram mais de 15 milhões. A expectativa de vida da população brasileira aumentou 2,6 anos, ao passar de 66,0 anos, em 1991, para 68,6 anos, em 2000. Vale destacar que o diferencial entre os sexos experimenta um ligeiro incremento: em 1991, as mulheres possuíam 7,2 anos de vida média superior à dos homens, enquanto que em 2000 esse diferencial é de 7,8 anos. A projeção da expectativa de vida para 2050 é de 77,2 anos. Segundo dados do Sistema Estadual de Análise de Dados – SEADE de 1o. de julho de 2005, a população com mais de 60 anos do estado de São Paulo era de 9,67% (10,11% na cidade de São Paulo). Nessa mesma data, o índice de envelhecimento era de 39,17% no estado de São Paulo (41,58% na capital). O aumento da longevidade é reflexo direto da crescente busca por melhor qualidade de vida, do sucesso no controle de algumas doenças infecciosas e da evolução dos tratamentos de doenças crônicas. Da mesma forma, o aumento da expectativa de vida permitiu e estimulou o estudo de doenças típicas do envelhecimento, dentre elas, as seqüelas auditivas que a idade pode produzir. O processo de envelhecimento é inerente à raça humana e atinge, em velocidades e graus diferentes, todos os diversos tipos de células que compõem nosso organismo, incluindo também o sistema auditivo (Ribeiro, 1999). A perda auditiva é uma das três principais condições crônicas que afetam a população idosa, perdendo apenas para as artrites e a hipertensão (Bess et al, 1999). Denominada presbiacusia, a perda auditiva associada à idade é caracterizada por ser simétrica, bilateral, neurossensorial, com configuração descendente (atinge primariamente freqüências altas) e pode alcançar grau moderado. Além disso, a presbiacusia freqüentemente leva a uma série de dificuldades na comunicação oral e na interação familiar e social. Estudos epidemiológicos vêem sendo realizados em grande escala nos países altamente desenvolvidos, porém, no Brasil, eles ainda não acontecem, pois requerem aplicação de recursos nem sempre disponíveis. Entretanto, já existe um consenso de que o envelhecimento do sistema auditivo é o resultado cumulativo de vários fatores intrínsecos – genética – somados a fatores extrínsecos – exposição a ruídos ocupacionais e não ocupacionais; nutrição; estresse; uso de medicamentos (Russo, 1999). Outro aspecto importante a ser considerado é que o envelhecimento do sistema auditivo não se restringe apenas à sua porção periférica. Embora existam evidências sugerindo degeneração coclear, acredita-se que também ocorra disfunção do sistema nervoso auditivo central. Ou seja, que a diminuição no número de células íntegras disponíveis acomete desde as células ciliadas do Órgão de Córti, até as células nervosas do lobo temporal, passando por toda a via auditiva nervosa e afetando, desta forma, a integridade funcional de todo o sistema envolvido no processamento de estímulos sonoros. Logo, o envelhecimento não representa somente a perda do limiar auditivo, mas também a diminuição da eficiência de todas as habilidades auditivas (Rose e Feniman, 2001). Os prejuízos ocasionados pela diminuição da audição periférica podem ser facilmente observados, ao encontrarmos resultados abaixo do esperado nos testes de fala (audiometria vocal ou logoaudiometria) que compõem a avaliação audiológica básica. Tais efeitos podem também ser detectados pela queixa do próprio idoso e ou da família de que o indivíduo “escuta, mas não entende”. Quando a audiometria tonal aponta perda auditiva periférica neurossensorial, acredita-se que a questão está resolvida, visto que a presença de um problema na entrada da informação faz com que essa não seja decodificada corretamente. Entretanto, nem sempre isso ocorre: há casos em que o idoso apresenta limiares auditivos dentro dos padrões de normalidade e, mesmo assim, tem inúmeras queixas de compreensão de fala e comunicação. Alvarez et al (2000) salientaram que alterações do processamento auditivo podem ser decorrentes de disfunções morfológicas do sistema nervoso auditivo. Desta forma, sendo o envelhecimento um processo degenerativo que provoca uma alteração morfológica nas células, pode haver comprometimentos da função auditiva central decorrentes do avanço da idade: a qualidade do processamento da informação auditiva diminui, interferindo diretamente nas relações sociais do idoso. Todo o funcionamento auditivo que envolve não só o ouvir, mas a compreensão da mensagem ouvida fica comprometida, requerendo atenção especial dos profissionais envolvidos com esse idoso (Veras e Mattos, 2007). Problemas de compreensão de fala são muito comuns na população idosa e podem ser classificados como: (1) déficit nas habilidades de análise e discriminação do som que estariam mais relacionadas com as alterações periféricas, (2) ou déficits nas habilidades cognitivas que presume envolvimento dos processos centrais. Por esse motivo, faz-se necessária pesquisa e desenvolvimento de testes sensibilizados para avaliar a evolução do sistema nervoso auditivo com a idade (Pinheiro e Musiek, 1985; Moore et al, 1992). O fato é que, seja de ordem periférica ou central, as alterações auditivas decorrentes do envelhecimento convergem para um problema: a dificuldade de comunicação do idoso e, por conseqüência, sua tendência ao isolamento social. Esta alteração sensorial gera no idoso um dos mais incapacitantes distúrbios de comunicação, impedindo-o de desempenhar plenamente o seu papel na sociedade. Russo (1999) ressalta que o isolamento da pessoa idosa devido às alterações auditivas gera um impacto psicossocial profundo neste idoso, além da audição ser imprescindível como mecanismo de alerta e defesa contra o perigo, permitindo localizarmos fontes sonoras à distância, dando-nos segurança e participação vital. A avaliação audiológica no idoso deve conter não apenas exames que visam definir os limiares audiométricos do indivíduo, mas devem, também, avaliar a qualidade do processamento central da informação auditiva. É necessário conhecer melhor a forma como o idoso processa a informação auditiva para que na etapa da intervenção e reabilitação auditiva cada dificuldade específica possa ser trabalhada ou contemporizada, desde a escolha da melhor ou mais adequada tecnologia para aquele idoso em questão, bem como nas estratégias de comunicação indicadas no processo de reeducação auditiva. Um diagnóstico correto deve contar ainda com o uso de questionários de auto-avaliação para considerar a percepção do paciente em relação a sua própria audição, pois nem sempre o resultado da avaliação audiólogica reflete na íntegra o uso funcional que o idoso faz de sua audição (Veras e Mattos, 2007). O diagnóstico e a intervenção precoce da perda auditiva associada à idade são fundamentais para garantir uma boa qualidade de vida do indivíduo idoso com envelhecimento digno. Referências
Daniela Soares de Queiroz |
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