Pretendo provar e entender por que os papagaios não envelhecem 

 

O professor mantém um programa de pesquisa na USP com bactérias
fixadoras de nitrogênio e outras presentes em ovos


Crodowaldo Pavan, com 87 anos e uma carreira vitoriosa, continua trabalhando com um entusiasmo quase juvenil. Vai diariamente ao Instituto de Ciências Biológicas da USP, onde mantém um programa de pesquisa com bactérias fixadoras de nitrogênio, presentes em vários tipos de planta, e com as que ocorrem em ovos de aves.


A hipótese que pretende comprovar envolve a busca da longevidade. “Os papagaios, parece, não envelhecem. Quando morrem, é por que foram atacados por uma doença. Estou tentando, além de comprovar esse fato, descobrir por que e como ocorre esse não envelhecimento. E depois encontrar uma forma de reproduzir o processo no organismo humano”, explica.


O professor estuda o processo de envelhecimento desde o final dos anos 50, quando trabalhava no Oak Ridge National Laboratory, um dos quatro laboratórios americanos responsáveis pela criação da bomba atômica. Seus estudos foram tão importantes, que o Oak Ridge pediu a ele que montasse um laboratório só para as suas pesquisas.


Nessa época, investigava o efeito da radiação nas células e descobriu que a contaminação desencadeia um processo igual ao do envelhecimento natural, uma grande contribuição à ecologia, segundo o ambientalista Paulo Nogueira-Neto.


Nesta entrevista, concedida em sua sala na USP, Pavan conta o caminho que percorreu na vida profissional e os detalhes de seu trabalho atual.


- Como começaram os estudos de genética no Brasil?

 

Pavan - A genética foi introduzida nos anos 30. Começou na Esalq e no Instituto Agronômico de Campinas, onde foram feitos trabalhos importantes com milho e café. Mas eram pesquisas isoladas. Em 1942, o representante da Fundação Rockefeller, Henry Miller Júnior, procurou o (André) Dreyfus, dizendo que a Fundação desejava investir na América Latina, e tinha escolhido o grupo de Dreyfus para financiar. Fui com eles ao almoço em que a proposta foi feita. Foi a partir disso que (Theodosius) Dobzhansky, autor do livro Genética e a Origem das Espécies, uma explicação genética para a teoria de Darwin, veio para cá, o que acabou incentivando o desenvolvimento das pesquisas.


- O que ele estudou aqui?


Pavan - O grande interesse dele, que o levava a querer ir para a Amazônia, era estudar Drosophilas (môsca-das-frutas) tropicais. Ele tinha um trabalho extraordinário com espécies dessa mosca de clima temperado. A Drosophila foi o organismo que mais contribuiu para a genética. Entre outras coisas, a larva dessa mosca tem uma glândula salivar perto da boca, contendo cromossomos politênicos, que são cromossomos que não se separam. Dobzhansky queria comparar as espécies.


- O que o senhor acha da participação do Brasil no Projeto Genoma?


Pavan - Isso aconteceu muito tempo depois de Dobzhansky. Eu sempre achei que era bobagem, que estava errado. Não adianta nada sabermos como é a estrutura do cromossomo no homem. O que precisamos saber em primeiro lugar é o que cada gene faz e qual é a relação de um com o outro dentro do cromossomo. Investir recursos no estudo do Genoma é jogar dinheiro fora. Isso o trabalho da Drosophila fez. Adiantava para saber qual é a estrutura do cromossomo e como o gene se comportava. Mas isso não vai levar a coisa nenhuma. O projeto Genoma foi apresentado e recusado duas vezes pela agência que apóia a pesquisa nos EUA. Só saiu porque o Congresso foi consultado e acabou liberando US$ 2 bilhões. Acho ótimo que os americanos façam. Mas fui radicalmente contra o envolvimento do Brasil.


- Por que é bom para os EUA e não é bom para o Brasil?


Pavan - Nos EUA sobra dinheiro, aqui falta. Em vez de fazer uma coisa que só vai ser útil em 10, 20 anos, é melhor fazer o que é preciso agora, que é conhecer o funcionamento do gene. Essa é a pedra da roseta. Cada gene tem uma pedra da roseta que precisa ser decifrada. Depois disso, coloca na estrutura e aí sim, o Genoma vai ter um sentido.


- Muitos críticos alertam para o risco de certas abordagens da pesquisa genética levarem ao racismo. Como naquelas que identificam uma vulnerabilidade maior dos negros a certas doenças, por exemplo. O que o senhor acha?

 

Pavan - O pessoal está dizendo que raça não existe. Está havendo uma confusão entre o misticismo e a genética. Se há dois grupos, um pode ser melhor do que o outro e não há nenhuma razão para não ser assim. Um pode ter azar e o outro, sorte. Então há diferença, que vai mudar no futuro por causa da mistura e da facilidade de comunicação, mas não vão deixar de existir. Há também uma diferença genética. O que não foi demonstrado é a pretensa superioridade de um grupo sobre o outro. Na realidade, não sabemos metade de 1% do que acontece no nosso organismo geneticamente. Quando conseguirmos traduzir o que o gene faz aí, sim, teremos a receita do bolo.


- O senhor consegue projetar o futuro? Vamos poder trocar de corpo como trocamos de roupa ou construir estruturas genéticas?

 

Pavan - Por enquanto é muito difícil imaginar qualquer coisa desse tipo. Mas pode fazer, por exemplo, através das células-tronco. Estou fazendo um estudo agora nessa linha. As células-tronco são formadas no embrião, mas é muito provável que existam células-tronco funcionando no indivíduo adulto também. Não consegui provar ainda, mas existem certos papagaios e periquitos que não envelhecem. Morem por doença, ninguém sabe quanto tempo vive. O pai da minha nora tem um papagaio de 80 e tantos anos. Esse papagaio pegou uma infecção que destruiu seu olho e foi curado. Mas foi mais do que uma cura, o olho se regenerou. Estou trabalhando para provar, mas se não conseguir, ao menos vamos saber o que acontece realmente.

- O que o senhor procura?


Pavan - Se você separar a clara da gema, misturar a gema com soro fisiológico e triturar, ela não se dilui. Quebra-se
em pedacinhos. E de dentro da gema sai uma goma, que forma estruturas cada vez mais complicadas e interessantes. Essa goma é produzida por uma bactéria que está dentro da gema. A hipótese que estou levantando é que a gema é um alimento muito complexo e se o embrião comesse só a gema e a clara, teria que defecar, contaminando o ovo. A bactéria retira o que precisa da clara e da gema e produz uma goma. Quero demonstrar que essa goma produzida pela bactéria é o alimento do embrião, e não a clara e a gema.


- O que isso tem a ver com a história do papagaio e com a regeneração de tecido?


Pavan - Por que se por acaso essas bactérias são as que produzem um certo alimento para o embrião, sem dúvida nenhuma elas serão excepcionais para a célula-tronco. Podemos encontrar uma forma de reproduzir no organismo humano o processo de renovação celular que ocorreu no papagaio, a partir dessas bactérias, que só existem no ovo. Nos mamíferos, as células-tronco existem no sangue. Mas essa bactéria só existe no ovo. Embora existam muitas pesquisas com célula-tronco, ainda não se sabe direito como esse processo funciona.

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Fonte: Jornal O Estado de S.Paulo. Disponível em: http://www.jornaldaciencia.org.br, 25/10/2006.