|
||
![]() |
||
|
|
Einstein e eu
Waldir Bíscaro*,
Aprecio demais ler biografias e autobiografias e insisto com amigos para que também leiam. Desde garoto, quando lia “Rapazes Pobres Que Venceram na Vida”, de Sarah Bolton, percebi quanta lição de vida se podia retirar daqueles relatos e quanta matéria-prima se extraia para os sonhos de realização.Mas não há por que exagerar. Outro dia, ouvindo um programa de debates na CBN, um dos debatedores se jactava de haver lido mais de mil biografias e, pelo jeito, pelos juízos emitidos a seguir, fiquei em dúvida se ele havia aprendido alguma coisa...A última biografia que li foi a de Albert Einstein. Já havia lido uma em minha adolescência, mas resolvi ler a que foi publicada mais recentemente.
Na leitura de uma biografia, você vai encontrando situações, atitudes, características, tomadas de posição, fragilidades e grandezas do biografado com as quais mais se identifica.
Até na vida de um gênio como Einstein é possível você encontrar por lá aspectos de sua personalidade e de sua trajetória que também lhe dizem respeito e que se parecem com algum traço de que é portador.
Em Einstein, o que salta à vista é sua paixão pela Física. Nesse caso, disto dele anos-luz. Do que me lembro da Física não vai muito além da Lei Áurea da Mecânica. Coisa que o velho Arquimedes já tirava de letra.
Então não se trata de conhecimento de Física, onde só não sou zero a esquerda, por conhecer um pouquinho da questão da “entropia”, um fenômeno intrigante que estudei na filosofia, no capítulo da Cosmologia.
Bem, se não é na física, poderia ser, por exemplo, na política. Nesse caso até poderia haver uma proximidade maior. Einstein era socialista utópico, enquanto eu, sou um socialista meia-colher.
Ele, várias vezes, foi acusado de comunista. Acontece que ele era visceralmente contra qualquer forma de autocracia, ele rejeitava Stalin, mas nem por isso seu dossiê no FBI deixou de ser recheado de suspeições. Por conta de amizades com personagens tidos como comunistas, por participação em congressos de cunho pacifista, para o senhor J. Edgard Hoover, o chefão do FBI, qualquer coisa era sinal mais do que evidente de conduta antiamericana. Por isso Einstein ficou impedido de participar do “Projeto Manhatan” – leia-se: bomba atômica.
Também eu já fui acusado de comunista e, por conta disso, perdi um emprego e fui barrado em outro, graças a dedos duros que não sabiam distinguir entre posições de protesto e adesão partidária, mas isso é outra história.
Coisa incrível mesmo foi o que li, lá pelas tantas, a respeito do gênio. Nunca pensei que isso pudesse acontecer, mas lá constava. O Einstein tinha duas grandes qualidades que, pensava, só eu as tivesse.
Olha só, minha gente, o Einstein não sabia nadar, coisa que até minha netinha já sabe. E tem mais, ele não sabia dirigir – dirigir carro, claro. Pois é. É exatamente nessas duas “qualidades” que ele, o gênio, e eu, um caipira de Ribeirão, estamos identificados.
Água, pra mim, só a do chuveiro, porque até pra beber prefiro vinho e cerveja e, na praia, o mar pra lá e eu só na areia. Quanto a carros..., bem, amigos são pra essas coisas. Eles adoram me dar carona. Gosto mesmo é de andar e já moro perto do metrô pra me deslocar pela cidade, com isso fico distante do estresse do trânsito.
Aposto que, se Einstein vivesse hoje, também adquiriria outra qualidade: não querer saber de telefone celular. Como eu.
*** Vocês perceberam como é importante a leitura de biografias? Nelas se encontram fórmulas de transformar deficiências em qualidades. Não é o máximo?
*Filósofo e psicólogo e ex-professor de Psicologia do Trabalho na PUC/SP. E-mail: awbiscaro@uol.com.br
|
![]() |