Entrevista com Kofi Annan, secretário-geral da ONU

"Temos um pouco de inveja da Fifa"

O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, 68, fala sobre a Copa do Mundo de futebol, as dificuldades de trabalhar com Washington e as lições da guerra do Iraque.

Stefan Aust, Hans Hoyng e Georg Mascolo

Kofi Annan - Se não somos tão unidos quanto deveríamos ser, é porque é um reflexo do mundo em que vivemos. Por isso foi tão excitante estar em Berlim durante a Copa do Mundo. Aquela pequena bola uniu o mundo inteiro.

Por isso temos um pouco de inveja da Fifa, e não somente porque eles têm 207 membros e nós 192, mas porque todo o mundo presta atenção nela. Eu gostaria que o mundo tivesse esse mesmo tipo de competição quando se trata de combater as doenças infantis, a Aids e a pobreza, quando se trata de direitos humanos e competir para ver qual país tem o melhor histórico em direitos humanos. Seria uma grande competição.

Spiegel - O número de concorrentes provavelmente seria limitado.

Annan -Existem divisões. A guerra no Iraque introduziu divisões profundas. Elas estão cicatrizando, mas ainda não estão curadas. Mas conseguimos nos unir às vezes, quando é necessário. Por exemplo, todos concordamos sobre o que deve ser feito em Darfur e estamos trabalhando para isso. Todos concordamos que devemos combater a pobreza, que devemos combater o HIV/Aids. Todos concordamos que devemos lutar por melhores direitos humanos, mas diferentes países interpretam isso diferentemente e abordam isso diferentemente. Mas não é ruim ter um ideal, ter modelos pelos quais se pode medir o desempenho que todos almejamos. Sempre começa com um sonho.

Spiegel - Enquanto isso, a Copa do Mundo terminou mas seus problemas continuam. Não está ficando cada vez mais difícil alcançar um consenso?

Annan -É difícil. Às vezes é difícil conseguir acordos generalizados. Mas é preciso perseverar. Quando as pessoas dizem: "O secretário é como o executivo-chefe de uma empresa", eu gostaria de ver um executivo administrar sua companhia com um conselho de diretores de 192 e ter de fazer as coisas com eficácia. Temos de enfrentar problemas através de fronteiras e lidar com conflitos entre nações ou dentro delas - desde as armas de destruição em massa ao terrorismo. É claro, dependendo de onde você esteja, seu sentido de ameaça é muito diferente. É por isso que fiquei feliz quando o painel de alto nível que montei encontrou uma definição muito mais ampla das ameaças existentes hoje. Porque normalmente quando você fala de ameaças fala de guerras - guerras civis ou entre países. Os países-membros aceitaram que as ameaças têm de ser vistas em um contexto muito mais amplo, e isso inclui degradação ambiental, pobreza, doenças infecciosas, armas de destruição em massa, terrorismo e crime organizado internacional. E existem as ameaças da sociedade moderna.

Spiegel - Qual é a maior ameaça?

Annan -Dependendo de onde você vive, sua ameaça é muito diferente da de outra pessoa. Se você perguntar a um nova-iorquino hoje, devido à maneira como a imprensa coloca, ele dirá que o terrorismo é seu maior medo. Mas para alguém que vive em um pequeno país-ilha, é a mudança climática, ou a elevação do nível do mar, porque sua ilha inteira pode ser arrasada. Se eu for ao sul da África, eles me dirão que é a Aids e em algum lugar da Ásia é a pobreza. Também é por isso que você encontrará dificuldade para chegar a acordos, porque se você quer que alguém se preocupe com a sua ameaça você precisa se preocupar com a dele.

Spiegel - O que o torna tão confiante em que a ONU está melhor equipada para enfrentar problemas como a Aids do que desafios mais tradicionais como a disputa sobre o programa nuclear do Irã?

Annan -Em primeiro lugar, não reivindicamos o monopólio da solução de todos os conflitos. Há conflitos que às vezes podem ser melhor administrados por uma organização regional ou por vizinhos. Mas existem muitas questões que só podem ser tratadas pela ONU. A Aids, por exemplo, tornou-se muito mais que uma questão de saúde. A Aids é um problema de desenvolvimento, um problema de segurança. Em alguns países, está matando a força policial, os militares, médicos, enfermeiros e professores. Então você tem uma situação em que ela não está apenas destruindo o presente, também está levando embora o futuro. Ao nos envolvermos na luta e criarmos um Fundo Global de Combate à Aids, malária e tuberculose - que angariou US$ 5 bilhões para combater as doenças -, estamos fazendo uma diferença. Mas não devemos esquecer nossa missão principal de paz e segurança.

Spiegel - O senhor está igualmente confiante em que a Agência Internacional de Energia Atômica [AIEA] e a ONU podem ajudar a encontrar uma solução pacífica para a disputa sobre o programa nuclear iraniano?

Annan -Em minhas discussões com os iranianos, eu lhes disse isto: se suas intenções são pacíficas, vocês não devem ter problemas em trabalhar aberta e profissionalmente com a AIEA e levantar esta nuvem de incerteza que cerca seu programa e suas intenções. Eles deveriam permitir que os inspetores da AIEA entrassem lá e fizessem seu trabalho. E é preciso lembrar que a agência técnica, a AIEA, também faz parte da ONU. Por isso a organização maior - a AIEA, o Conselho de Segurança e eu - estamos trabalhando juntos para tentar resolver essa questão.

Spiegel - O senhor se encontrou recentemente com o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad. Viu algum sinal de que eles vão concordar com a proposta apresentada pelos europeus e os EUA?

Annan -Eu disse a eles: vocês devem dar um claro sinal de que a proposta sobre a mesa é justa e construtiva, uma base sólida para negociações e a solução do conflito. Sim, eles afirmam que precisam de alguns esclarecimentos. Mas está bem. Eu ficaria contente se eles enviassem esse sinal.

Spiegel - Então o senhor acha que é uma oferta justa?

Annan -É muito melhor do que a que estava na mesa antes. Eu acho que é uma boa base, e eles mesmos a descreveram como um "passo positivo" e "construtivo". Quero que eles ajam sobre essa base. É claro que só posso aconselhar, e não ditar ordens. Eu sei que [o Irã] é um país antigo e orgulhoso, mas espero que eles escutem o conselho que está sendo oferecido.

Spiegel - O senhor está satisfeito com o nível de pressão que a ONU pode exercer para promover uma solução?

Annan -Neste contexto, quando falamos sobre a ONU, no que estamos realmente falando? Estamos falando do meu país, do seu país e de outros países e de sua vontade coletiva de manter-se unidos e de pressionar ou oferecer incentivos para encaminhar as coisas na direção certa. Quando os países do mundo se unem, com vontade coletiva, sobre uma questão e falam com uma voz unida, têm um impacto muito maior. Quando há divisão, o impacto é muito menor.

Spiegel - Vamos voltar ao futebol. O senhor tem o estádio, mas cada país é um time jogando conforme suas próprias regras.

Annan -Eu tento fazê-los se unir e trabalhar juntos.

Spiegel - O secretário-geral é o árbitro principal?

Annan -Ele é uma espécie de árbitro, mas sem cartões amarelos e vermelhos. Ele não pode levantá-los, mas pode levantar sua voz moral.

Spiegel - Isso é, no máximo, um cartão amarelo.

Annan -Você tem razão. Um Conselho de Segurança unido seria um cartão vermelho.

Spiegel - O maior time, os EUA, gosta de jogar por suas próprias regras.

Annan -Existe uma certa tendência de parte de alguns americanos a tratar a ONU como um multilateralismo "à la carte", onde você escolhe o que interessa e quando não interessa você recusa. No Iraque, eles querem que trabalhemos estreitamente com os iraquianos e lideremos um compacto internacional para a reforma econômica. Eles estão com a ONU sobre o Irã e estão trabalhando estreitamente conosco porque não têm para onde ir. Não é possível formar uma coalizão dos dispostos.

Spiegel - Os americanos mudaram seu comportamento em conseqüência dos problemas no Iraque?
Annan -
Houve uma lição muito importante que todos aprenderam no Iraque. Os futuros governos americanos serão muito mais hesitantes em embarcar numa ação militar. Também tornará o Congresso muito mais relutante em aprovar a ação militar e muito mais exigente de justificativas e razões para ir à guerra.

Spiegel - Parece que cada geração americana da história recente teve de passar pela experiência de perder uma guerra.

Annan -Sim, e é um pouco triste colocar dessa maneira. Devemos aprender com a história. Francamente, é quase impossível ter um senso de visão sem um senso de história. Se a história for aprendida, não precisa repetir-se ao longo de gerações.

Spiegel - A grande maioria dos países acredita que o Conselho de Segurança precisa ser reformado, mas os esforços iniciais para produzir reformas falharam. A Alemanha ainda terá um assento permanente no Conselho de Segurança num futuro previsível?

Annan -Eu sabia que você faria essa pergunta. Em meu relatório ao Conselho de Segurança, lhes dei duas opções. Uma é criar seis assentos permanentes opcionais ou seis não-permanentes. Não indiquei quem deveria ocupá-los, mas com o debate ficou claro que o G4 (Alemanha, Japão, Brasil e Índia) se uniram e esperavam que os africanos também se unissem, mas os africanos não conseguiram decidir que dois países entrariam e receberiam os assentos. Havia dois blocos, os que se chamam de "Unidos para o Consenso", que não querem assentos permanentes, e o G4, que quer assentos permanentes.

Spiegel - Então a decisão está sendo adiada indefinidamente?

Annan -Se eles conseguissem chegar a um compromisso, reuniriam uma grande maioria dos membros ao seu redor e haveria uma reforma do Conselho de Segurança em um período relativamente curto. Mas se os dois mantiverem sua posição poderá ser difícil. Recentemente num almoço eu disse a 30 embaixadores que eles tinham uma opção sobre o que fazer sobre a percepção de desequilíbrio de poder na organização. Ou eles decidem que vão tentar um compromisso, que nos levará à mesa para expandir o conselho, e depois buscar a solução perfeita; ou eles decidem buscar a solução perfeita e ficar fora do conselho até encontrá-la. Mas eles não vão encontrar essa solução por muito tempo. Se tentarem um compromisso, teremos a reforma do Conselho de Segurança.

Spiegel - O senhor está confiante que a Alemanha receberá um lugar?

Annan -Sim, eu acredito que a Alemanha receberá um lugar.

Spiegel - Apesar das experiências de Ruanda e Srebrenica, o genocídio parece estar ocorrendo novamente, desta vez em Darfur. Por que a ONU deve reagir com uma ineficiência tão incrível?

Annan -Você também pode acrescentar a Somália a essa lista, onde tivemos uma força enorme que mais tarde recuou. Desde então nenhum grupo internacional quis entrar e nenhum país esteve disposto a colocar tropas na Somália. Ainda assim, tememos que se permitirmos que os países se tornem Estados falidos, como aconteceu no Afeganistão, os terroristas poderão tomá-los. Em Darfur, o mundo inteiro está consciente do que está acontecendo. Ao contrário de Srebrenica ou Ruanda, onde alguns disseram que não sabiam do que estava acontecendo, aqui o mundo está assistindo. A comunidade internacional quer fazer alguma coisa. Eu pedi ao presidente do Sudão, Omar al-Bashir, para permitir que a força da ONU seja enviada. Para ser eficazes precisamos do apoio do governo sudanês, mas isso não está acontecendo. Os sudaneses desenvolveram suspeitas sobre essa nova mobilização, suspeitam que sejam um cavalo de Tróia. Eles temem que as grandes potências tenham planos de se esconder atrás da ONU e ficar para sempre. Estamos trabalhando duro com os sudaneses para fazê-los concordar e entender que estamos indo para ajudá-los.

Spiegel - Não daria certo sem o consentimento deles?

Annan -A maioria dos governos só quer enviar uma força de paz aonde existe um acordo de paz e existe paz para manter. Eles estão muito hesitantes em colocar seus homens e mulheres no caminho do mal. É extremamente difícil conseguir tropas se você não tiver o consentimento do país para onde vai enviá-las.

Spiegel - Mas depois de receber esse consentimento o senhor toma medidas para garantir que não possam ser retiradas rápido demais? O senhor aparentemente pretende manter as tropas européias no Congo por mais tempo do que só até o Natal.

Annan -A operação da Eufor (Força da União Européia) no Congo é um grande acréscimo a nossas operações no país. Ela ajudará a dar estabilidade nos preparativos para as eleições. Isso mostra a solidariedade de um compromisso da Alemanha e da Europa com as operações na África. A força tem compromisso de um tempo fixo, mas o importante é que mesmo depois que a Eufor saia a comunidade internacional continue engajada. A construção de paz é um projeto de médio e longo prazo.

Spiegel - O senhor às vezes gostaria de ter seu próprio exército?

Annan -Seria ideal, mas ninguém quer pagar por ele. Levanta muitas questões legais e não tenho certeza se muitos dos Meninos Grandes iam querer ter um exército razoavelmente independente à disposição da ONU, e alguns países menores também poderiam ficar nervosos. Eles iam querer ter o controle. De certa maneira seria ótimo. O modo como somos obrigados a operar agora é como dizer ao prefeito de Berlim: sabemos que o senhor precisa de um corpo de bombeiros, mas não se preocupe, vamos organizar um quando começar o incêndio.

Spiegel - Senhor secretário-geral, agradecemos pela entrevista.
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Fonte: Der Spiegel, reproduzido pelo Uol Mídia Global, 20/07/2006.
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/derspiegel/2006/07/20/ult2682u168.jhtm