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Autor de mais
de 70 livros, o escritor e conferencista fala com humor e
irreverência de literatura,
Josué Machado Teólogo, psicanalista e ex-professor de filosofia da Unicamp, Rubem Alves redescobriu a poesia e a capacidade de se comunicar com o mundo exterior à universidade quando tinha uns 40 anos. Desde então, desenvolveu extraordinária capacidade de comunicação oral e escrita. Faz palestras por todo o país. Colabora em publicações, como Educação (Segmento). Fala e escreve com facilidade. E diz ter prazer nisso - comprovado pela rapidez com que produz: mais de 70 livros em trinta anos, como os recém-lançados A Inveja (Paulus) e Orações por Um Mundo Melhor (audiobook da Nossa Cultura). São histórias e crônicas marcadas pelo estilo filosófico, metafórico, mas claro e direto. Avalia com ceticismo indulgente as instituições políticas e religiosas. Ri, por exemplo, do que considera obtusidade dos líderes religiosos e da unanimidade granítica em torno deles. - Quando o papa fala em ecumenismo, ele se refere à adesão das outras igrejas à Igreja Católica; cada religião acha que detém a primazia indiscutível da verdade. Aparentemente cheio de energia aos 73 anos, é casado, tem três filhos - dois homens e uma mulher - e cinco netas. Da filha lhe veio a inspiração inicial, ele conta, muito expressivo, na conversa que flui pontuada pelo gestual incansável das mãos. Descontraído, irreverente, fala da vida, de literatura, religião, educação e língua portuguesa. Diz sonhar com a escola prazerosa, criativa, sem barreiras, desburocratizada e livre de ensinamentos que considera inúteis para crianças, como a análise sintática, "que tira o prazer de ler". - É fundamental saber ler e ouvir! Língua - Verdade que tem um caso de amor... com a vida, como diz o Robert Frost, lembrado por você em seu livro Perguntaram-me se Acredito em Deus? Rubem Alves (Rindo) - É verdade. Acho o mundo fascinante. Tenho olhos parecidos com os olhos de Alberto Caeiro, que disse ver o mundo com olhos de criança, como se o estivesse vendo pela primeira vez. Na verdade a gente sempre vê o mundo pela primeira vez. O mundo que vi antes não existe mais... E a memória dos tempos de escola? Interessava-se pelo idioma? Estudava além das obrigações? Minhas leituras nada tinham a ver com obrigações escolares. Eram prazeres. A princípio freqüentei o grupo escolar. Depois passei a uma escola americana. Nela havia aulas de leitura: a professora lia para a gente, por puro prazer. Não ia cair na prova... E agora? Faz muita consulta a dicionários e a livros de referência sobre a língua? Conheci uma escola em Portugal, a Escola da Ponte, em que as crianças, logo que aprendem a ler, aprendem também o prazer dos dicionários. Mas desconfio deles. Ao retirar "estória" da língua, os dicionários cometem um assassinato. Os dicionários não, os gramáticos. Os gramáticos são os anatomistas da língua. Lidam com um corpo morto. Mas as palavras, devemos fazer amor com elas. Os poetas sabem disso. Tem muitas preocupações com a melhor forma no texto? Sim. Minha preocupação com a forma tem a ver com a necessidade de que ela me exprima. Minha forma varia como eu vario. Por vezes sou palhaço, por vezes sou um quebrador de ídolos, por vezes sou um poeta... Eu sou muitos. Seus textos para o público leigo são repletos de parábolas, à moda da Bíblia. São claros, estilo direto, frases quase sempre curtas. É preciso esforço para escrever assim? Escrevo assim porque sou assim. Descobri que o inconsciente - aquele desconhecido que me faz ser o que sou - só entende linguagem poética. Linguagem de prosa é coisa de ciência. Acho que foi o Octávio Paz quem disse que a prosa marcha e a poesia dança... Eu gostaria muito de ser um grande escritor como Mia Couto, Gabriel Garcia Marques. Não sou. Contento-me em contar estórias porque é assim que brinco com a alma. Não sei se você sabe que fui pastor protestante há muitos, muitos anos. Alguém me disse que, quanto a isso, eu me despi de tudo. Menos da paixão por tocar na inteligência e no coração de quem me lê. E a recorrência aos textos bíblicos? Recebeu influência de outros autores orientais? Tenho dificuldades com essa palavra "influência". Olha a etimologia! Fluir para dentro, um rio exterior que deságua no meu próprio rio. Os autores que eu poderia denominar de "influências" não foram influências. Foram descobertas. Eu os descobri como companheiros. E nem sei se fui influenciado pelos textos bíblicos. Acho que nasci um contador de parábolas. Mas os hai-kais, eles foram uma descoberta genuína. Em todo caso, alguns autores me impressionaram: Nietzsche, Camus, Unamuno, Guimarães Rosa, Bachelard, Mia Couto (moçambicano), Fernando Pessoa, Mário Quintana, William Blake. Tem dificuldade com algum aspecto da língua? Tenho. Vivo errando a grafia. Havia aqui em Campinas um senhor que me escrevia cartas sistematicamente para corrigir-me dos meus erros de grafia. Era como um convidado que se metia numa sopa que eu estava servindo aos meus amigos e, sem dizer que a sopa era boa, reclamava que a tigela estava lascada. Quanto ao resto, vivo transgredindo regras, de propósito. As regras da língua são para aqueles que não sabem andar e precisam de muletas. Eu me viro sem muletas e invento coisas. O que acha da incorporação de estrangeirismos por nossa língua? Houve um movimento na literatura chamado "antropofagia". Ele dizia que os brasileiros tinham de fazer com as coisas do estrangeiro o mesmo que os índios haviam feito com os brancos. Eles os devoravam. Por que não devorar as palavras estrangeiras? Depois de devoradas acontece com elas o que acontece com a comida: é assimilada, tornada semelhante a si... Em seus encontros com estudantes, que impressão tem da maneira como falam ou escrevem? Depende... Quando os adolescentes estão falando com a gente, eles falam a língua que a gente entende. Quando estão entre eles, falam a língua que só eles entendem. É inútil convencê-los a falar a língua "normal"... E quanto aos jornalistas que de vez em quando o entrevistam? Eles se expressam bem, sabem do que falam? São raros, raríssimos, aqueles que realmente o estão entrevistando. Uma vez me aconteceu uma coisa incrível. Estava dando uma entrevista ao vivo, para uma rádio. Pois o entrevistador fez a sua pergunta e me deixou falando sozinho com o microfone. Foi fazer algo que julgava mais importante e retornou após o tempo regulamentar. Ainda bem que ele não disse haver gostado da minha resposta. Eu tive vontade de "dedá-lo" aos ouvintes da rádio. (Esse verbo, me parece, surgiu no tempo da ditadura, para referir-se àqueles que sofriam de "esclerodactilia" (essa última palavra é invenção minha...) (esclero = duro; -dactilia = dedo, em grego). Aprendeu outras línguas no Brasil ou alguma em suas estadas no exterior? Aprendi inglês porque vivi nos Estados Unidos. Entendo, mas não falo francês. Italiano e alemão, "malemá" (mal-e-mal) - só para leitura. Acho divertido ver um livro que escrevi publicado numa língua que não entendo. Romeno, por exemplo... Qual seu método de trabalho, se tem algum: é sistemático? Meu corpo e minha alma ainda não entraram na rotina da linha de montagem. São crianças. Escrevem como quem brinca. Às vezes, correria, pique. Noutras, no ritmo do balanço. Amo escrever. Não há método para o amor. Ele acontece quando se sente tesão. E sinto sempre tesão por escrever. Fernando Pessoa sofria da mesma coisa. Escreveu: "Sinto uma erecção na alma..." Autores dizem que começam a escrever e não sabem o que vai ocorrer depois. Que a história se conduz sozinha. Como é no seu caso?
Olha, quando vou
escrever, coloco as idéias no papel, como se fossem um mapa a ser
seguido. Mas sei que é inútil. Porque na viagem eu vejo cenários
imprevistos e me embrenho por eles. Tenho a sensação de que, quando
estou fazendo meu esbocinho, as idéias comentam: "Ele está só
fazendo esboço. Não é preciso ir lá. Quando ele começar a escrever,
então apareceremos..." Tudo depende das idéias. Há as que vêm sob a forma de cachoeiras e a digitação não consegue segui-las. Outras vêm com a vagareza de caramujos, arrastando-se. Algumas simplesmente se recusam a comparecer. É preciso, então, deixar para depois. Usa lápis, caneta, antes do computador? Alguns, como Ferreira Gullar, ainda usam lápis ou caneta na primeira versão. Outros são fiéis à máquina de escrever. Sempre o computador. Não por ter-me adaptado a ele. Mas porque não aprendi a ler o que escrevo a mão. Gasto muito tempo tentando adivinhar. No laptop tenho tudo arquivado e é fácil encontrar as idéias e referências. Mas entendo que haja pessoas que têm uma relação amorosa com a folha de papel. Aliás, o ato de escrever é uma metáfora sexual: o lápis pontudo tirando a virgindade da folha branca... Demora muito para terminar um livro? O trabalho emperra às vezes? Já tive um caso de emperramento. Trabalhei três anos num livro e cansei. Ele ficou esquecido num arquivo. Aí, de repente, lembrei-me de que Schubert compôs uma sinfonia que não conseguiu terminar. E é linda! Então, por que não publicar um livro que não terminei? Ao final eu explico ao leitor o caminho que eu iria seguir e ele que o siga por conta própria. É um livro de que gosto muito: Livro sem fim (Loyola). Gosto, de forma especial, do capítulo em que entrevisto Marx e ele me fala sobre o prazer. Trabalha sob pressão? Obriga-se a trabalhar? É horrível. E acontece quando se faz uma promessa a uma editora ou a editora exige. Na minha idade, tenho o direito de trabalhar segundo meu próprio ritmo. Como se sente quando termina um trabalho? Aliviado, frustrado? Sabe? Um autor tem um claro conhecimento do valor do seu trabalho. Quando a gente sabe que o texto é bom, fica feliz. Quando tem consciência de que o texto não é lá essas coisas, fica meio triste e envergonhado. Mas há uns autores que quando vendem muito, acham que o livro é bom. Não é. Por vezes o público tem gostos suínos. De qual de seus livros ou fases gosta mais? As fases são como sucessivas trocas de casca, tal como acontece com as cigarras. A cigarra, ser alado e musical, há de ter vergonha de sua fase subterrânea, a escura. Estou muito feliz na minha fase atual. Camus, jovem, dizia sonhar com uma fase em que escreveria por escrever, sem nenhuma preocupação com o público. Morreu antes. Eu me sinto assim. Mas não consigo me libertar do desejo de ser gostado. E acho que isso é bom. E há uma inveja terrível, verme verde: eu gostaria que meus livros fizessem pilhas nas livrarias. Alguns de seus livros foram traduzidos para diversas línguas. Gostou das traduções? Há casos deliciosos de engano do tradutor. Num livro meu publicado na Alemanha, o tradutor tomou "papagaio" (pipa) por papagaio, ave que fala. Não prejudicou meu livro em nada. Mas há casos em que um erro estraga tudo. O título de O Físico, por exemplo: o tradutor confundiu "physician" (médico) com "physicist" (físico). Quais de seus livros considera os mais bem resolvidos do ponto de vista literário e de linguagem? As Cores do Crepúsculo - A estética do envelhecer e Livro sem Fim. E não gostaria que meus livros para crianças fossem esquecidos. São para crianças e para adultos. Todos comportam um duplo nível de leitura. Um amigo me mostrou que A Menina e o Pássaro Encantado comporta três níveis. Minhas maiores alegrias vêm desses livros que já saíram em duas edições maravilhosamente ilustradas, pela Editora ASA, de Portugal. Se pudesse, modificaria parte do que já fez? Não. Dei a um de meus livros o título Se Eu Pudesse Viver Minha Vida Novamente. Minha resposta: viveria minha vida exatamente como vivi, com todos os seus erros. Foram os erros que me trouxeram até onde estou. E estou feliz. Se corrigisse os erros, talvez estivesse em outro lugar... Muitos de seus textos são críticos do sistema de ensino e dos professores. Uma professora o acusou no jornal do Sindicato dos Professores de apontar defeitos sem mostrar como fazer melhor. É verdade? Essa palavra "sistema"... Nietzsche disse que procurar um sistema é falta de integridade. De fato, jamais procurarei soluções em sistemas. Meus livros estão cheios de referências aos absurdos do atual sistema. Eu e uns amigos de Portugal, faz uns anos, resolvemos fazer uma Enciclopédia de Absurdos Pedagógicos. A idéia era boa. Mas faltou vontade. Vou dar um exemplo simples. Acho a análise sintática absolutamente inútil e dolorosa. Ninguém aprende a língua na mesa de anatomia da dita análise. Sugeri que se substituísse a análise sintática pela leitura, leitura prazerosa. Isso não muda o sistema, mas é uma pequenina sugestão. O caminho para a transformação da educação no Brasil não passa por leis e sistemas; passa pela cabeça e pelo coração dos professores. Mas já fiz uma sugestão global com um livro: A Escola com que Sempre Sonhei Sem Imaginar que Pudesse Existir (Papirus). É uma escola em Portugal, a Escola da Ponte, no Porto. Sua avaliação de que o povo pode ser, e é, fácil e freqüentemente enganado, coisa evidente, lembra a do Pelé, que quase foi linchado porque disse que o povo não sabe votar. Já escrevi o que penso na Folha de S. Paulo e por isso quase fui linchado: O Povo Unido Jamais Será Vencido. Eu disse: É disso que tenho medo. No Antigo Testamento o povo de Deus era tão f.d.p. que um profeta o chamou de "prostituta". Foi o povo que pediu que Jesus fosse crucificado. O povo se reunia nas praças na Idade Média para ver os hereges e judeus serem queimados. O povo elegeu Collor. O povo se vende por pouco. Jesus olhou para as multidões e teve pena delas, porque andavam desgarradas e errantes como ovelhas que não têm pastor. O povo não é motivo de qualquer esperança minha. Mas o povo é objeto do meu carinho. Por isso escrevo em linguagem que qualquer um entende. Suas incursões pelos temas políticos não são freqüentes. Suas críticas aos políticos lhe causam problemas? Não me causam problema porque os políticos não as lêem e não se importam. Estão acima da voz dos escritores. "Os políticos só pensam no momento", disse Guimarães Rosa. "Eu sou um escritor, eu penso em eternidades..." Como é seu dia-a-dia? Acorda cedo? Dorme tarde? Dorme à tarde? Tem horários definidos? Ginástica? Passeios? Meu único compromisso atual são as sessões de hidroginástica, receitadas para amenizar um problema da coluna vertebral. O resto vem ao sabor dos impulsos. Já escreveu mais de 70 livros, a maioria depois dos 40 anos. Talvez mais de dois em média por ano. Por que produz tanto? Não seria melhor desfrutar? Escrever, para mim, é como armar quebra-cabeças. É brincar... Viver só no desfrute é um tédio. É preciso construir alguma coisa que contribua para melhorar as pessoas e o mundo. Professa alguma fé religiosa? Freqüenta igrejas? Não. O senhor foi pastor da Igreja Presbiteriana, que o maltratou muito. Isso lhe deixou mágoas? Nenhuma mágoa. A Igreja deixou de existir na minha cabeça. De vez em quando alguém me chama de herege. Eu me divirto. O título de sua tese de doutorado em Princeton era Towards a Theology of Liberation (Para uma Teologia da Libertação, 1969). (A lembrança é do teólogo Francisco Catão.) Então o senhor foi o primeiro a usar a expressão "teologia da libertação". Considero isso uma honra, embora os teólogos católicos da libertação sempre me tenham olhado de banda. Leonardo Boff (ex-frade franciscano, expoente da TL) lamentou o que classificou de "pensamento monolítico" em torno do papa. Que todos só aplaudem Roma e isso é muito ruim. O que acha? Eu faria uma pequena transformação no texto do Boff: "Pensamento monolítico DO PAPA." O papa julga que a Igreja Católica possui a verdade, a verdade toda, e por isso ela se basta. Ecumenismo, para ele, é a conversão das outras religiões ao catolicismo. A Igreja Católica nada tem a aprender com os outros. Modesto, não? A música é assunto recorrente em seus textos. Sei que prefere Bach e Brahms à música caipira e brega. Estudou música até que ponto? Na manhã deste domingo, liguei a TV no programa Quem tem medo de música clássica. Foi meu momento religioso. Ouvi a Fantasia Concertante de Beethoven, para piano, orquestra e coro. Por momentos, saí do mundo. Uma felicidade. Gostaria que em nossas escolas houvesse cursos de educação dos sentidos. Poucas pessoas sabem ouvir. Ouvir é complicado porque exige que os outros sentidos sejam silenciados. Para a maioria das pessoas a música é um barulho de fundo ao qual não é necessário prestar atenção. Quis ser pianista. Deus não me deu talento. Há um salmo que diz: "Inútil te será levantar de madrugada e trabalhar o dia todo porque Deus, àqueles a quem ama, ele dá enquanto dormem." Aqueles que Deus ama não precisam madrugar. Foi-me inútil madrugar. Sofri quando descobri que não tinha talento para tocar. Mas tenho talento para ouvir. São poucos os que se dedicam à arte de ouvir. Não cai no vestibular... Lembra-se de como começou seu interesse por literatura?
Quando menino. Depois perdi o interesse. Mas gostava de gibis
e da revista X-9, policial. Depois, coisa séria: teologia, filosofia,
ciência... Achava os escritores e poetas uns vadios... Mas lá pelos
40 anos, a pipoca estourou. Pipoca é um milho mirrado, impróprio
para comer até que seja colocado numa panela com gordura quente. Aí,
de repente, pum, e eis a pipoca. Foi assim comigo. Inventei um
aforismo sobre criatividade: Ostra feliz não faz pérola...
Beethoven era ostra infeliz; algo doía dentro dele. Para parar de
sofrer, encheu o mundo de pérolas. Acho que foi assim comigo. O
sofrimento gera a beleza.
Fonte: Revista Língua Portuguesa. |
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