A memória do IDEAC

Grupo de estudos e reflexões sobre o envelhecimento

 

Waldir Bíscaro*,
Diretamente para Espaço Memória

 

 

O Grupo IDEAC, em sua formação atual, na apresentação do PONTO de ENCONTRO, no III Congresso Ibero-americano de Psicogerontologia realizado em novembro de 2009 na PUCSP.

 

 

Como tudo começou

 

Foi assim. Maria Célia Abreu, psicóloga, após se aposentar do magistério universitário, continuou a se dedicar à clinica particular e a se interessar pela questão do envelhecimento. Na Universidade, sempre trabalhara em equipe e agora, longe da atividade pedagógica, sentiu falta do trabalho com grupos.

 Teve, então, a idéia de enviar convites para cerca de quarenta pessoas, profissionais de diversas áreas, seus conhecidos, para formar uma equipe multidisciplinar.

 Apenas um quarto dos convidados aceitou participar da iniciativa – quatro fisioterapeutas, quatro psicólogos, uma pedagoga; com essas dez pessoas se formou um grupo de estudos, em torno do tema do envelhecimento, sob enfoque multidisciplinar.

 Iniciado com um objetivo relativamente vago, poderia, com o tempo, se transformar em um grupo de verdade. Para isso faltavam ainda algumas condições. Essas pessoas deveriam aprofundar o nível de conhecimento mútuo, criar clima de confiança, estabelecer laços de relacionamento de tipo afetivo, definir minimamente uma forma de atividade conveniente para todos os membros e, finalmente, fixar objetivos mais específicos, dentro do tema amplo do estudo do envelhecimento.         

Desde o início, já estavam presentes alguns elementos visíveis de organização: local de reunião, dia de semana e horário definidos, mas eram os sinais de caráter sócio-psicológicos o que mais importava: o moral do grupo sempre foi elevado – as pessoas se sentiam aceitas, não havia sinais de competição, o nível de conhecimento mútuo se aprofundou e, logo mais, se explicitavam qualidades, traços e diferenças individuais. Além disso, o aprendizado sobre o envelhecimento, considerado sob os mais diversos aspectos, foi sempre levado muito a sério.

Ao longo de seu primeiro ano de vida, o grupo demonstrou vitalidade, mesmo sem ter fechado um formato de atuação - se deveria ser debate ou palestras ou seminários ou estudo de algum autor ou, ainda, elaboração de documento – o fato é que as primeiras manifestações de eficiência grupal se deram na forma de “grupo de auto ajuda”; cada membro se prestando a colocar suas habilidades e conhecimentos a serviço dos demais.

Essa forma de atuação do grupo combinada com o estilo suave e, ao mesmo tempo, firme de Maria Celia - que funcionava como catalisadora das ações do grupo – permitiu que pessoas com formação e estilos diferentes formassem um grupo integrado e consistente apto a construir muita coisa de valor.

Segue-se uma descrição mais detalhada do percurso histórico do Grupo de Profissionais para Estudos e Reflexões sobre o Envelhecimento, ano a ano.

 

 

Primeiro ano - 2001

Se alguém, de fora, tivesse acompanhado o funcionamento do grupo, em suas primeiras atuações, como observador neutro, provavelmente seu prognóstico teria sido pessimista quanto a durabilidade desse grupo.

 Não que faltasse boa vontade e disposição, mas a ausência de um plano racional e não-definição clara de objetivos permitia prever-se vida curta para o grupo.

A cada reunião, um tema diferente. Cada membro tinha uma contribuição a dar e de acordo com a atratividade do tema o grupo se envolvia.

Na composição do grupo a turma de fisioterapeutas constituía um bloco mais consistente e experiente de tal modo que era freqüente o emprego de exercícios físicos.

Intermeando as seções de fisioterapia, apareciam temas de natureza mais psicológica, como perdas, luto e morte. Mais adiante (21ª) o tema “Auto-estima” consegue atrair a atenção.

Apesar de certa desorientação quanto a uma disciplina de tratamento de temas, não se nota qualquer abatimento no ânimo da turma.

Um dos primeiros sinais de tomada de consciência de grupo se deu quando foi proposta uma forma de distribuição de tarefas para cada membro. Que contribuição cada um teria a dar ao grupo?

O primeiro ano terminou sem que o grupo tivesse se preocupado com uma avaliação do seu funcionamento. Apenas, em algum momento, se havia falado nos benefícios daquelas reuniões. Mesmo assim nenhum sinal de arrefecimento se havia notado. O grupo manteve o mesmo quadro do início, sem nenhuma deserção.

 

Segundo ano – 2002

Para seu segundo ano, o grupo trouxe alguma preocupação maior quanto ao seu funcionamento mais eficiente:

- distribuição de temas por individuo

- proposta de um calendário

O grupo demonstrava vitalidade, cada membro se dispondo a dar sua contribuição dentro de sua especialidade: fisioterapia, psicologia, odontologia, educação artística, lian-gong e outras.    

Os temas, tanto em forma de palestras, de debates e de exercícios práticos se sucederam: Cuidados Ortopédicos, Plano de Desenvolvimento Individual, Espiritualidade, Imagem Corporal, Assoalho Pélvico, Harmonização, Nutrição de Idosos.

Na 21ª reunião se falou pela primeira vez na produção de um livro pelo grupo. Cada membro apresentou uma proposta de tema para o livro.

Mesmo com o propósito de produzir um livro, o grupo parecia ainda não se haver encontrado, comportando-se ora como grupo de auto-ajuda ora como tertúlia – sem qualquer sentido pejorativo, neste caso. Em princípio, um grupo solidário em busca de sua identidade. Houve cobranças: Para que serve nosso grupo? Cobrança também dos textos para o livro.

O livro ficou definido para o próximo ano.

 

Terceiro ano – 2003

Esse ano começou sob o signo do livro e o grande problema foi apontado como: Temos capacidade de produzir um livro? Daí a necessidade de nos habilitarmos para escrever. Esse exercício real de auto-crítica revelou mais um aspecto da maturidade e do crescimento do grupo.

Foi contratado um professor de literatura da PUCSP, dr João Hilton Sayeg de Siqueira, para um curso de redação, em dois horários fora das atividades normais do grupo.

Outro sinal de evolução do grupo se deu na oitava reunião. Ficou decidido se adotar um autor como guia para os debates no grupo – Eric Erikson: Os ciclos da vida.

Com essa decisão o grupo, pelo menos aparentemente, encontrou seu eixo. Houve mais disciplina nas discussões. Erikson guiou o grupo quase até meados do segundo semestre.

O tema “nosso livro” esteve sempre em pauta, com cobranças sobre o andamento das redações dos textos.  

Ao final foi feita avaliação do ano e propostas para o próximo. O grupo parecia reconhecer o rumo de seu desenvolvimento.

 

Quarto ano – 2004

Com o Livro já praticamente consolidado, era hora de definir a editora.

Cada co-autor teve oportunidade de ler e debater seu capítulo.

Mais um passo rumo à maturidade: o grupo sentiu que precisava descobrir novas fontes de informação, recorrendo a informantes de fora do grupo.

Dessa forma esse ano ficou caracterizado pela presença de palestrantes externos, cerca de quinze. Todos com temas sobre envelhecimento ou similares. Era o grupo se enriquecendo.

A avaliação de fim de ano foi muito positiva.

Mais planos para o quinto ano.

 

Quinto ano – 2005

O grupo começou os trabalhos conforme o plano traçado: Memória Autobiográfica. Essa atividade fora inspirada a partir de palestra de professora da PUC. (Esse início foi marcado pela perda de um dos membros, falecido em fevereiro). As atividades auto-biográficas envolveram muito o grupo, facilitando a integração e aprofundamento do conhecimento dos participantes. Ponto alto no amadurecimento do grupo.

Ao final de Maio novo avanço: estudar Jung.

Finalmente o lançamento do livro.

Jung prosseguiu até o final de outubro. Aplicação do MBTI, com todos se classificando.

A última atividade foi marcada pelo debate sobre Espiritualidade.

O ano terminou com avaliação positiva, apesar de algumas deserções de membros, os fisioterapeutas, o grupo não se abalou e continuou recebendo novas adesões.

 

Sexto ano – 2006

O grupo durante bom tempo andou a esmo sem definir uma linha de trabalho: falou-se em programa de palestrantes, em manual de cuidadores, casas de repouso, entrevistas com idosos, pesquisa etc. Uma espécie de ressaca pós-lançamento. (Mais uma perda de participante, por falecimento)

Só no inicio do segundo semestre é que o grupo encontrou o caminho através de Simone de Beauvoir e foi com ela até o fim do ano.

O tema cuidadores absorveu por algum tempo as atenções do grupo. Novas palestras de informadores de fora completaram o programa do ano, mas foi o livro de Simone que realmente conduziu a turma para um aprofundamento do tema principal: o envelhecimento.   

 

Sétimo ano - 2007

Novos membros ingressam.

Retomada de Simone que se alonga até meados de agosto. Também entremeado de palestras, filme e debate sobre física quântica.

Giulio dirige durante algumas semanas exercícios para os olhos, em horário antes da reunião.

Ao final de setembro, escolha de novo livro-guia: Ecléa Bosi é escolhida e vai ser estudada até o final do ano.

Não foi um ano exatamente brilhante, mas foi bem proveitoso. 

 

Oitavo ano - 2008

Foi um ano atípico ou, pelo menos, de difícil caracterização. Talvez iniciativas de caráter individual - com boa participação da turma - tenham sido o ponto alto: Oficinas de criatividade, trabalhos com mandalas, EMDR entre outras.

Concluída a leitura do livro de Ecléa, volta-se a falar em projeto de pesquisa.

Sônia discorre sobre seu trabalho em curso de especialização: fatores do envelhecimento saudável. M. Celia apresenta Vaillant.

O projeto “Manual” é abortado: dificuldade de publicação, a linguagem de “manual” não estava homogênea, edição de manual de cuidadores pelo Ministério da Saúde.

Palestra do dr Marcelo Valio, sobre neurotransmissores.

Novo livro guia: Curar – terminado até final de agosto. Entre todos os livros, objetos de estudo do grupo, este foi o que mereceu algumas críticas.

São feitas visitas à Morada do Sol, aproveitando que essa casa de repouso abriu as portas para outra atividade do IDEAC, os Cursos para Formação de cuidadores.  A retomada de Vaillant, em novembro.

O almoço de fim de ano teve um desenho diferente dos anos anteriores, com jogos e mandalas.

 

Nono ano - 2009

O grupo ingressou em 2009 com o mesmo elenco do ano anterior e com a mesma disposição de sempre.

Tudo indicava que os trabalhos nesse ano se concentrariam nos estudos da moradia de idosos. Planejaram-se e realizaram-se visitas a diferentes tipos de moradia, tendo em mente a possibilidade de se comparar os vários modelos de tratamento que se dispensavam em tais circunstâncias.

Visitas esporádicas já haviam ocorrido anteriormente, mas com participação restrita e sem uma prévia forma de avaliação. Daqui pra frente, as avaliações levariam em conta o emprego dos cinco sentidos na apreciação dos espaços destinados à acolhida de idosos, além de aspectos de atendimento, de relacionamento entre os internos, de programas de lazer e outros.

Foi assim que se efetuaram as visitas ao Hiléa, ao Bellatrix, ao Raiar do Sol e ao Viva Bem. Já estão programadas mais duas visitas para breve.

Outra atividade que absorveu o interesse e as discussões no grupo foi a possibilidade de participação no III Congresso Ibero-americano de Psicogerontologia a ser realizado na PUC.

Após algumas dúvidas quanto ao tipo de participação chegou-se ao consenso que seria na modalidade “Ponto de Encontro”, por conta de melhor se adequar ao espírito do nosso grupo: mais liberdade em seu formato e possibilidade de uso mais criativo dos temas.

O grupo se propôs a levar a própria experiência de funcionamento como possível modelo de atuação de grupos mais adequado ao perfil do idoso. O idoso tem tudo a ganhar ao participar de pequenos grupos, o mais possível homogêneos. 

Nesse meio tempo, o grupo recebeu novos membros que vieram enriquecer ainda mais o ânimo da turma.

Para não fugir à proposta de aperfeiçoamento teórico, novo livro-guia foi definido. Até o final do ano, A Passagem do Meio será o alimentador das conversas e dos debates do grupo. 

Essa é em linhas gerais a história de um grupo que conseguiu se manter ativo através desses anos, com o mesmo espírito e com a mesma filosofia, na busca da melhor compreensão do fenômeno do envelhecimento. 

 

 Relação dos membros do grupo:

  • Maria Celia T. Azevedo de Abreu - psicóloga
  • Ana Perwin Fraiman - psicóloga
  • Sonia Fuentes - psicóloga
  • Ezio Okamura - psicólogo
  • Giulio Vicini - psicólogo
  • Irene Yolanda Ravache Paes de Melo - atriz
  • Luciana dos Santos - psicóloga
  • Lucy de Araújo - pedagoga
  • Lurdes Ferreira Coutinho - psicóloga
  • Maria de Lourdes M. de Oliveira Junek - psicóloga
  • Maricy Ribeiro - psicóloga e socióloga
  • Regis Mikail Abud - médico
  • Waldir Bíscaro - filósofo e psicólogo
  • Ana Maria Wild do Vale - assistente social
  • Célia Gennari - jornalista
  • Célia Monaro Bianchini - dentista
  • Regina Lúcia Godoy de Oliveira - fisioterapeuta
  • Jader Andrade - médico.

IDEAC: Instituto para o Desenvolvimento Educacional, Artístico e Científico: www.ideac.com.br

 

 

*Filósofo e psicólogo e ex-professor de Psicologia do Trabalho na PUC/SP. E-mail: awbiscaro@uol.com.br