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Saramago volta à infância

"Não poderia dar uma visão idílica de tempos que não tinham nada de
idílicos", explica o escritor português, de 83 anos, a propósito de
sua infância. Ele acaba de escrever "As Pequenas Memórias"
Juan Cruz
José Saramago tem 83 anos e acaba de voltar à infância,
escrevendo "As Pequenas Memórias", que terminou em 15 de agosto em
sua casa em
Lanzarote. Conversamos com o prêmio Nobel português na biblioteca
que ele acaba de estrear. "Posso ter pensado que um dia teria o
Nobel, mas jamais me passou pela cabeça que teria uma biblioteca
como esta. Claro, é obra de Pilar." Pilar é Pilar del Río, sua
mulher, sua tradutora [para o espanhol]; já está trabalhando na
tradução de "As Pequenas Memórias".
A biblioteca é totalmente informatizada e está conectada à
Universidade de Granada e a outras instituições docentes e
literárias do mundo. Saramago já publicou mais de 40 livros; o
último foi "Intermitências da Morte". "As Pequenas Memórias" será
lançado em 16 de novembro por sua editora portuguesa, Caminho,
coincidindo com o aniversário do escritor, e será apresentada no
mesmo dia em sua cidade natal, Azinhaga. Na Espanha o livro será
publicado pela Alfaguara, como toda a sua obra.
El País - O que o senhor sente ao terminar um livro?
José Saramago -
Emoção. Às vezes lágrimas. Aconteceu com o "Ensaio sobre a
Cegueira", com "Intermitências da Morte". Quando você acaba, se
despede, entra numa espécie de vazio: e agora, o quê? Sempre.
EP - Aconteceu com este?
Saramago -
Aconteceu. É um livro de memórias de quando eu era pequeno; ia
chamar-se "O Livro das Tentações", mas me pareceu pretensioso, então
dei este título, que é idêntico a seu propósito: as pequenas
memórias. Permaneci sempre muito ligado ao menino que fui, e agora
me surpreendeu a quantidade de recordações que tinha daquela época.
O livro me fez sofrer um pouco. No final também houve alívio.
EP - Sofreu para escrevê-lo?
Saramago -
Porque algumas coisas que conto são dolorosas. Lembranças familiares
que não são agradáveis, que me afetaram negativamente; poderia
tê-las omitido, mas não poderia dar uma visão idílica de tempos que
não tinham nada de idílicos. Isso me causou dor. E às vezes me
bloqueou. Só me havia acontecido com o "Manual de Pintura e
Caligrafia".
EP - Dor na infância.
Saramago -
Coisas que um menino não deveria ter visto. Quando você ler saberá
de quê estou falando.
EP - Oitenta e três anos. O que o fez voltar a uma idade tão
remota?
Saramago -
É uma idéia que já estava há mais de 20 anos em minha cabeça. Agora
ou nunca. São 150 páginas. Não é literatura sobre o que eu vivi, mas
o que vivi. Se tivesse literaturizado a vida, teriam saído 500
páginas.
EP - Que efeito sentimental produz uma confissão assim?
Saramago -
Um adulto escreve memórias de adulto, talvez para dizer:
"Vejam como sou importante". Eu fiz memórias de criança e me senti
criança fazendo-as; queria que os leitores soubessem de onde saiu o
homem que sou. Por isso me concentrei em alguns anos, dos 4 aos 15.
EP - E de onde vem?
Saramago -
O livro tem uma epígrafe, que vem de um livro que inventei, "O Livro
dos Conselhos": "Deixe-se levar pela criança que você foi". Se eu
não tivesse vivido aquela infância não seria exatamente quem sou.
Alguns pontos significativos de minha forma de ser são daquele
menino.
EP - Escrever memórias rejuvenesce?
Saramago -
Talvez sim. A verdade é que escrevi como se estivesse vivendo
naquele momento.
EP - Dois Nobel, Grass e o senhor, escrevendo memórias.
Saramago -
As dele são diferentes.
EP - Qual foi sua reação ao que aconteceu com Grass?
Saramago -
Primeiro senti perplexidade. Nunca teria pensado que ele tivesse
estado nas Waffen-SS... e menos ainda que tivesse ido como
voluntário. E me surpreendeu a violência das reações. Ele tinha 17
anos. E o resto da vida, não conta? Parece-me uma reação hipócrita a
que houve, de muita gente que não deve consultar sua própria
consciência. Muita gente quer procurar pés de barro em
personalidades influentes. Lembram-me daquele que ia de cidade em
cidade seguindo um circo. Um dia lhe perguntaram: "Por que segue
tanto esse circo?" "Porque quero ver quando o trapezista cair e
morrer." E me parece indigna, infame, a insinuação de que Grass
agora diz isso por motivos promocionais de seu livro. Que juiz pode
dizer que alguma confissão chega tarde demais? A verdade é que ele
disse, aí está sua confissão.
EP - O senhor assinou uma declaração de notáveis sobre Cuba. Como
vê o futuro?
Saramago -
Observa-se menos tensão no exílio. E estamos percebendo sinais de
que começa a transição. Oxalá seja feita pelo povo cubano, sem
interferências, embora sempre caiba perguntar se os EUA vão se
limitar a assistir a essa transição.
EP - O povo cubano de dentro e de fora?
Saramago - Claro. Espero que haja negociação, diálogo, já não há lugar
para invasões nem para assassinatos, mas para que haja acordos
básicos que também contemplem as indubitáveis conquistas da
revolução: saúde, cultura, educação...
EP - Outro assunto de sua preocupação. O Oriente Médio explode.
Saramago -
Enquanto não se resolver o problema da Palestina, que tenha seu
Estado, não haverá paz ali. Israel produz uma ocupação militar da
Palestina, manda seus cidadãos para guetos. Não sai da minha memória
o que disse um intelectual judeu, Leibovitz, sobre o caráter
judeu-nazista de seu exército, das reações de seu exército; e não
sai da minha memória a dor que causa ver crianças das quais se
quebravam os ossos das mãos com martelos, durante a primeira
intifada. Quando digo que as vítimas, com as quais todos nos
solidarizamos, não podem agir como verdugos e chamo a atenção sobre
esse caráter da reação militar israelense, sempre ouço vozes - "lá
vem o Saramago de novo" -, mas o que digo é a verdade, tem a ver com
os fatos...
EP - O que fazer?
Saramago -
Oxalá os organismos internacionais compreendam de uma vez por todas:
enquanto isso não for resolvido, Israel sempre se sentirá ameaçado e
responderá com a agressividade que mostra seu exército, o mais
poderoso da região. Vi alguns sinais positivos ultimamente: a
possível aliança da Al Fatah com o Hamas para governar.
EP - O senhor não é um homem otimista.
Saramago -
Como se pode ser otimista quando se lê o jornal? O mundo é o lugar
do inferno; milhões nascem para sofrer, não importam nada a ninguém.
Não sou um pessimista, sou um otimista bem informado.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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Fonte: El País. Reproducido por Uol Mídia
Global, 26/08/2006.
Disponible em:http://www.acaopopularsocialista.org.br/entrevistas/36.htm
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