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José Saramago, escritor: "Continuo sendo um camponês"
José Saramago - Imaginemos que eu não fosse prêmio Nobel, e mesmo que não fosse escritor, e que por um capricho a esta altura da minha vida decidisse começar a lembrar o que fui quando menino. Isso é o livro. No fundo, fiz o que qualquer um pode fazer. Recordar, com mais ou menos precisão. Enfim, sou escritor e me deram o Nobel, mas aquele menino não sabia nada disso, e eu tento não misturar uma coisa com a outra.
Saramago - Tentei ser o mais fiel possível à minha memória, e mesmo que a memória não seja confiável essas recordações estiveram comigo toda a minha vida. É claro que a interpretação das recordações é outra coisa. Talvez esteja mediatizada. Pelo Nobel e por tudo o mais.
Saramago - O propósito era esse. Embora a editora (Caminho) tenha dito que podia tê-lo ampliado para 300 ou 400 páginas, se eu tivesse feito isso estaria fazendo literatura. E só me interessavam os fatos. Não são fatos secos, porque tudo tem uma ressonância. Mas o importante é que não há exercício de estilo.
Saramago - Os fatos são esses. É preciso levar em conta que nos anos 20 e 30 os pobres eram pobres e os ricos eram ricos e cada um ficava em seu lugar. Não havia interpenetração, e as pessoas pobres aceitavam sua situação. As coisas haviam sido assim desde sempre. Não direi que a gente se resignava; simplesmente aceitava esse fato.
Saramago - Não tive má intenção, a vida era assim: o homem da casa tinha razão em tudo e os outros eram satélites. Todos nos queríamos muito bem, embora não fôssemos uma família permanentemente feliz. Meu pai veio de uma aldeia e vestiu um uniforme da polícia. Isso mudou as coisas. O componente erótico do uniforme produzia em minha mãe ciúmes terríveis.
Saramago - Não creio. Quando chegava em casa, ficava de cuecas. O uniforme não foi um trauma. Inclusive devia sentir certo orgulho de sua autoridade. Levava o cassetete de um lado, a pistola do outro... certamente isso me encantava; pode ser até que me envaidecesse.
Saramago - Ensimesmado, triste. Mas isso não é ruim! Quando vejo os
pais preocupados porque os filhos estão recolhidos em si mesmos,
sempre lhes digo: "Deixe-os em paz, estão crescendo". Saramago - Era um observador, mas não escrevia romances aos 6 anos. Fui bom estudante no primário e muito bom no primeiro do ginásio. Depois a coisa mudou e nunca fui muito aplicado, mas não perdi nenhum ano. Mais tarde comecei a estudar para serralheiro mecânico, mas no programa havia uma cadeira de literatura e aí o leitor começou a despertar.
Saramago - Nessa época não se falava em política. Pelo menos em casa, não. Meu pai repetia a opinião dos que mandavam. E minha mãe era analfabeta. Não se discutia. Só se falava da família, do tempo, de onde estavam os chinelos e que a sopa tinha sal demais.
Saramago - Estão idealizados, é verdade, mas é natural. Agora só há pais (com sorte dois), e os avós saberão onde estão, mas não se nota. Antes eram muito importantes. Assim, seu destino lógico era o esquecimento. Se não tivesse escrito um livro, não teria ficado rigorosamente nada deles. Só um nome no cartório. Me conforta muito ter feito isso, para que continuem tendo alguma forma de vida.
Saramago - Não tínhamos rádio, por isso a trilha sonora era o
palavreado que se ouvia quando três ou quatro mulheres cozinhavam ao
mesmo tempo e os meninos estavam brincando e gritando. Saramago - De alguma forma continuo sendo um camponês. Parece disparatado dizer isso, mas só eu posso saber o que tenho de camponês dentro de mim. Em grande parte continuo sendo aquele menino. Minhas raízes mais autênticas são essas. O passado está longe, mas nunca pude me separar dele.
Saramago - É verdade que estou um pouco mitificado, apesar de não ter feito nada para isso. A idéia não foi essa. Talvez quisesse dizer: "Você conhece um homem que é isto e aquilo; pois esse homem vem daquilo, dessa infância tão pouco extraordinária". Tudo indicava que minha vida ficaria ali. Poderia ser serralheiro para sempre e não ir muito mais longe, mas por uma coisa ou outra... aos 17 anos soltei uma frase, num grupo de amigos, que aparentemente não tinha sentido: "O que tem de ser meu às minhas mãos chegará". Poderia significar que não valia a pena esforçar-se, mas me esforcei e...
Saramago - O momento decisivo foi em 1975. Eu havia me queimado muito na revolução, fiquei sem trabalho e decidi tentar ver aonde podia chegar como escritor. Tinha alguns livros, mas não uma obra. Se tivesse morrido em 1975 ficaria pouca coisa, com duas linhas na História da Literatura Portuguesa resolveriam meu caso. Em 86 conheci Pilar [del Rio, sua mulher e tradutora para o espanhol] e essa foi outra revolução em minha vida.
Saramago - Nem todos temos um avô que quando ia para Lisboa morrer passou antes por seu pomar para despedir-se de suas árvores. Se você esquece algo como isso, é um idiota. Se não se alimenta disso, está perdendo algo.
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Fonte:
El País; 19/11/2006. |
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