|
||
![]() |
||||
|
|
Idosas querem mesmo é contar sua história
Duas horas de bate-papo no sofá foram o suficiente para reduzir os tremores provocados pelo Mal de Parkinson, permitindo que transcorresse com normalidade a conversa com a senhora de pouco mais de 60 anos, moradora de um asilo em Brasília. O relato, da cientista social Mariana Marlière Létti, ocorreu durante as entrevistas para a dissertação de mestrado defendida na Universidade de Brasília (UnB) intitulado Velhas (e) histórias: estudo sobre idosas em situação asilar. E levanta uma reflexão: qual a melhor forma de melhorar a qualidade de vida desse grupo? Mariana não tem dúvidas de que uma simples conversa pode ter muito mais efeitos para o bem-estar delas do que o pacote de benefícios que as casas de repouso apregoam em seus anúncios. “A estrutura física pode ser excelente, mas o que falta é o encontro emocional.” História A fala é sempre dominada por fatos do passado e pelos momentos em que se sentiam queridas ao cuidar da família ou exercer suas atividades domésticas, época correspondente ao período de suas vidas em que sentiam ter uma função e uma utilidade. Dentro das casas de repouso, porém, todos esses papéis já não existem mais. Não têm os filhos para tomar conta, o marido já morreu e as limitações físicas comprometem o desempenho de atividades as mais simples. Além disso, não são mais a Dona Maria ou a Dona Francisca. Lá dentro, são apenas a “vovó”. Para evitar o sofrimento, mudam rapidamente de assunto se a conversa trata do presente, ou do que virá a seguir. “Elas se recusam a falar do futuro, porque o asilo já é uma sala de espera da morte. Elas já absorveram essa ideologia”, diz Mariana. Embora a maioria tenha sido levada à casa de repouso pelos parentes, falam de sua ida como resultado da própria vontade. Mesmo quando admitem a participação de familiares, dissuadem a realidade que mais tarde se revela pelas conversas. “Elas não assumem que foi o filho, colocam a culpa na esposa dele, ou dizem que foi o marido da filha.” E apesar de lá viverem, algumas mantêm a esperança de voltar para casa e aguardam, há anos, que se cumpram as promessas de que retornarão assim que terminar a reforma da antiga casinha, ou quando o filho conseguir um emprego melhor. Mas esse dia nunca chega, prolongando a estadia delas. Foco errado Embora os idosos tenham a necessidade de serem ouvidos e amados, mantenedores e parentes visualizam que uma boa estadia é a infra-estrutura que colocam à disposição. Assim, não entendem porque os idosos estão infelizes se podem praticar esportes e participar de oficinas de trabalhos manuais. Mariana explica que instalações adequadas, equipes de saúde e atividades vivenciais têm sua importância. Falta, porém, um item que nunca aparece na publicidade dos asilos: o afeto.
*Mariana Marlière Létti é mestre em Antropologia Social pela Universidade de Brasília (UnB), mesma instituição em que concluiu a graduação em Antropologia. E-mail marianaletti@yahoo.com.br.
|
![]() |
||