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CRONICA MARCADO PARA... (PARTE UM) Waldir Bíscaro*,
Era meado de 1995. Mesmo sendo já um expert em processos eleitorais, nunca, como daquela vez, havia chegado tão esgotado ao final de uma campanha. A campanha havia sido uma maratona em viagens pelo interior com seis ou sete falações por dia. Não tive tempo para descanso; terminada a campanha, vieram as eleições que me exigiram atenção contínua. O momento mais crucial é sempre o das apurações quando sua adrenalina vai aos picos. Finalmente, a vitória. Mais de treze mil votos contra oito mil do meu oponente. A comemoração se justificava. Era a primeira vez que nosso grupo de oposição chegava à direção daquela empresa. É bom que se diga, o mérito da vitória não foi só meu. Havia pessoas por todo o Brasil trabalhando meu nome. A tomada de posse foi em seguida, sem tempo para algum relaxamento. Pelos próximos dois anos, assumiria a Diretoria Administrativa da empresa mais querida dos funcionários daquela instituição. Essa empresa é a que geria o plano de saúde dos funcionários e de suas famílias. Para mim, aos sessenta e um anos de idade, tratava-se do coroamento de minha carreira, tendo lá chegado não por nomeação, mas pela escolha da comunidade. Por razões as mais diversas, a situação da empresa não era tranqüila. Por conta de uma série de irregularidades, a diretoria anterior havia sido destituída e, diante da nova direção, os funcionários dessa empresa andavam apavorados, temendo demissões e outras medidas de cunho persecutório. Minha primeira missão, como diretor administrativo, deveria ser a de desanuviar o ambiente e acalmar o funcionalismo. Isso, porém, não foi nada facilitado por parte do presidente nomeado pela direção central. O cara - que aqui vou chamar “Cordeiro” - tinha mais jeito de capataz e nenhum pendor para conciliação. Entre os que me apoiaram nas eleições havia alguns elementos que aplaudiam as medidas tomadas pelo tal “Cordeiro”, o presidente; de mim, cobravam punições e destituições de funcionários da minha área, muitos deles ligados à administração anterior. Logo, porém, eles perceberam que não obteriam qualquer resultado nesse sentido. Eu estava lá para administrar e não para fazer caça às bruxas. Mas esse grupinho se considerava meio dono de minha vitória eleitoral e, claro, insinuava exigência de compensação. Na realidade, o que dois ou três deles queriam era ocupar o setor de imprensa que estava sob minha responsabilidade. Para isso, eu teria de destituir a equipe da casa, o que eu não achava justo, pois se tratava de gente competente e, ao contrário do que eles pretendiam, dei a maior força para a turma da casa. Nesse meio tempo, aquele tal “Cordeiro” pede licença do cargo de presidente e se afasta. Em seu lugar assume outro diretor também nomeado e que exibia o título de professor em grande universidade. Acontece que esse grande professor era de tal incompetência na função de gestor que eu e outro diretor, também eleito, fomos obrigados a requerer, da direção central, sua destituição. Foi durante o mandato desse novo Pepino, o Breve, que ocorreu o episódio a seguir. Era seis de fevereiro 1996. Cheguei em casa, no começo da noite e vi, em cima da mesa, um envelope a mim endereçado. Só depois do banho é que abri a correspondência. Era um bilhete escrito à máquina, sem assinatura. Dizia o tal bilhete: SR. A. WALDIR BISCARO 1º AVISO: Vocês, da diretoria da ..., já foram longe demais. Ao darem conhecimento ao Conselho Fiscal de novas irregularidades (...), vocês passaram de todos os limites. AGORA, CHEGA!!!!! FOI DECLARADA GUERRA TOTAL. OU SÃO VOCÊS OU SOMOS NÓS. De agora em diante, não nos responsabilizamos por acidentes de trabalho que possam envolvê-lo, principalmente no trajeto de sua casa até o serviço, onde se inclui a utilização do metrô no trecho Praça da Árvore - São Bento. Em princípio, achei que seria apenas uma brincadeira de mau gosto. Nada falei pra meus familiares e guardei o envelope em minha pasta. No dia seguinte, ao chegar ao trabalho, chamei os diretores e lhes mostrei o bilhete. A providência foi comunicar ao setor de segurança da empresa central o ocorrido. Os homens da segurança me orientaram: caso recebesse novas correspondências, não as abrisse e as trouxesse para eles. Propuseram escolta, para minha segurança, mas não aceitei. Não era o caso, ainda. ( Aguardem o próximo capítulo...) *Filósofo e psicólogo e ex-professor de Psicologia do Trabalho na PUC/SP. E-mail: awbiscaro@uol.com.br
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