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Entrevista com
Philip Roth*
"A velhice é um massacre"
Volker Hage
O mais recente trabalho de Philip Roth chega às livrarias alemãs
este mês. Seu tema? Doença, mortalidade, morrer. Spiegel
falou com Roth sobre por que os escritores preferem o adultério à
doença e ao absurdo da morte.
Der Spiegel - Senhor Roth, seu novo livro, "Everyman" [O
Homem Comum] empresta o título de uma alegoria anônima do século 15.
O escritor austríaco Hugo von Hofmannsthal fez o mesmo, chamando de
"Jedermann" sua peça de 1912...
Philip Roth -... mas ele manteve a perspectiva cristã. E a
alegoria. E é didático. O meu não é didático. Não é alegórico.
Spiegel - Então por que o senhor aproveitou o título para seu
livro?
Roth - Ele não começou pelo título. No percurso eu tive
vários títulos. Somente no final lembrei-me dessa peça, que havia
lido na faculdade. Eu não a lia desde 1952, 54 anos atrás. Reli e
achei que era o título certo. Mas não estava pensando no drama
medieval quando escrevi meu livro.
Spiegel - O que o senhor pensava quando o começou? Aonde
queria chegar?
Roth - Contar a história da vida de um homem através de suas
doenças - através das ameaças físicas à sua vida. A linha da
narrativa seria ditada pela história de suas doenças. Eu pensei em
outros livros sobre doença. Você poderia imaginar que existem
muitos. Não existem. Há o famoso "A Montanha Mágica" de Thomas Mann,
há "A Morte de Ivan Ilyich" de Tolstói e o "Pavilhão de Cancerosos"
de Soljenitsin, que é um livro maravilhoso. Além desses, existem
muito poucos que eu conheça nos quais a doença é o tema central.
Spiegel - Uma observação interessante. O que o senhor acha
que seus colegas temem?
Roth - Por que existem mais livros sobre adultério do que
sobre enfisema, câncer e diabetes? Não sei, mas eu não diria que é
por medo. Suspeito que eu não seja o único escritor do mundo cuja
atenção se voltou para a doença. Nós sofremos muito mais doenças do
que as pessoas do século 15, porque hoje, de modo geral, as pessoas
são mantidas por muito tempo antes que uma doença finalmente as
mate. Hoje você pode ligar para seu amigo para perguntar se seu
tratamento de radiação terminou ou qual foi o resultado de sua
biópsia. Todos nós sabemos muito sobre assuntos médicos hoje em dia.
Isso também pode explicar como fui escrever este livro.
Spiegel - "Everyman" é bastante curto para um romance - como
seu livro anterior, "O Animal Agonizante". O senhor pensa em
escrever livros mais curtos no futuro?
Roth - Conforme minha energia declina, isso poderá acontecer.
Eu gostei de escrever "O Animal Agonizante". E quis tentar novamente
escrever um livro daquele tamanho. Você precisa ter uma história
cujo impacto seja imediato, para que seja curta.
Spiegel
- Mas "Everyman" começa lentamente.
Roth - Com o funeral. Então vem a infância e o início de sua
educação em mortalidade, começando por suas observações do menino no
leito de hospital ao lado do dele, que morre.
Spiegel - Mas embora o livro comece com seu funeral o leitor
passa grande parte do livro esperando que o herói não morra. O
senhor considera o fato de ele não sofrer como uma espécie de final
feliz?
Roth - O que é para mim não está aqui nem ali. Eu não
experimento dor ou felicidade por causa do destino do personagem. O
que eu tenho de experimentar é a sensação da inevitabilidade daquele
destino. Eu quero que o leitor saiba desde o início que esse homem
está morto, quem são as pessoas no seu enterro e o que elas dizem
sobre ele. Quando isso está definido, dou vida na história a suas
crises físicas e a sua catástrofe final.
Spiegel - Por que o herói não tem nome?
Roth - Isso foi um acaso, para começar. Eu não percebi que
não lhe havia dado um nome até que me sentei para ler o primeiro
rascunho. Então decidi deixar assim. Que ele fosse definido por suas
relações com os outros, com seu pai e sua mãe, seu irmão, suas
mulheres, sua filha. Todos podemos nos sentir definidos por nossos
nomes, mas na verdade o que nos define é nossa relação com a rede de
pessoas que conhecemos. É isso que somos.
Spiegel - E sobre o enterro no início? Ele reflete algum em
que o senhor esteve recentemente?
Roth - Eu perdi cerca de três ou quatro amigos no período de
um ano. Seu amigo adoece, morre e então você vai ao enterro. Saul
Bellow foi o último, e era a pessoa mais próxima de mim. Tenho
olhado para dentro de tantos túmulos ultimamente, que pensei, bem,
está na hora de escrever sobre isso.
Spiegel - O senhor começou a escrever no dia em que Saul
Bellow foi enterrado. Como foi o enterro dele?
Roth - Havia provavelmente 120 pessoas em um pequeno
cemitério numa cidade pequena de Vermont. Foi muito forte para
todos. A grandeza desse homem acrescentava outra dimensão a nossas
reações. Um grande homem havia morrido. Existem muito poucos grandes
entre nós. Isso acrescenta um certo viés à dor.
Spiegel - Talvez se possa supor que a sentença mais citada do
seu livro será - se já não for: "A velhice não é uma batalha, é um
massacre".
Roth - Eu estava assistindo ao noticiário da televisão sobre
as inundações em Nova Orleans enquanto eles estavam evacuando as
casas de velhos - e disse em voz alta para a pessoa que estava
comigo: "A velhice é um massacre". Parecia que estavam retirando
pessoas de um campo de batalha.
Spiegel - Esse pensamento, e o tema, tornaram esse livro mais
difícil de escrever do que os anteriores?
Roth - Não. Só foi difícil na medida em que escrever qualquer
livro é difícil. Não foi difícil por causa do assunto. Foi difícil
porque tive de imaginar como fazê-lo, mas essa é a dificuldade
comum. O tema não causou dificuldades especiais.
Spiegel
- Mas poderá causar para os leitores. O senhor escreve que nada
ajuda alguém a chegar a um compromisso com o conhecimento "de que
você nasceu para viver e, em vez disso, morre".
Roth - Não, nada ajuda. As pessoas fazem o possível para
afastar esse conhecimento. Há os que têm o consolo de uma religião
que promete que eles não morrerão. Eu não vejo como podem acreditar
nisso, mas as pessoas podem acreditar em todo tipo de coisa das
quais não há absolutamente qualquer evidência. A maioria dos meus
amigos mais velhos diz mais ou menos o que eu digo, que pensa menos
na morte hoje do que pensava quando era adolescente. A primeira
descoberta foi muito chocante. A morte parecia tão injusta. É assim
que você pensa quando tem 14 anos - que é tão injusta e ridícula. Eu
acho que quanto mais a morte se aproxima mais as pessoas tentam
simplesmente não pensar nela. Mas há aqueles que são perseguidos por
ela. Lembro-me do poeta Robert Lowell, que era 22 anos mais velho
que eu. E ele me disse que depois dos 50 anos não se passa um dia
sem que a morte entre em sua cabeça.
Spiegel - Mas essa não foi sua experiência?
Roth - Não. Eu só penso nela dia sim, dia não. Mas nesta
idade, mesmo que você não pense, é lembrado dela por causa do
desaparecimento de seus velhos amigos e todas as visitas a hospitais
que você faz aos doentes e agonizantes. Um amigo está em radiação,
outro está em quimioterapia. É quase um acontecimento semanal alguém
ter um melanoma removido. Não era assim quando éramos jovens. Lembro
de meus pais falando sobre seus amigos que estavam doentes ou
morrendo, e apesar de eu já ter meus 40 anos na época não
compreendia. Acho que deve haver alguma salvaguarda biológica
embutida aí que não permite que as pessoas abaixo de certa idade
realmente entendam que a morte acontece o tempo todo e supera tudo.
Mesmo quando meus pais estavam perdendo alguns de seus melhores
amigos, eu escutava. Mas não entendia tudo o que eles estavam
perdendo. Hoje entendo.
*Philip Roth, 73, é um dos melhores autores americanos
contemporâneos. Nascido em Newark, Nova Jersey, suas obras mais
famosas incluem "O Complexo de Portnoy", que foi publicado em 1969,
e seus trabalhos mais recentes "Casei com um Comunista" (1998) e "A
Marca Humana" (2000). Ele ganhou o Prêmio Pulitzer por seu romance
de 1997 "Pastoral Americana". Seu livro mais recente, "Everyman",
examina de perto a doença e a morte e foi publicado nos EUA em
abril.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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Fonte: Uol online, 26/08/2006
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