José Saramago

 

Entrevista feita por Edney Silvestre 

José Saramago, o maior autor de língua portuguesa ainda vivo, escolheu uma ilha como seu mundo.
Há 14 anos, Saramago vive num auto-imposto isolamento num arquipélago diante da costa da África
– de onde lança sua voz crítica a sociedades, governos e governantes. O Jornal da Globo exibe na segunda e na terça-feira a entrevista feita por Edney Silvestre com José Saramago – que pela
primeira vez recebeu uma equipe de TV brasileira em seu refúgio, na ilha de Lanzarote.
 

Uma ilha no meio do Oceano Atlântico, em frente ao continente africano, varrida por ventos que nunca se calam. É uma paisagem que parece a superfície da lua: árida, negra, acentuada pela explosão de vulcões, há pouco mais de 200 anos; até hoje ainda há fogo sob a terra. Mas a vida surge, mesmo neste solo.

Essa é Lanzarote, uma das Ilhas Canárias. Pertence à Espanha, mas a Europa fica a mais de mil quilômetros; a África, a apenas 100 quilômetros. É lá que vive desde 1993 o único autor de língua portuguesa premiado com o Nobel de Literatura, José Saramago.

Ao receber o prêmio, um dos maiores intelectuais da atualidade emocionou falando do avô, Jerônimo, e da avó, Josefa – os dois analfabetos. “O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever....”, ele disse na época.

A mãe, Maria da Piedade, também não sabia ler nem escrever. “Lembro-me dela a sair de casa para lavar uma escada que tinha três ou quatro andares, com o balde, com o sabão e com o esfregão e a escova, escova dura para raspar. Era assim”.

Saramago teve mãe faxineira, pai guarda-civil e avós criadores de porcos. O único irmão, Francisco, morreu aos quatro anos. “A minha relação com a minha infância,que já podia estar esquecida ou transformada em outra coisa, se eu pudesse repeti-la, repeti-la-ia exatamente como foi: com a pobreza, com o frio, com a pouca comida, com as moscas e os porcos e com tudo aquilo”, diz. “Eu não quero cair, enfim, nesta coisa do miserabilismo: ‘eu fui pobre, eu fui pobre, eu fui pobre’”.

José de Souza Saramago foi estudar em escola técnica, e tirou diploma. “Saio serralheiro mecânico e exerço como serralheiro mecânico numa oficina de automóveis, rodando válvulas, reparando motores e coisas assim”, ele conta. Mas diz que hoje ainda não é capaz de consertar um carro. “Hoje não, porque eu não sou quem era, mas também o automóvel também não é quem foi”.

O ex-mecânico construiu uma carreira excepcional. “Não houve uma força superior que olhasse pra mim e dissesse: ‘bom, vou te preparar uma vida muito bonita’. Não, não, não. Agora, é uma vida que não podia ter sucedido, em termos de pura lógica", reconhece.

Nossa entrevista foi gravada na grande biblioteca do homem que sequer tinha dinheiro para comprar livros.

O comunista, racional, fala da transformação trazida pela paixão por uma mulher. “A minha vida não seria aquilo que é hoje, não teria essa biblioteca se eu não tivesse conhecido a Pilar”, ele diz.

Quando se conheceram, Saramago tinha 63 anos, e Pilar Del Rio, 36. “Os meus amigos diziam: ‘vê lá o que vais fazer e tal, isso é perigoso’ e tal”.

Pilar nunca tinha ouvido falar em Saramago. Leu o romance “O Memorial do Convento”. “A cada página, eu voltava atrás para certificar-me: é um contemporâneo. Aí, tinha a percepção de que estava diante de um clássico. Este homem tem um olhar sobre o mundo absolutamente moderno, absolutamente contemporâneo”, conta Pilar.

Em Lisboa, aconteceu o primeiro encontro, a atração – a princípio, intelectual: os dois apaixonados pelo poeta Fernando Pessoa e pelo marxismo.

Seis meses depois, houve o reencontro em Sevilha, às 4 da tarde; a hora está registrada em vários relógios da casa em Lanzarote. “E aí começa realmente a minha segunda vida. Porque com 63 anos, o que é que se espera que aconteça? Já não muita coisa", explica Saramago. Os dois estão juntos há 21 anos. Vivem, com simplicidade, em uma ilha longe do mundo.

Mas Saramago está sempre atento – e crítico – às mudanças da história. “A globalização é um totalitarismo. Totalitarismo que não precisa nem de camisas verdes, nem castanhas, nem de suásticas. São os ricos que governam, e os pobres vivem como podem. Então, isto tem aspectos totalitários de fato, porque se tu controlas a economia mundial, os movimentos do dinheiro, a circulação dos bens, de uma certa maneira também controlas a circulação das pessoas, que é o que está a acontecer”, analisa.

Num pequeno escritório com vista para o oceano, Saramago escreve. Diariamente. Mesmo durante os meses da doença recente, continuava escrevendo; ele teve um espasmo gástrico que provocava soluços – às vezes a cada três segundos. E se curou, imagine, com goles de vinagre. “Imagina o vinagre descendo pela garganta abaixo? Era dinamite", ri.

 

Do arquipélago das Canárias, na costa da África, o prêmio Nobel de Literatura José Saramago está atento ao que se passa por aqui, do outro lado do Atlântico. O Brasil, diz Saramago, não tem partidos; sofre do que ele chama de "caciquismo", e o governo Lula poderia ser melhor.Na segunda parte da entrevista concedida a Edney Silvestre, o escritor fala também da morte. Sobre ela, aliás, Saramago tem uma definição surpreendente, bem ao estilo de seus textos.

A paisagem de Lanzarote é toda igual: rochas e terra escura, quilômetros e quilômetros de lava petrificada. Terra árida, e o vento – presença constante. As violentas explosões que deram origem a esta terra estranha, que mais parece a superfície da Lua, aconteceram 40 milhões de anos atrás. O subsolo manteve o calor de tal forma, que em algumas partes da ilha, nada cresce.

Mas no quintal de José de Sousa Saramago, a terra negra gera vida. Ele nos mostra videiras, árvores frutíferas e as oliveiras – as mais especiais do jardim. Ele plantou quatro; uma não resistiu aos ventos de Lanzarote, mas ele mostra, orgulhoso, os brotos de uma segunda delas.

Daqui a pouco, os brotos serão azeitonas – como as da infância em Azinhaga, onde via os camponeses fazendo a colheita. “Agora aquilo são campos de milho, enfim, extensíssimos, o que me causa a mim ... a primeira vez que eu encontrei com aquilo foi assim um choque, um choque tremendo”, ele lembra.

A União Européia pagou para que as oliveiras fossem arrancadas e, assim, manter alto o preço do azeite. “As pessoas transformam-se em máquinas de ganhar dinheiro. Ou de tentar ganhar dinheiro”, diz Saramago.

Ele é um revolucionário que não aprova o terrorismo fundamentalista. “Mas então ninguém percebe que matar em nome de Deus é fazer de Deus um assassino? Quem é que se haveria de atrever a uma coisa dessas? Pois atrevem-se todos os dias, em todas as religiões!”.

Gorbatchev, a queda do muro de Berlim, a hegemonia americana, a China comunista como potência capitalista; como ele vê esse mundo que emergiu do século XX? “Duvido que nos tempos mais próximos as idéias socialistas tenham qualquer oportunidade, porque aquilo que se passa com os partidos socialistas... a primeira coisa é que não são socialistas. E quem governa o mundo é o dinheiro”.

A decepção de Saramago inclui o presidente Lula e a frustração de expectativas, como a eleição de um ex-operário “Eu esperava mais e melhor. O Lula apresentou-se como alguém que iria resolver aquilo. Mas estava claríssimo que ele não podia. Se não mudava, se não transformava as lógicas do poder que fazem do Brasil um país um pouco estranho neste particular... é que no fundo não há partidos, há grupos de interesses, alianças que se fazem e que se desfazem consoante as conveniências. Há uma espécie, não quero dizer, não quero chamar de, digamos, ‘caciques’, mas há qualquer coisa que vem, digamos, na linha do ‘caciquismo’, que é o influente político que não sabe muito bem por que é que ele ganhou aquele poder, mas a verdade é que o ganhou”, avalia.

Mas o poder, entende Saramago, não realiza utopias. “E como é que o Lula, supondo que representava essa utopia de justiça social, resolução dos problemas gravíssimos que tem o Brasil nesse particular, como é que ele ia resolver? Sozinho? Como uma espécie de Joana D'Arc que vem, digamos, que lança em riste resolver tudo? Claro que não podia”, diz.

Foi uma outra decepção que trouxe Saramago para a ilha de Lanzarote: censura em Portugal. “Se durante 40 anos agüento...mas quase 50 anos tivemos, e tive eu e nós todos tivemos que agüentar o fascismo. O fascismo tinha as suas regras, pois apreendeu livros, meteu escritores na cadeia, algumas vezes. E agora chega a democracia e proíbem-me o livro”, conta.

O livro era “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”. Em 92, o governo português proibiu que o romance fosse inscrito num prêmio por causa de trechos como o seguinte:

O filho de José e Maria nasceu como todos os filhos dos homens, sujo do sangue de sua mãe, viscoso das suas mucosidades e sofrendo em silêncio. Chorou porque o fizeram chorar, e chorará por esse mesmo e único motivo.

“Houve uma censura, e uma censura que eles justificavam desta maneira: o livro era ofensivo para os católicos portugueses. Como se eu tivesse alguma coisa que ver com os católicos portugueses, não?”, conta.

Em Lazarote, ele vive com simplicidade. Nas paredes, tem obras de arte, fotos e lembranças. No escritório, mais fotos, a imagem do amigo Jorge Amado e estatuetas de cavalos, seu bicho favorito.

É a oficina do intelectual neto de criadores de porcos, sem vaidades - que reagiu com humildade ao maior prêmio literário do planeta. “E realmente estou a pensar, enfim, aturdido, enfim, pela notícia e tal do Prêmio Nobel. E em voz alta: ‘sim, tenho o Prêmio Nobel’. E quê? Que eu achava pouco ter o Prêmio Nobel? Não, não, não. É que no fundo, no fundo, tudo é pouco, tudo é insignificante. Que eu estivesse a pensar no universo, e em relação ao universo, o Prêmio Nobel não teria importância nenhuma”, conta.

Como Saramago vê o próprio futuro? “Tenho 84 anos, posso viver mais três ou quatro, ou cinco anos”. E a morte não o assusta. “Não, não, não. Tal como eu vejo, o pior que a morte tem é que antes estavas, e agora já não estás. Eu digo de outra maneira aquilo que a minha avó disse. Já devia estar farta de viver, e disse: ‘o mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer’. E ela não tinha pena de morrer: ela tinha pena de já não estar, no futuro, para continuar a ver esse mundo que ela achava bonito”.

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Fonte: Jornal da Globo, 21 e 22/05/2007.
Disponíveis em:
http://jg.globo.com/JGlobo/0,19125,VTJ0-2742-20070521-282359,00.html