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Denise Coitinho*
Bruno Spada/UnB Agência
Por Carolina Valadares**
O mundo moderno é contraditório. Em países, usualmente, pobres, há a fome e a desnutrição. Nos mais ricos, a obesidade cresce a cada ano. Os dois problemas são frutos da falta de investimento e de políticas públicas nacionais e internacionais na área de Nutrição. Para colocar em prática algumas diretrizes na área, a Organização Mundial de Saúde (OMS) traçou em 2002 a Estratégia Global de Alimentação Saudável e Atividade Física – um documento de orientações e recomendações para ações, programas e políticas a serem adaptadas à realidade dos diferentes países e integradas as suas políticas nacionais de saúde, agricultura, desenvolvimento social.
A professora da Universidade de Brasília (UnB), Denise Coitinho, ocupa uma posição privilegiada como diretora do Departamento de Nutrição para Saúde e Desenvolvimento da Organização Mundial da Saúde (OMS), desde julho de 2004 em Genebra, na Suíça. Depois de quase dois anos atuando na organização, ela tem um panorama mundial das questões nutricionais e diz que o Brasil tem boas políticas públicas em Nutrição: “Nosso país tem um trabalho muito avançado em relação aos demais”, elogia. Outras nações, no entanto, ainda têm muito a melhorar. “Falta investimento nessa área e os recursos humanos especializados ainda são poucos, principalmente, em países africanos”, avalia Denise.
Para mudar essa situação de contraste entre obesidade e desnutrição, a especialista afirma que ainda é preciso fazer um cálculo complexo junto ao Banco Mundial. A OMS já se mobilizou para isso. Hoje em dia, já se sabe que apenas 1,8% do total de recursos da assistência externa para o desenvolvimento da saúde são alocados em Nutrição. Esse percentual não inclui as doações, mas auxílio de países europeus, por exemplo, destinados a africanos. Do total de recursos que o Banco Mundial aplica em assistência a países em desenvolvimento, apenas 0,7% é para segurança alimentar e nutrição.
A nutricionista chegou na sede da organização mundial e reorganizou o departamento, redefiniu focos de ação e fortaleceu o relacionamento da OMS com os escritórios regionais, desenvolveu a área de Nutrição relacionada a Aids e a área de obesidade infantil e intervenções nas escolas infantis.
Uma de suas principais ações também foi terminar o trabalho já iniciado na gestão anterior das curvas de crescimento infantil internacional. Antes disso, países utilizam um padrão americano, que não era fiel à realidade. O novo padrão foi feito com base em dados de seis regiões do mundo e leva em conta as condições ideais de saúde (vacinas, aleitamento materno, alimentação equilibrada depois de seis meses de idade). Com base nesses parâmetros, é possível verificar o quanto uma criança têm o direito a crescer.
Confira a seguir a entrevista que a UnB Agência realizou com a nutricionista por telefone, de Genebra: UnB AGÊNCIA - Quais as principais urgências mundiais em relação à Nutrição? DENISE – A maior urgência mundial é a dupla carga dos problemas nutricionais. A convivência das carências nutricionais com o crescente problema da obesidade em países pobres. Já nos países ricos, a obesidade é o principal problema a ser solucionado.
UnB AGÊNCIA - O que diferencia as políticas de combate à obesidade das políticas de combate à desnutrição? DENISE – É menos diferente do que parece à primeira vista. Na verdade, é preciso achar soluções comuns para os dois problemas tais como investir mais no aleitamento materno, em uma alimentação adequada após seis meses de idade, na promoção da alimentação saudável e no controle do ambiente obesogênico – constituído por alimentos ricos em calorias e pobres em nutrientes. Assim, as políticas de nutrição de saúde pública protegem contra a obesidade, como da desnutrição.
Hoje em dia, já se sabe que apenas 1,8% do total de recursos da assistência externa para o desenvolvimento da saúde são alocados em Nutrição.
UnB AGÊNCIA - É utopia pensar que esse equilíbrio pode ser alcançado? O que a OMS está tentando fazer para solucionar esse problema? DENISE – Pode ser alcançado. Não é utopia, mas é preciso muita determinação política e investimento. A Nutrição tem de ter um financiamento sustentável dentro dos planos de desenvolvimento econômico e social dos países. A função da OMS é definir recomendações internacionais e desenvolver ferramentas, diretrizes, treinamento na área normativa de alimentação. A agência também dá apoio técnico para verificar a situação dos países e identificar as melhores soluções para os problemas, além de apoiá-los na implementação da parte normativa, em parceria com outras agências internacionais como o Fundo das Nações Unidas (Unicef) e a Food and Agriculture Organization (FAO).
Bruno Spada/UnB Agência
UnB AGÊNCIA - Quais as falhas que a senhora identifica em relação às políticas públicas dos países? E do Brasil? Há algum modelo a ser aplicado? DENISE – O que existe é uma baixa prioridade em Nutrição. Há países que sequer possuem áreas de nutrição em seus ministérios da Saúde. Há países que pensam que a Nutrição ainda é um problema de pobreza, de agricultura e pouco entendem sobre o papel da Nutrição – que é um determinante da saúde, tanto na promoção e prevenção, quanto também no tratamento de doenças, como a desnutrição. O Brasil é um dos países que têm um trabalho muito avançado em relação aos demais. Por exemplo, aí já foi feito um protocolo de tratamento da desnutrição infantil, outros países não fizeram. Esses países que não têm ações tratam as doenças associadas à desnutrição e não ela em si. Os recursos humanos brasileiros também são bastante desenvolvidos e as políticas públicas dão ênfase para combater a obesidade e a desnutrição.
UnB AGÊNCIA – Quais as mudanças identificadas nesses dois anos de Estratégia Global de Alimentação Saudável e Atividade Física? DENISE – No final de maio, haverá a Assembléia Mundial da Saúde, quando se reunirão as delegações mais altas dos países. Será um grande momento, onde cada um irá apresentar suas ações. Em dois anos de estratégia, o que ainda é pouco, percebemos que muita coisa avançou. Principalmente, em relação às iniciativas voltadas para crianças, na área de combate à obesidade infantil, intervenções escolares e em relação à legislação de marketing.
UnB AGÊNCIA - A OMS estabelece diretrizes mundiais de saúde, entre elas, a de Nutrição. Como vocês chegam a essas diretrizes, se hábitos alimentares são influenciados pela cultura de cada lugar? DENISE – As diretrizes são básicas e precisam ser adaptadas pelos países. Damos apenas orientações alimentares para que o país chegue a sua própria pirâmide alimentar e aos parâmetros para que cada país desenvolva os seus 10 passos da alimentação saudável.
UnB AGÊNCIA - A senhora acredita que as medidas de doações de alimentos são realmente eficientes no combate à fome? O que é preciso fazer? DENISE – A ajuda alimentar externa é inquestionável. O meu departamento tem uma área que cuida apenas de questões emergenciais. Muitas vezes, o doador dá o que ele tem e estamos fazendo um trabalho junto a eles para que possam oferecer uma cesta mais equilibrada. Isto é um desafio. A segunda coisa que estamos fazendo é cuidar da transição entre o período de emergência e a fase de reconstrução de um país. É uma questão muito delicada, pois o país deve desenvolver gradualmente sua agricultura e, aos poucos, a ajuda deve ser retirada. Só assim é possível que a economia desse país se desenvolva.
A produção é mais do que eficiente, mas não se trata de redistribuir e sim de trabalhar a segurança alimentar sustentável a partir da economia local e da agricultura
UnB AGÊNCIA – Ainda que todos os países ajudassem aqueles que sofrem com a desnutrição, a fome acabaria? DENISE – Não é exatamente por esse caminho. Essa é uma discussão muito complexa. As estimativas da FAO dizem que o problema está na distribuição global, mas mexer só nessa parte não solucionaria o problema. A produção é mais do que eficiente, mas não se trata de redistribuir e sim de trabalhar a segurança alimentar sustentável a partir da economia local e da agricultura. A ajuda externa é uma solução emergencial e não funciona a longo prazo. Os subsídios agrícolas são também um problema, pois países em desenvolvimento não conseguem ser tão competitivos, quando aqueles desenvolvidos que têm subsídios. Isso faz com que eles não tenham acesso ao mercado.
UnB AGÊNCIA – Em relação às propagandas feitas pela indústria alimentícia, o que está sendo feito pela OMS? DENISE – A OMS traçou há dois anos a Estratégia Global de Alimentação Saudável e Atividade Física. Nesse documento, foi pedido que os países olhassem com mais atenção para as propagandas, principalmente, em relação àquelas feitas para atingir as crianças. A OMS tem identificado várias experiências interessantes pelo mundo, mas cada modelo deve ser escolhido localmente. Em maio, será realizada uma reunião com os países para analisar as ações que estão sendo realizadas. No Brasil, a Anvisa já iniciou essa discussão.
*Denise Coitinho é doutora em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Nutrição Humana pela London School Of Hygiene And Tropical Medicine, na Grã Bretanha. Entre 1990 e 2003, trabalhou no Ministério da Saúde em diversas áreas ligadas à Nutrição, como Aleitamento Materno e na Secretaria de Políticas Públicas de Saúde. Em Moçambique, também ocupou a chefia da divisão de Nutrição do Ministério da Saúde, entre 1985 e 1987. Entre 1998 e 2003, trabalhou como professora na UnB e, desde 2004, é diretora de Nutrição na OMS.
**Editora de Pauta da Assessoria de Comunicação ____________________________________________
Fonte: ACS-Assesoria de Comunicação - http://www.unb.br/acs/entrevistas/tv0306-05.htm
Leia também:
Alimentação saudável e a posição do Brasil
Denise Coitinho
A Organização Mundial da Saúde (OMS) vem, em sucessivos informes anuais sobre a situação mundial da saúde, alertando países e seus governantes sobre a extrema gravidade da escalada mundial das doenças crônicas incluindo, em particular, aquelas associada à alimentação inadequada e à inatividade física, como a obesidade, hipertensão, doenças cardiovasculares e diabetes. Por mais paradoxal que possa parecer, a velocidade de crescimento dessas doenças tende a ser ainda maior nos países em desenvolvimento e, dentro desses, entre os setores mais pobres de suas populações, indicando que essas doenças, tanto quanto a fome, desnutrição e carências nutricionais, são expressões de insegurança alimentar.
No Brasil, como em grande parte dos países, a alimentação cotidiana cada vez mais se baseia no consumo excessivo de alimentos muito calóricos, ricos em açúcares, gorduras, sal e aditivos e, também, pobres em vitaminas, sais minerais e fibras. O consumo de legumes, verduras e frutas é cada vez menor.
Procurando conter essa verdadeira epidemia, a OMS iniciou, em 2002, um longo e cuidadoso processo de construção de uma Estratégia Mundial para Alimentação Saudável, Atividade Física e Saúde. O objetivo foi estabelecer um conjunto equilibrado de orientações e recomendações para ações, programas e políticas a serem adaptadas à realidade dos diferentes países e integradas as suas políticas nacionais de saúde, agricultura, desenvolvimento social. Além de recomendar ações que aumentem o conhecimento dos indivíduos sobre quais seriam as escolhas alimentares mais saudáveis, a Estratégia Mundial prevê que essas ações sejam associadas a outras, de caráter regulatório, fiscal e legislativo, para conferir a elas um caráter factível.
Entende-se, por exemplo, que não basta que os consumidores sejam informados sobre as vantagens nutricionais das frutas e verduras, é preciso que as mesmas estejam acessíveis a todos, o que requer políticas agrícolas e fiscais. Não basta que crianças e adolescentes sejam constantemente informados por seus pais e professores sobre o perigo do consumo abusivo de refrigerantes, balinhas e outros produtos com quantidade excessiva de açúcar. É importante que os países discutam e estabeleçam os parâmetros e os limites que desejam para as propagandas de tais alimentos, de forma que todo o esforço educativo das famílias não seja neutralizado pelo apelo comercial.
Para a construção desse conjunto de orientações, foram envolvidos não apenas a comunidade científica internacional, mas também diferentes instâncias da sociedade civil, do setor produtivo e demais agências internacionais. Partiu-se de um levantamento minucioso e atualizado das evidências científicas que relacionam alimentação, atividade física e saúde e de um diagnóstico amplo da natureza complexa e multicausal dos fatores responsáveis pelo aumento das doenças crônicas não transmissíveis.
Até o início deste ano, o Brasil atuou de forma intensa e propositiva em todas as etapas que redundaram na elaboração da Estratégia Global, podendo considerar-se protagonista de sua construção. Observa-se uma grande sintonia entre a Política Nacional de Alimentação e Nutrição do Ministério da Saúde e a Estratégia Global da OMS. Além disso, essa Estratégia Mundial poderá ser um poderoso aliado do Programa Fome Zero que considera que a fome não é apenas de calorias, mas de uma alimentação saudável, balanceada e que combata concomitantemente as carências nutricionais e as doenças crônicas associadas à alimentação.
Foi com grande estranheza que a comunidade científica das áreas de saúde e nutrição no Brasil receberam, recentemente, a primeira manifestação do governo brasileiro junto à OMS sobre o assunto e que afirma que “ainda existem controvérsias sobre a composição ideal da dieta...” requerendo “....um debate médico e científico mais amplo e profundo.” O mesmo comunicado oficial diz ainda que “...os impactos econômicos e comerciais da Estratégia ainda não foram suficientemente aferidos”.
Talvez, como fica subentendido nesse primeiro posicionamento oficial, ações mais contundentes para promover a alimentação saudável para toda a população possam requerer, no médio e longo prazo, mudanças e adaptações de alguns setores econômicos. Ainda assim, como no caso do combate ao tabagismo, é de crer que a sociedade brasileira não deseje que interesses econômicos tenham precedência sobre a saúde e o bem-estar da população.
A discussão e a aprovação final desta Estratégia pelos países membros da OMS ocorrerão em maio, na Assembléia Mundial da Saúde. Até lá, espera-se que os diferentes setores do Governo Brasileiro, principalmente, saúde, agricultura e relações exteriores, reúnam-se e amadureçam, em conjunto, a posição final a ser defendida pelo país, e que esta seja pelo engajamento inequívoco e pró-ativo do Brasil a este esforço mundial.
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