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A importância do uso dos limpadores
linguais nos pacientes idosos
Por Jacy de Azevedo Leite e
Prof. Dr. Fernando Luiz Brunetti Montenegro -
pesquisador
mentor
Resumo:
Este trabalho analisa a literatura concernente aos limpadores
linguais, face à sua importância primordial não só na higiene
bucal como em sua participação na qualidade de vida do idoso de
uma forma complementar, mas não menos significativa. Buscou-se
conhecer a maioria dos tipos disponíveis no comércio brasileiro e
destes foi feita uma classificação por material de confecção e
formato da ponta ativa. Também se procurou fazer uma padronização
sobre sua aplicação, freqüência de uso, limpeza e troca. Do
analisado, obteve-se as seguintes conclusões: a limpeza da língua,
particularmente nos pacientes acamados e nos idosos em geral
mostra-se como medida necessária; a grande presença bacteriana
nesta região parece ser fator significativo na contaminação
pulmonar, muito freqüente nesta faixa etária; o limpador lingual
se mostra como um meio complementar de limpeza bucal muito
eficiente na 3a idade; seu uso deve ser difundido entre
todos os envolvidos com os cuidados de saúde com pacientes idosos
e de todas as faixas etárias.
UNITERMOS: Gerontologia, Odontologia Geriátrica, Higiene bucal, Limpadores Linguais
“É
desejável que a superfície da língua seja limpa. Nada dará à boca
uma sensação de refrescância do que uma língua limpa. Deve-se
recomendar que a língua seja completamente limpa no nascer de cada
manhã como o último passo na técnica de higiene bucal”.
Greene Vardiman BLACK (1936)
Introdução
Já
faz parte de nossa realidade o constante e gradativo aumento do número de
idosos em nível mundial. E no Brasil, como a situação não é
diferente, projeções da Organização Mundial da Saúde - OMS indicam
que esta parcela da população crescerá cerca de dezesseis vezes até
2025, contra apenas seis vezes da população em geral. Os cuidados
médicos para esta população devem estar centralizados essencialmente
na melhoria da qualidade de vida, com especial atenção à prevenção
de doenças e enfermidades(4).
Além
das alterações anatômicas e fisiológicas que promovem o processo
degenerativo próprio da idade, podemos também lembrar as doenças ou
estados patológicos diversos, que muitas vezes obrigam os pacientes
a serem internados ou mesmo que fiquem imobilizados numa cama,
prejudicando de forma geral toda a qualidade de vida do paciente.
Dentre
os problemas de saúde que acometem pacientes idosos, um está
relacionado diretamente com sua saúde geral, que é a nutrição, pois
quando os pacientes apresentam próteses as quais estão desadaptadas
ou mesmo são removidas, prejuízos ao Sistema Estomatognático se
farão apresentar, pois estes pacientes passam a ingerir mais
alimentos líquidos e pastosos, pela dificuldade de mastigação de
alimentos mais consistentes que seriam necessários para um bom
funcionamento do seu Sistema Digestivo, particularmente as fibras.
(23).
O idoso
está cada vez mais motivado para cuidar da saúde bucal porque já
percebeu que um número maior de dentes naturais na boca irá
proporcionar maiores benefícios sociais e biológicos como a
estética, a boa fonação, o conforto para mastigar e deglutir e,
ainda, se deliciar com o sabor dos alimentos. Por isso, é cada vez
maior o número de indivíduos que chegam à terceira idade com um
grande número de dentes naturais (BRUNETTI; MONTENEGRO, 2002).
Considerando os diversos meios de preservar as estruturas dentais,
as medidas de uma correta higienização são as mais importantes com o
uso de escovas de dentes, fio dental, escovas interdentais e demais
dispositivos de limpeza conforme as características clínicas de cada
caso. Mesmo que o paciente esteja acamado ou mesmo impossibilitado
de realizar uma correta higienização, é importante que seu cuidador
saiba fazer eficientemente a limpeza bucal e lingual.
Atualmente, a maioria da população, ainda não tem por hábito fazer a
higienização da língua, porém esta é de fundamental importância,
pois quando a sua estrutura não está devidamente limpa, fica
recoberta por restos alimentares, bactérias, células mortas, o que
denominamos de saburra lingual que está intimamente relacionada com
pneumonia aspirativa, mau hálito e a não-percepção do gosto dos
alimentos, em decorrência das papilas gustativas estarem obstruídas.
Pacientes
que apresentam hipertensão, diabetes, podem ainda agravar mais suas
doenças, pois para sentirem melhor o sabor dos alimentos vão ter que
adicionar maior quantidade de sal ou açúcar, cujo excesso no uso é
um dos maiores problemas dos controles para cardiologistas e
endocrinologistas ao redor de todo o mundo (6, 8,15).
Embora
o dorso da língua pareça abrigar um dos mais complexos nichos
microbiológicos, o conhecimento em relação ao papel da flora lingual
na saúde e doença é muito limitado. Similarmente, a natureza da
saburra lingual e os fatores que influenciam seu desenvolvimento e
composição são pouco conhecidos. Recentemente, novos conhecimentos
têm emergido na relação entre biofilme lingual e halitose, que tem
dado início a um interesse científico crescente no estudo da
microbiologia lingual e nos fatores que influenciam este
microambiente (36).
Geralmente, o mau hálito originado na própria cavidade oral,
(13) é o resultado da produção de componentes mal-cheirosos
produzidos pelas bactérias orais (28). Muitas bactérias
na saliva, placa e amígdalas podem produzir compostos sulfurados
voláteis (CSV), ácidos butírico, propiônico, valérico
e cadaverina podem contribuir para a mistura complexa de moléculas
com odores encontradas no ar exalado (16). Acredita-se
que, os principais compostos responsáveis pelo mau hálito são:
sulfato de hidrogênio (H2S),
metilmercaptana (CH3SH) e sulfato dimetil
(CH3SCH3), que contribuem com,
aproximadamente, 90% de CSV (25, 44)
PERSSON
et al.(30,31) mostraram que patógenos periodontais
como Porphyromonas gingivalis, Prevotella intermédia, Tannerella
forsythia e Treponema denticola geram montantes
significativos de CH3SH e H2S derivados de
L-metionina e L-cisteína, respectivamente. Porém, apesar de alguns
estudos sugerirem que a presença e severidade da doença periodontal
possa contribuir para a intensidade do mau hálito (14, 42),
muitas investigações (3, 40) têm demonstrado que o mau
hálito não está unicamente associado à periodontite.
Entretanto, numerosas investigações indicam uma correlação entre o
mau hálito e a quantidade de saburra na língua (27). Além
disso, a microbiota lingual pode ter um papel importante, em se
falando de mau hálito, quando comparada às bactérias subgengivais
(28).
No tratamento da
halitose, por saburra lingual, o objetivo é a eliminação dos CSV,
que devem ser removidos mecanicamente, através de limpadores de
língua de forma adequada.
Existem dois
tipos básicos de instrumentos para este ato no mercado brasileiro :
os raspadores linguais,
sejam de plástico ou metálicos, têm um afinamento em sua ponta
ativa,que raspa as papilas,delas removendo os restos.Seu uso
continuado,em pacientes idosos depauperados fisicamente deve ser
feito com reservas,pois podem remover uma camada superficial do
epitélio lingual o quê lhes causará grande incômodo no dia-a-dia
.São indicados para pacientes saudáveis de qualquer idade,salvo a
exceção acima citada.
Os
higienizadores linguais
têm sua extremidade totalmente arredondada e polida,não infringindo
qualquer dano ,em condições normais de uso, ao epitélio e papilas.
Sua sinonímia seria limpadores linguais mas, no mercado
brasileiro,se vê um conflito de nomes utilizados,devendo o
profissional verificar o produto detalhadamente antes de o indicar
aos seus pacientes.
Porém o
uso de limpadores de língua ainda é muito diminuto perante os demais
instrumentos de limpeza bucal diária e desta forma é importante
mostrar sua devida utilização e benefícios para que possa ser
introduzido no cotidiano da população
Revisão de literatura
Atualmente existe
uma grande preocupação por parte dos dentistas e dos apelos
comerciais para se manter os dentes limpos e evitar assim o mau
hálito, o quê não ocorria até a metade do século passado. Dentistas,
higienistas e fabricantes de cremes dentais, escovas e fios dentais
vêm enfatizando o uso desses instrumentos com a finalidade de
remover a placa bacteriana desde aquela época de forma incessante e,
assim, reduzir a possibilidade de cáries e doença periodontal.
Soluções para bochechos das mais diversas marcas são anunciadas com
freqüência na mídia, a fim de influenciar as pessoas a usarem seus
produtos para reduzir a halitose (MELLO, 2005).
Entretanto, pouca ênfase é dada à higienização da língua. Até
que ponto é válido se apresentar dentes impecavelmente limpos ao
lado de um órgão (que ocupa boa parte da cavidade bucal) coberto por
milhões de microrganismos, emitindo um forte odor fétido ? .
Limpador do Período
Takegawa (1603-1867)
O hábito de escovar a língua é secular. Os raspadores de
língua começaram a ser utilizados na Europa, no século XVIII,
provavelmente sob influência oriental japonesa(figura acima) , a
partir de 1770, feitos com casco de tartaruga ou marfim, que
provocavam abrasão (7). Instrumentos usados para esse fim
foram encontrados também na África, América do Sul, Índia e Arábia.
Contudo, mais recentemente, durante os séculos XIX e XX,mas o hábito
ainda não se tornou popular, com poucas referências pregressas na
literatura odontológica (23).
O dorso posterior da língua apresenta uma camada com milhões
de microrganismos e, mesmo durante a deglutição, os alimentos não
limpam bem essa área (MONTENEGRO, 2004) e com isso o resultado é uma
camada branco-acinzentada formada por resíduos alimentares, células
mortas descamadas e microrganismos. Durante a decomposição desses
resíduos alimentares na língua, ocorre a formação de sulfato de
hidrogênio e metilmercaptana e ambos têm relação direta com a
halitose.
Alguns tipos de língua sulcadas/fissuradas favorecem mais os
depósitos saburróides ajudando na instalação do mau hálito . Com
relação ao posicionamento da língua, existem pacientes que, mantém a
língua no interior da boca, ficando muito interiorizada, dando a
impressão de que o terço posterior quase se acha “dentro da
garganta”, logo a higiene lingual desses pacientes deve ser mais
cuidadosa (43).
RATCLIFF; JOHNSON em 1999 mostraram a importância dos CSV na
transição dos tecidos periodontais de saúde clínica para gengivite
e, então para periodontite.
YAEGAKI; SANADA, 1992 (b) mostraram que a maior parte dos CSV
se originam da superfície do dorso da língua, indicando que a
saburra lingual pode estar relacionada ao mau cheiro. Somado às
bactérias bucais , camada de restos alimentares na língua e células
do hospedeiro derivadas da mucosa epitelial oral e leucócitos estão
presentes na saburra e os CSV são produzidos pela metabolização
bacteriana desses componentes e pela degradação proteolítica por
microrganismos orais gram-negativos predominantemente anaeróbios de
vários substratos sulfurados encontrados na boca, e sendo a maioria
destas bactérias periodontopatógenos parece lógico imaginar uma
correlação positiva entre níveis de CSV na cavidade bucal ,presença
de bolsas periodontais e tendência ao sangramento gengival Porém,
nem todos os pacientes com gengivite e/ou periodontite apresentam
mau cheiro oral ou vice-versa (3,11,44,47)
A saburra lingual formada se mantém aderida por três motivos
principais: aumento da concentração de mucina na saliva; células
epiteliais descamadas; presença de microrganismos anaeróbios
proteolíticos. A remoção da saburra deve ser feita com um limpador
lingual que permita um bom acesso à região do “V” lingual (que é
mais estreita, de acesso mais difícil e justamente onde se forma
maior quantidade de saburra lingual).
Tem sido mostrado que o fluxo salivar pode ser um fator que
influencie o mau hálito, mas os componentes individuais da saliva
não estão completamente entendidos. A imunoglobulina A (S-Iga) é o
principal componente imunológico contido nas secreções das glândulas
salivares e possui a capacidade de inibir adesão bacteriana à
superfície da mucosa por aglutinação, e pode então eliminar
bactérias da cavidade oral (WILLIAMS; GIBBONS, 1972). A partir desta
evidência, é comum que a S-IgA também afete o acúmulo da bactéria
oral na superfície lingual.
VETTORE em 2004, observou a partir de uma análise de estudos
publicados desde 1980, que a doença periodontal aumenta em quase 20%
as chances de um indivíduo sofrer de algum mal cardiovascular e esta
associação pode ter sérias conseqüências sobre a saúde púbica e de
forma direta com o acúmulo de microrganismos que se depositam na
língua.
BRUNETTI;
MONTENEGRO, 2002 explicam que como característica de um
envelhecimento normal, há uma diminuição dos botões gustativos (que
ficam na língua) e que são responsáveis pela percepção dos sabores.
Quando estas papilas estão obstruídas pela saburra, uma crosta
amarelada que fica sobre a superfície lingual, resultante de restos
de alimentos e células mortas, diminui ainda mais a percepção do
gosto dos alimentos. Além disto, 70% dos medicamentos normalmente
ingeridos pelos idosos provocam uma diminuição do fluxo salivar e
isto ainda prejudica mais a limpeza da saburra da língua.
YAEGAKI; SANADA, 1992 (a) demonstraram que a limpeza da
língua ajuda a remover os microrganismos responsáveis pelo
desenvolvimento da cárie de raiz em pacientes mais idosos. Também
houve redução da halitose e melhora da percepção do paladar.
Quando a resistência do paciente esta baixa, as bactérias da
doença periodontal e da saburra podem infectar os pulmões e provocar
pneumonias (43). A cada inspiração os pulmões recebem em
seu interior uma série de bactérias, incluindo Chlamydia
pneumoniae e Pseudomonas aeruginosa, dois tipos de
bactérias que causam doenças respiratórias, que matam 83 mil pessoas
por ano nos Estados Unidos. Os idosos são mais suscetíveis e por
isso devem manter cuidados de higiene bucal ainda mais rígidos.
Quanto às alterações gástricas, o paciente deve ter cuidado
com o Helicobacter pylori, pois ele reside na boca (na placa
dental e na saburra), podendo migrar para o estômago e com isso pode
provocar gastrite, logo a higiene oral deve ser bem eficiente
(43).
No grupo
geriatriátrico, as origens que agravam a incidência da
halitose são: perda de unidades dentárias, mais freqüentes nos
idosos, causando a dificuldade de mastigação e conseqüentemente não
estimulando adequadamente as glândulas salivares, aumentando assim o
percentual de pacientes xerostômicos. De outra forma quando os
dentes são perdidos, a tendência é que a mastigação fique deficiente
e com isso ocorrerá uma sobrecarga no estômago, que terá que
trabalhar mais para suprir as necessidades.
Por terem
dificuldade de mastigação em conseqüência da perda de dentes, esses
pacientes fazem a opção por alimentos ainda mais líquidos e pastosos
o que diminui a varredura na língua durante a mastigação e formação
do bolo alimentar, aumentando o acúmulo da saburra lingual
(MONTENEGRO, 2004).
Os pacientes com
idade avançada tendem com maior freqüência a utilizar medicamentos
que são xerostômicos como, por exemplo: analgésicos,
anti-hipertensivos, antidepressivos, ansiolíticos, antiparkissoniano,
diuréticos, essas drogas xerostômicas provocam em seus usuários
boca seca queixa muito comum nos idosos, chamada de Síndrome de
Ardência Bucal.
A taxa de fluxo salivar naturalmente diminuído por um
declínio no número de células acinosas (responsáveis pela fabricação
de saliva) na terceira idade, não traz nenhum efeito significativo
em pessoas idosas sadias. Porém, uma série de fatores associados
pode diminuir significativamente o fluxo salivar, provocando um
processo de xerostomia (20).
A saliva, que é uma
combinação de secreções presente na cavidade bucal, proveniente de
glândulas salivares principais (parótida, sublingual e
submandibular) e acessórias, desempenha uma série de funções
primordiais na homeostasia bucal. Com contribuição imediata na
preparação para que ocorra a digestão do alimento, a saliva tem ação
na formação do bolo alimentar e como lubrificante para facilitar a
deglutição. Paralelamente, desempenha funções essenciais na
atividade gustativa, onde, com sua capacidade como solvente, promove
a solubilização do alimento e atua como meio de transporte das
moléculas gustativas aos receptores. Serve também na previsão de um
ótimo ambiente iônico para a transdução, e de proteínas que ajudam
na função carreadora da molécula gustativa, e por fim, trabalha na
remoção do estímulo gustativo do poro (41).
Não se pode
esquecer de que tudo que altera o fluxo salivar aumenta a quantidade
de saburra lingual e a conseqüência disso é o mau hálito. Sabe-se
também que a saburra é responsável por mais de 90% dos casos de
halitose e que a higiene da língua é o primeiro passo para se
eliminar o mau hálito. Deve-se considerar que a escova de dente não
foi desenvolvida para limpar a língua eficiente e completamente .
Pesquisas feitas por universidades comparando a remoção da saburra
lingual com a escova de dente e os limpadores de língua mostraram
que enquanto a escova remove 0,6 gramas de saburra lingual, o
raspador da marca Kolbe remove 1,3 gramas além de não causar nenhum
desconforto nesta remoção( 21).
Segundo GUERRA et al., 2000, ao analisarem indivíduos
da terceira idade atendidos no Serviço de Geriatria do Hospital
Universitário Osvaldo Cruz em Recife, selecionaram aleatóriamente 50
pacientes. Na metodologia empregada, foi utilizado entrevista
associada ao exame clínico oral, através da análise estatística
descritiva das informações, observaram que a média de idade foi de
70,4 anos, sendo 56 por cento do gênero masculino e 44 do gênero
feminino, 85,7 por cento não tinham hábito de ir ao dentista; 75 por
cento eram desdentados totais, desses 56 por cento usavam próteses
totais, sendo que 42,9 por cento usavam apenas a prótese superior;
45 por cento faziam escovação duas vezes ao dia e desses apenas 16
por cento escovavam a língua. Então , neste estudo concluíram que há
necessidade do fortalecimento da conscientização e valorização por
parte dos idosos para freqüentar com periodicidade o
cirurgião-dentista, como parte de um programa de saúde geral.
FRARE et al.
1997 observaram quais os problemas bucais mais freqüentes em idosos,
em pesquisa realizada na Universidade Federal de Pelotas (RS).A
população estudada era de baixa renda, sendo a maioria do sexo
feminino (64,3 %), com média de idade de 65 anos. Dos idosos, 64,6 %
eram desdentados totais e somente 73,4 % destes faziam uso de
aparelhos protéticos, sendo a maioria de prótese total superior. Foi
observado grande número de portadores de candidíase, periodontite
severa e hiperplasia no palato devido ao uso de prótese total com
câmara de sucção. Eventualmente, também foram encontrados língua
saburrosa, língua fissurada, leucoplasia.
Tem sido demonstrado que a limpeza lingual melhora o odor e
reduz a re-infecção de nichos periodontais pela eliminação da
saburra lingual e/ou redução da putrefação causada pelas bactérias.
Desta forma QUIRYNEN et al., 1998 desenvolveram um estudo
cruzado e cego em pacientes livres de periodontite e não fumantes,
com bons hábitos de higiene oral avaliaram o efeito da limpeza
lingual (com raspador plástico formato circularou com escova dental
de nylon com tufos e cabeça pequena na microbiota do dorso da língua
(porções anterior e posterior dos sulcos terminais) e nas sensações
de gosto para amargo, doce, salgado e azedo. Ambos os aparatos foram
utilizados duas vezes ao dia por duas semanas (movimentos com a
escova dental três vezes para frente e para trás ao longo da linha
mediana e para cada terço longitudinal da língua; dois golpes com o
raspador ao longo da linha mediana e ao longo das bordas da língua).
Tiveram como resultado após duas semanas) que a quantidade de
saburra lingual, porém, diminuiu significantemente (p<0,05), com
ambos os aparatos. A sensação de gosto melhorou após duas semanas à
limpeza lingual, especialmente com o raspador . Concluíram que a
limpeza lingual melhora a sensação de gosto e parece reduzir o
substrato para putrefação ao invés do montante bacteriano.
A raspagem resultou em menos ânsia e teve uma discreta
vantagem em relação ao conforto, capacidade de limpeza e
preferência. Quando os pacientes foram questionados em relação aos
aparatos, onze dos dezesseis relataram mais ânsia ao utilizarem a
escova. Treze dos dezesseis voluntários relataram preferência pelo
raspador.
A pesquisa realizada por CHAIM em 2001, teve como por
objetivo comparar os resultados do uso de um instrumento
confeccionado a partir de lacre de tampas plásticas como raspador de
língua em relação a uma escova dental com cerdas macias, em 32
indivíduos jovens entre 17 e 34 anos de idade de ambos os sexos,
durante 6 semanas, através do uso de questionários, exames clínicos
e fotográficos a cada três semanas. Os resultados demonstraram
excelente aceitação e sensação de limpeza, sem apresentar ferimentos
teciduais e menor disparo de reflexo de ânsia durante o uso. Deste
modo, o raspador de língua “simplificado” (RLS) poderia ser indicado
como alternativa para higiene da língua.
SEEMANN et al.
(2001) compararam a efetividade de dois limpadores
linguais em relação ao uso da escova dental para a limpeza da língua
na redução dos CSV e do hálito e demonstraram que os limpadores
testados foram mais efetivos (42% e 40% de redução de halitose) em
comparação com a escovação (33% de redução de halitose). Em qualquer
dos procedimentos a duração dos efeitos conseguidos não
ultrapassaram 30 minutos. Quando a escovação da língua se faz
usando-se um dentifrício, há uma redução de hálito que perdura por
cerca de 90 minutos .
HINODE et al., 2003 em seu trabalho teve o objetivo de
confirmar as relações entre mau hálito e condição periodontal, mau
hálito e saburra lingual.Foram estudados, cinqüenta e quatro
pacientes queixando-se de mau hálito. Os pacientes foram divididos
em três grupos de acordo com o nível de saburra lingual. Tiveram
como resultados que existem relações significativas entre mau hálito
e parâmetros periodontais específicos utilizados. O grau de saburra
lingual também foi significativamente correlacionado com quantidades
de H2S, CH3SH e com o montante total de CSV
determinado. Estes dados indicam que a saburra lingual está
relacionada ao mau hálito. Além disso, S-IgA na saliva pode
influenciar o acúmulo de saburra lingual, e anticorpos direcionados
a espécies Streptococcus podem ter importância na imunidade
contra a colonização inicial da placa lingual.
CERRI; SILVA, 2002 desenvolveram um trabalho relacionando à
higienização da língua com a halitose, observaram as causas locais,
diretamente, como a língua saburrosa sendo a principal fonte de mau
hálito. Utilizaram como fonte de diagnóstico o Breath Alert, em 150
pacientes adultos, de ambos os sexos, oriundos da Clínica
Odontológica da Universidade de Santo Amaro/SP. Os métodos mecânicos
que foram utilizados na pesquisa foram os limpadores de língua,
escova dental e limpeza digital com gaze. Neste estudo, o método que
mostrou mais eficácia foram os limpadores linguais e o de menor
eficácia foi o método utilizando a gaze, pois os participantes
relataram muita ânsia.
Existe uma forte
relação entre o acúmulo de placa bacteriana na superfície de adesão
de próteses totais e o desenvolvimento de estomatites, uma lesão
inflamatória causada principalmente pelo fungo do gênero cândida,
assim como devem também dar atenção a limpeza da língua, visto que
neste órgão também é um depósito de microrganismos, conforme atesta
CHAMBERLAIN (1985).
No idoso, existe toda uma série de alterações do
envelhecimento no nível dos órgãos sensitivos, que alteram
sensivelmente a qualidade de vida dessas pessoas. A disfunção da
percepção gustativa constitui um problema significativo. Anomalias
do paladar podem afetar a saúde não somente pelos efeitos diretos
sobre a ingestão de alimentos líquidos ou sólidos, mas também devido
à privação de um dos grandes prazeres da vida (BARTOSHUK, 1978).
Com a maioria dos botões gustativos localizados na superfície
da língua, eles também se distribuem tanto no palato mole como no
palato duro, na mucosa da epiglote, na laringe, na mucosa da faringe
e mesmo na mucosa dos lábios e das bochechas, e em algumas pessoas,
na porção inferior da língua e no assoalho da boca (BORNSTEIN,
1940).
O paladar tem um papel importante para a qualidade de vida na
terceira idade e suas alterações podem trazer grandes transtornos no
controle de dietas e conseqüentemente na nutrição do idoso (29).
O número de botões gustativos por papila circunvalada é
notadamente constante do nascimento aos 20 anos de idade, com um
número aproximado de 245 botões por papila. Durante a maturidade até
o início da velhice, esta média decai em proporção relativamente
insignificante, 208 botões. Porém, no extremo da idade adulta, 70-85
anos, a média cai drasticamente para cerca de 88 botões por papila
(18) .
Outro problema a considerar é a presença constante de agentes
químicos na cavidade bucal (por colutórios,medicamentos)que pode
levar à exaustão ou fadiga da percepção pela estimulação constante
dos corpúsculos gustativos.
QUIRYNEM et al., 1999 conduziram um programa de
higiene bucal durante 5 semanas em indivíduos de 52 a 86 anos de
idade, onde constataram uma melhora na percepção do gosto doce e
salgado. Este achado é de extrema significância, pois o sal e o
açúcar geralmente são ingredientes restritos nas dietas recomendadas
para pessoas idosas.
Não obstante isso, muito dos idosos vivem sob constante
regime alimentar restringindo-se uma série de alimentos e
condimentos. Este fato é particularmente notado nas dietas para
hipertensos e diabéticos, com restrições para sal e açúcar,
respectivamente. Tais dietas que naturalmente são de difícil
controle, até por uma questão de nossa cultura alimentar, quando
associadas às alterações do paladar, acabam por se tornar um
verdadeiro martírio para o idoso (18).
Como as alterações gustativas na terceira idade
freqüentemente são conseqüências de uma série de causas associadas,
é preciso acurada observação clínica para a seleção de uma terapia
efetiva. Não há um tratamento padrão para a disfunção gustativa,
principalmente se não existir uma simples causa, assim como, para
muitas alterações não se conhece nenhuma abordagem terapêutica
efetiva (41).
Segundo BRUNETTI; MONTENEGRO, 2002 atualmente vem sendo
divulgado o uso de limpador de língua no Brasil, muito úteis para os
idosos, especialmente pela camada que se forma na parte posterior da
língua (saburra) e que não se consegue tirar com a escovação normal.
Como há muita diminuição do número de papilas da língua com a idade,
há necessidade de se manter as demais bem desobstruídas, para manter
a capacidade gustativa adequada nos pacientes idosos.
Apesar da higiene da língua estar associada historicamente a
filosofias religiosas, tais como o Budismo, o Hinduísmo e mesmo
ainda ao Islamismo, onde no Alcorão lê-se, que o último estágio de
limpeza da boca é a língua, como cita CHAIM, 2001; não tem se
observado esta prática de saúde ser exercida com muita freqüência
pela maioria dos indivíduos na atualidade do ocidente; talvez isso
se deva a fatores culturais, ou mesmo até pela desinformação acerca
de tal hábito conforme pontuam LOESCHE; KAZOR, 2002; ROWLEY et
al., 1987.
Considerando os limpadores linguais terem sido usados por
várias civilizações no passado, a maioria da população,
desconhecendo este fato, fica preocupada com a limpeza da língua
possa provocar alterações, pensando até em câncer. Alguns pacientes,
com o passar do tempo limpando a língua, descobrem as papilas
ovaladas do “V” lingual e acham que aí pode estar desenvolvendo um
tumor e ficam relativamente assustados. Por esta razão é importante
não só ensinar o uso correto do limpador, como mostrar a presença
dessas papilas do “V” lingual (que não devem ser agredidas).
Devem ser utilizados após as refeições, como se tem o hábito
de escovar os dentes .Uma leve pressão de trás para frente da
língua, quantas vezes se fizerem necessárias são realizadas, porém
sem lesionar a língua (37).
A prática de higienização da língua não tem demonstrado
qualquer aumento de irritação tecidual e a maioria dos indivíduos
que a executam mostram, além da excelente aceitação e da sensação de
limpeza obtida, interesse em executar sua higienização (34, 37).
A remoção mecânica de indutos
é muito importante e os limpadores (raspadores) linguais são um
excelente dispositivo auxiliar na obtenção de uma higiene bucal
ampla e eficiente, e importante meio para melhor perceber o gosto
dos alimentos, ajudando indiretamente no controle da hipertensão e
da diabetes mellitus, que são de grande incidência nesta faixa
etária.
O importante é que a primeira
limpeza utilizando o limpador/raspador lingual, seja feita no
consultório, informando ao paciente como realmente deve ser
utilizado (43).
Podem ser encontrados no
mercado brasileiro diversas marcas com diferentes modelos, que podem
ser assim divididos quanto ao material do qual são
confeccionados em primeiro lugar e o formato/disposição de sua
ponta ativa buscando uma classificação o mais abrangente
possível:
Classificação dos limpadores linguais brasileiros
1. PLÁSTICOS
1.1 Forquilhas
1.2. Laminados
1.3. Conjuntos:
1.3.1 - com Escova de Língua
1.3.2 - com Escova de Dentes
1.4. Infantis
1.5. Econômicos(*)
2.METÁLICOS
2.1. Raspador Profissional
2.2 Higienizador
2.3- Econômico(**)
(*) Incluem:
Papel recoberto por camada “plástica”e lacres plásticos de
medicamentos (**)Consideram-se os lacres internos de alumínio em
latas leites em pó ou similares.
Plásticos
em Forquilha

Laminados
 
Plástico com Escova
de Língua
Plástico com Escova
de dentes
 
Infantis plásticos

Econômicos
“plásticos”

Raspador Metálico
Profissional

Higienizador
Metálico

Raspador metálico
econômico
Discussão
No experimento de DE BOEVER; LOESCHE (1996), a limpeza da
língua foi associada ao uso de clorexidina (ambos como enxaguatório
e como pasta, o que, por si só, já pode explicar a redução de 74%
das bactérias na língua). Outros dados estão em acordo com MENON;
COYKENDALL (1995), que também demonstraram pequenas alterações na
microbiota bacteriana após raspagem lingual, e com observações
prévias (QUIRYNEN et al. 1998). A dificuldade em reduzir o
montante bacteriano na língua não é surpresa, levando-se em
consideração as características da
superfície do dorso da língua. A mucosa do dorso da língua, com uma
área de 25cm2, mostra uma topografia superficial muito
irregular (SCHROEDER, 1991; TARZIA, 2003). A porção posterior exibe
um número de unidades ovais, que tornam áspera a superfície lingual
nesta área. A porção anterior é mais rugosa devido ao alto número de
papilas (as papilas filiformes com 0,5 mm de comprimento e uma
cratera central, as papilas fungiformes com 0,5-0,8 mm de
comprimento, as papilas foliadas, localizadas na borda da língua,
separadas por dobras profundas e, as papilas valadas com 1 mm de
altura e 2-3 mm de diâmetro). Essas
depressões inumeráveis na superfície lingual são nichos ideais para
adesão e crescimento bacteriano, dificultando ações de limpeza. O
impacto da rugosidade superficial na adesão e crescimento bacteriano
tem sido demonstrado em outros estudos (QUIRYNEN et al.
1999).
O efeito da limpeza da língua na sensação do
gosto não tem sido extensivamente examinado.
CERRI; SILVA, 2002
encontraram que a escovação lingual aumenta a acuidade do gosto em
pacientes geriátricos pela remoção da placa lingual (KINA, 2003;
BRUNETTI; MONTENEGRO, 2002).
Em relação à avaliação subjetiva dos dois aparatos
utilizados, a principal reclamação dos participantes do teste foi
ânsia. Os aparatos para limpeza lingual têm um perfil não popular (ROWLEY
et al. 1987, CHRISTENSEN, 1998). Esta observação da redução
da ânsia com o uso do raspador quando comparado à escova, porém,
confirma observações prévias (ROWLEY et al. 1987). Não
obstante, muitas pessoas aceitam a escova como instrumento de
limpeza lingual devido ao fato de não necessitarem, dessa forma, de
um instrumento adicional (ROWLEY et al. 1987).
DE BOEVER; LOESCHE (1996) sugeriram que a flora anaeróbia
proteolítica colonizando o dorso da língua tem um papel importante
no desenvolvimento do mau hálito. Ao lado dessas bactérias, o
substrato de restos alimentares presentes na saburra também podem
ter um papel importante na produção do mau hálito porque pode
acelerar o crescimento bacteriano e prover componentes para a
geração de CSV. Muitos estudiosos mostraram uma relação linear
positiva entre níveis de CSV e o acúmulo de saburra.
Recentemente, MORITA; WANG (2001) mostraram que o nível de
saburra lingual pode ser indicador da possibilidade de a pessoa ter
ou não um odor desagradável na boca. Estes resultados sugerem que a
saburra lingual está intimamente relacionada ao mau hálito bem como
também à condição de doença periodontal. Então, é muito importante
estudar o processo de acúmulo da saburra ou investigar a influência
dos fatores contrários a sua formação.
Quanto aos botões gustativos é unânime entre os autores, que
eles devem ser desobstruídos para que assim o paciente tenha uma
melhor acuidade gustativa, principalmente pacientes hipertensos e
diabéticos, pois irão sentir melhor o gosto dos alimentos não
abusando assim de sal e açúcar (MONTENEGRO, 2004; KINA, 2003).
Foi possível confirmar com diversos autores que a limpeza da
língua só traz benefícios para o paciente, como: diminuindo a
halitose, cárie de raiz, pneumonia aspirativa, acidente vascular
cerebral, doença periodontal, enfim várias enfermidades YAEGAKI;
SANADA 1992(b). Pelo fato do paciente fazer uma correta higienização
da língua vai estar melhorando sua qualidade de vida e se
prevenindo,então, de várias possíveis doenças sistêmicas.
Quanto ao uso dos raspadores linguais ainda existem
informações contraditórias, pois alguns fabricantes aconselham que
sejam trocados a cada três meses, outros a cada 6 meses. Acredita-se
que os raspadores que devam ser trocados a cada três meses são os
que vêm acoplados com escovas de dentes. Já quanto à freqüência de
uso também existem algumas contradições, tem fabricantes que
aconselham que o uso seja feito sempre após a escovação, em contra
partida outros fabricantes indicam que esta limpeza lingual seja
feita na somente na escovação matutina. Devido a estas contradições,
faz-se necessário estudos mais específicos quando a descamação
lingual, observando que se a limpeza for realizada várias vezes ao
dia não vai causar problemas para a língua.
Todos estes empecilhos, longe de gerar
desânimo, apenas nos motivaram ainda mais em aprofundar
conhecimentos sobre este tema, que julgamos ser de fundamental
importância na qualidade de vida do idoso, dentro de sua área de
envolvimento.
Conclusões
Baseado nos dados levantados nos parece lícito chegar às
seguintes conclusões:
-
A limpeza da
língua, particularmente nos pacientes acamados e nos idosos em
geral mostra-se como medida necessária ,face à grande incidência
de pneumonia aspirativa nos indivíduos nesta condição clínica. Um
alerta quanto aos pacientes mais debilitados e no correto emprego
pelo corpo de enfermagem/cuidadores ,se faz necessária.
-
Esta limpeza
diminui a formação bacteriana nas porções posteriores da
língua,normalmente grandes depositários de saburra e muito pouco
atingidas pelas escovas de dente,um meio claramente ineficiente
nesta atividade;
-
O limpador
lingual se mostra como um meio de limpeza muito eficiente na 3a
idade e seu uso deve ser difundido entre todos os envolvidos com
os cuidados de saúde com pacientes idosos, bem como na mídia
leiga,face à importância de seu uso desde a infância.
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**Jacy de Azevedo
Leite é odontogeriatra, 2a Ten.- Dentista Belém do Pará.
Prof. Dr. Fernando Luiz Brunetti Montenegro é mestre e doutor pela
FOUSP, Coordenador Curso Especialização em Odontogeriatria ABENO/ABO/CEQUO/MOZARTEUM
Este trabalho está baseado na Monografia de Conclusão do Curso
de Especialização em Odontogeriatria da ABENO/SP, defendido em
Março de 2005 pela CD Jacy de Azevedo Leite, de Belém do Pará,
Brasil.
Conforme publicado
na Medicina Social, v:24, n.198, p.14-15,Jul-Set 2007
Observação: Os artigos postados nesta sessão são encaminhados
pelo
Dr.
Fernando Luiz Brunetti Montenegro
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