entrevista

José Saramago, escritor: "Continuo sendo um camponês"


O prêmio Nobel narra em "As Pequenas Memórias" sua infância tranqüila e pobre em Azinhaga e Lisboa. O livro, que foi apresentado na quinta-feira, dia de seu 84º aniversário, em sua aldeia natal, começa com a epígrafe: "Deixe-se levar pelo menino que já foi".


É um menino solitário e sério; gosta de pensar e é muito observador. Parece feliz à sua maneira tranqüila. Sobretudo quando anda descalço. "No povoado sempre andávamos descalços, as crianças e as mulheres. Os homens também, mas quando iam trabalhar calçavam botas. Eu gostava muito de chegar à aldeia, tirar os sapatos e entrar no rio, pisar o lodo e os resíduos duros... É o que todo mundo fazia, todos vivíamos assim então. Mas essa pobreza ainda existe, e até pior."


Intitulam-se "As Pequenas Memórias" e cumprem a promessa triplamente: são curtas (150 páginas), acabam quando o autor ainda é menino (tem 14 ou 15 anos) e são muito pouco literárias; como se Saramago tivesse afastado o escritor para narrar sua infância.


Esse menino da história parece curioso e esperto, mas é difícil prever para ele um futuro brilhante, muito menos de escritor. Parece destinado sem remédio a ser camponês ou operário. Talvez policial como seu pai. "Aos 14 anos não havia dinheiro em casa e meu pai decidiu que eu estudaria para serralheiro mecânico. Eu achei bom e o fiz."


A vida transcorre entre Lisboa, para onde emigra sua família quando ele tem só 1 ano e meio, e Azinhaga, a aldeia nas margens do Almonda, muito próxima do Tejo, a uma hora ao norte da capital, onde passaria todas as suas férias escolares.


O menino chamado José de Souza (no livro conta que "Saramago" foi acrescentado por conta de um funcionário embriagado do cartório; era só o apelido da família na aldeia) cresce em uma região camponesa e analfabeta e, à sua maneira parca, até divertida: as famílias são muito numerosas, há ciúmes abundantes, cavalos e cachorros, algumas rebeliões militares e o regime salazarista obriga os estudantes a vestir o uniforme das Mocidades Portuguesas.


Também há mulheres e crianças, às quais Saramago se afeiçoa desde cedo, e sobretudo dois avós maternos fantásticos: Josefa e Jerônimo. "Tive a enorme sorte de ter aqueles avós, mas meus netos não tiveram a sorte de ter avós assim. Quando chegou minha vez, eu não tinha aprendido a lição. Costumo dizer: 'Eu não sou avô, só tenho netos'. E sei que sou um mal-agradecido porque continuo sendo o neto de meus avós."


El País - Surpreende no livro a ausência quase absoluta de literatura...

José Saramago - Imaginemos que eu não fosse prêmio Nobel, e mesmo que não fosse escritor, e que por um capricho a esta altura da minha vida decidisse começar a lembrar o que fui quando menino. Isso é o livro. No fundo, fiz o que qualquer um pode fazer. Recordar, com mais ou menos precisão. Enfim, sou escritor e me deram o Nobel, mas aquele menino não sabia nada disso, e eu tento não misturar uma coisa com a outra.


EP - O que surpreende é que tenha conseguido voltar a se colocar em sua pele de então.

Saramago - Tentei ser o mais fiel possível à minha memória, e mesmo que a memória não seja confiável essas recordações estiveram comigo toda a minha vida. É claro que a interpretação das recordações é outra coisa. Talvez esteja mediatizada. Pelo Nobel e por tudo o mais.


EP - Mas se nota esse esforço de contenção.

Saramago - O propósito era esse. Embora a editora (Caminho) tenha dito que podia tê-lo ampliado para 300 ou 400 páginas, se eu tivesse feito isso estaria fazendo literatura. E só me interessavam os fatos. Não são fatos secos, porque tudo tem uma ressonância. Mas o importante é que não há exercício de estilo.


EP - Fica a vida desse menino, tão simples e dura ao mesmo tempo, conformado com o que tem.

Saramago - Os fatos são esses. É preciso levar em conta que nos anos 20 e 30 os pobres eram pobres e os ricos eram ricos e cada um ficava em seu lugar. Não havia interpenetração, e as pessoas pobres aceitavam sua situação. As coisas haviam sido assim desde sempre. Não direi que a gente se resignava; simplesmente aceitava esse fato.


EP - O retrato de seu pai não é muito complacente. Não o deixava nem ganhar no baralho...

Saramago - Não tive má intenção, a vida era assim: o homem da casa tinha razão em tudo e os outros eram satélites. Todos nos queríamos muito bem, embora não fôssemos uma família permanentemente feliz. Meu pai veio de uma aldeia e vestiu um uniforme da polícia. Isso mudou as coisas. O componente erótico do uniforme produzia em minha mãe ciúmes terríveis.


EP - Não seria esse pai policial um detonador do seu comunismo?

Saramago - Não creio. Quando chegava em casa, ficava de cuecas. O uniforme não foi um trauma. Inclusive devia sentir certo orgulho de sua autoridade. Levava o cassetete de um lado, a pistola do outro... certamente isso me encantava; pode ser até que me envaidecesse.


EP - O senhor foi um menino bastante solitário...

Saramago - Ensimesmado, triste. Mas isso não é ruim! Quando vejo os pais preocupados porque os filhos estão recolhidos em si mesmos, sempre lhes digo: "Deixe-os em paz, estão crescendo".

EP - Muitas lembranças denotam grande capacidade de observação. Acredita que o escritor já estava ali?

Saramago - Era um observador, mas não escrevia romances aos 6 anos. Fui bom estudante no primário e muito bom no primeiro do ginásio. Depois a coisa mudou e nunca fui muito aplicado, mas não perdi nenhum ano. Mais tarde comecei a estudar para serralheiro mecânico, mas no programa havia uma cadeira de literatura e aí o leitor começou a despertar.


EP - Não há espaço para a política no livro.

Saramago - Nessa época não se falava em política. Pelo menos em casa, não. Meu pai repetia a opinião dos que mandavam. E minha mãe era analfabeta. Não se discutia. Só se falava da família, do tempo, de onde estavam os chinelos e que a sopa tinha sal demais.


EP - "As Pequenas Memórias"... também quanto aos primeiros casos amorosos e sexuais...
Saramago -
Nada extraordinário, não é? Todos vivemos isso. A questão é contar ou não contar. Era tudo tão inocente que preferi contar em tom de humor. Se alguma dessas meninas ainda estiver viva, talvez se incomode... mas, enfim, era pecado venial.


EP - Os heróis da história são os avós.

Saramago - Estão idealizados, é verdade, mas é natural. Agora só há pais (com sorte dois), e os avós saberão onde estão, mas não se nota. Antes eram muito importantes. Assim, seu destino lógico era o esquecimento. Se não tivesse escrito um livro, não teria ficado rigorosamente nada deles. Só um nome no cartório. Me conforta muito ter feito isso, para que continuem tendo alguma forma de vida.


EP - No livro não se ouve música, apesar de que em Lisboa viveram na Mouraria, um bairro de fadistas.

Saramago - Não tínhamos rádio, por isso a trilha sonora era o palavreado que se ouvia quando três ou quatro mulheres cozinhavam ao mesmo tempo e os meninos estavam brincando e gritando.

EP - O que resta daquele menino?

Saramago - De alguma forma continuo sendo um camponês. Parece disparatado dizer isso, mas só eu posso saber o que tenho de camponês dentro de mim. Em grande parte continuo sendo aquele menino. Minhas raízes mais autênticas são essas. O passado está longe, mas nunca pude me separar dele.


O que está entre a infância, a adolescência e o que sou hoje não me marcou tanto. O caráter foi forjado naquele momento.


EP - O senhor tentou desmistificar o mito Saramago?

Saramago - É verdade que estou um pouco mitificado, apesar de não ter feito nada para isso. A idéia não foi essa. Talvez quisesse dizer: "Você conhece um homem que é isto e aquilo; pois esse homem vem daquilo, dessa infância tão pouco extraordinária". Tudo indicava que minha vida ficaria ali. Poderia ser serralheiro para sempre e não ir muito mais longe, mas por uma coisa ou outra... aos 17 anos soltei uma frase, num grupo de amigos, que aparentemente não tinha sentido: "O que tem de ser meu às minhas mãos chegará". Poderia significar que não valia a pena esforçar-se, mas me esforcei e...


EP - Onde estava o segredo?

Saramago - O momento decisivo foi em 1975. Eu havia me queimado muito na revolução, fiquei sem trabalho e decidi tentar ver aonde podia chegar como escritor. Tinha alguns livros, mas não uma obra. Se tivesse morrido em 1975 ficaria pouca coisa, com duas linhas na História da Literatura Portuguesa resolveriam meu caso. Em 86 conheci Pilar [del Rio, sua mulher e tradutora para o espanhol] e essa foi outra revolução em minha vida.


EP - E pouco depois foi receber o Nobel e falou de seus avós.

Saramago - Nem todos temos um avô que quando ia para Lisboa morrer passou antes por seu pomar para despedir-se de suas árvores. Se você esquece algo como isso, é um idiota. Se não se alimenta disso, está perdendo algo.


Eram tão carinhosos... Punham os porquinhos doentes na cama com eles, para que não morressem. Três ou quatro de uma vez, embaixo da mesma manta que eles usavam. Com esse passado, algo tinha que acontecer.


Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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Fonte: El País; 19/11/2006.
Disponible em:
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/elpais/2006/11/19/ult581u1882.jhtm