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Nelson Motta
Compositor, jornalista, produtor musical: Nelson Motta fez muito de
tudo em 62 anos de vida.
Por Cynara Menezes Foto: Daryan Dornelles Seu novo livro se passa nos tais anos dourados. É saudosismo?
De jeito nenhum, não sou saudosista. Não queria viver nada de novo, vivi intensamente tudo, cada coisa na sua época. Tenho saudade de pessoas, do Tim Maia, do Vinicius de Moraes... Mas não da minha juventude. Até quis botar no livro um Rio que era paradisíaco, mas que tinha muitos problemas. Os personagens passam o livro inteiro tomando banho de cuia, do favelado ao milionário. Porque faltava água, dia sim, dia não. Tem muitas cenas passadas na favela, no morro da Babilônia, que era um lugar muito pior, ainda mais pobre, mais sujo, mais precário, não tinha esgoto, não tinha nada. Mas não era lugar de banditismo.
Em compensação a vida do delegado de polícia era aquele marasmo...
Era uma moleza. Ele tinha tempo de sobra pra namorar a mulher do coronel do Exército, criar o maior problema...
Você também perdeu a virgindade com uma gringa, como um dos personagens?
Acho que a minha virgindade emocional... A primeira vez que sinto ter ficado nervoso com uma garota foi aos 5 anos, numa escola inglesa em Botafogo. E a garotinha era uma americanazinha loirinha, cacheadinha, que se chamava Caroline. Isso deve ter ficado na minha memória afetiva, porque acabei dando esse nome para a estrela do livro. A virgindade explícita perdi aos 14 anos com uma empregada doméstica linda, inesquecível... Uma baiana maravilhosa. Trabalhava na minha casa. E...? Rolou um clima, né? Até que uma tarde, sem ninguém em casa, num fim-de-semana, aí rolou no chuveiro do banheiro dela.
Só uma vez?
Não, rolaram mais algumas poucas vezes...
Você fala no livro das garçonnières de Copacabana. Chegou a freqüentá-las ou é uma homenagem a Nelson Rodrigues?
É uma homenagem do fundo do coração ao Nelson. No livro eu cito as crônicas de A Vida Como Ela É no jornal Última Hora. No mundo assexuado em que a gente vivia, esse imaginário dele de adultério, perversões, era um delírio. Mais adiante, cheguei a freqüentar esses apartamentos, quando tinha uns 18 anos. Não existia motel no Rio nos anos 60. Depois de 1968, com a pílula anticoncepcional, é que começam os motéis. Foi um estouro da boiada.
Nelson a princípio elogiava você e o Chico Buarque e depois cismou.
Nós que cismamos com ele primeiro, porque éramos jovens esquerdistas. Foi em 1968, havia uma radicalização e Nelson defendia o governo militar. Eu tinha coluna em jornal e sentava o pau, chamando-o de traidor. Eu me arrependo amargamente de tê-lo sacaneado. Ele sacaneava a mim e ao Chico, mas pegava leve, porque nos encontrávamos todo domingo no Maracanã, os três torcendo pelo Flu. O resto da esquerda ele pulverizava, era sarcástico, cruel. Comigo e com o Chico, não. Eu amava o Nelson.
Ainda torce pelo Fluminense?
Torço, mas a contragosto. Gosto de futebol bem jogado. E cada vez gosto mais do futebol e menos da torcida. A torcida é passional, só vê o seu time, não vê o jogo. Tenho horror de religiões, seitas, partidos políticos, torcida organizada... Nem me importo de perder, mas lutando. É uma metáfora da vida, da guerra.
Há muitas cenas picantes em seus livros. Fica excitado ao escrever?
Procuro fazer o que encontro nos livros que gosto de ler. E gosto quando tem mistério, coisas dúbias, suspenses, viradas, grandes amores, quando tem sexo bom, de verdade. Tenho horror a sexo poético, metafórico. Você tem que escrever metaforicamente de pau duro e pra esse pau duro literário não tem viagra que dê jeito. Ou tem ou não tem.
Uma ex-namorada sua me disse que terminou contigo porque você era galinha. Ainda é?
Não, já se foi o tempo. Sou uma galinha aposentada há muitos anos. Mas, claro, dos 30 aos 40 eu era dono da (casa noturna) Noites Cariocas no morro da Urca, solteiro no Rio de Janeiro. Ora! Ter sobrevivido foi uma sorte...
Agora é um homem diurno?
De uns 20 anos pra cá, totalmente. E monogâmico. Quem diria... Tô igual ao Tim Maia: só quero sossego. Trabalho em casa, minha mulher só chega de noite, fico sozinho no computador com minha vista maravilhosa de frente pro mar de Ipanema. Não tenho nem carro, fico o dia inteiro de short, havaianas, camiseta rasgada. O Ruy Castro, que faz o mesmo, diz que tô muito formal: pra que as havaianas? Ele nem havaianas usa.
Só não deixou de fumar, né?
Deixei várias vezes. Atualmente tô numa fase “fu”, mas já tive boas fases “não-fu”. Mas tô na luta. Fumo, mas nado, caminho, faço ioga duas, três vezes por semana. É uma forma de compensar um pouco.
Sua biografia é meio similar à do Chico. Nasceram no mesmo ano (1944), passaram parte da infância em São Paulo, mas são carioquérrimos... Se você pudesse escolher, seria Chico ou está satisfeito sendo Nelson?
Entre ser Nelson Motta e Chico, preferia ser o Chico, mil vezes. É mais bonito, mais inteligente, mais talentoso, joga bola muito melhor... Eu tenho uma enorme admiração, uma grande amizade por ele, somos amigos desde os 18 anos. Mas tô satisfeitíssimo. Nunca imaginei que Nelson Motta ia ser isso aqui, seja lá o que for.
E os livros do Chico, você leu?
Só li o Estorvo, que achei perturbador. Chico escreve maravilhosamente bem. É um poeta e um músico fabuloso, um artista completo. E ainda bate um bolão.
Essa é a parte que você mais inveja, pelo visto.
É, eu digo pra ele. Somos unidos na tricolagem e separados no amor que a bola tem por ele e não por mim. A bola me despreza. Eu jogava de goleiro e, mesmo assim, só quando era dono da bola. Morria de medo de levar bolada.
Você ainda produz música?
Alguma coisa, não tô com cabeça. Tô numa de escrever texto mesmo. É onde me sinto mais independente, mais livre. O computador aceita tudo, não precisa de Lei Rouanet, de elenco, de autorização de ninguém, nada. Claro, tudo tem um downside, de vez em quando você enguiça na história e ninguém ajuda também.
Vem cá, você namorou todas as cantoras que produziu?
Não mesmo. Produzi muitas cantoras. Muitas até eu gostaria, mas do que eu gosto elas comiam com farinha... Na verdade, aconteceu pouquíssimas vezes.
Você elogia a Maria Rita. Mas, se Elis não tivesse morrido, não seria ridículo uma filha cantora com a voz idêntica à dela?
Se Elis não tivesse morrido é quase impossível que Maria Rita quisesse ser cantora. De cara. Talvez fosse uma brilhante jornalista, crítica de música... Acho a Maria Rita uma cantora fabulosa, tão boa quanto a mãe. A voz é parecida, o que ela faz é um repertório que seria supostamente uma Elis hoje. É legítimo isso, ter um gosto parecido com o da mãe. Eu tenho um gosto parecido com o da minha mãe para literatura.
Gostou do disco de rock do Caetano Veloso?
Adorei, tem coisas maravilhosas. E outras chatérrimas. Brincadeiras, provocações, que é bacana ter num disco, mas não quero ficar ouvindo aquilo nem ele pretende que alguém ouça o disco inteiro, de cabo a rabo, várias vezes. O bacana de Caetano é a coragem de mais uma vez se expor, porque, quando tinha tudo pra fazer um disco com clássicos da música brasileira, o cara dá um salto no escuro desses. Bato cabeça pra ele.
Você curte novidades musicais?
Muitas, me alimento disso. Mesmo no meu iPod tem música que em duas semanas tá vencida, vou tirando. Gosto de eletrônica, hip hop, funk, soul, tudo. Agora, como já ouvi muita coisa boa na minha vida, é duro me enganar.
No livro se fala do barato do lança-perfume. Usou bastante?
Não peguei muito, acabou em 1961. Mas era sazonal: todo mundo cheirava em baile de Carnaval. Baile infantil era movido a lança-perfume. De vez em quando caía uma criança lá, tonta, levantava e ia embora. Uma coisinha inocente.
Ainda tem um, argentino...
Mas isso não é lança-perfume, é veneno de matar rato, aromatizador de ambiente, um horror.
É a favor da liberação das drogas?
Não, mas é um tema que tem que se discutir. Houve uma evolução com essa lei nova, que a pessoa flagrada com um baseado na rua não pode mais ser presa. Acabou com uma fonte de extorsão permanente da polícia. A gente vivendo na criminalidade que vive e o cara correndo atrás de um garoto fumando um baseado! Pelo amor de Deus... :: ________________________________
Fonte: Revista VIP.
(Publicado em
Janeiro / 2006). |
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