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Falsa crise da Previdência
Por
Raphael
Ferreira
A crise da Previdência, supostamente resultante de um
processo histórico de falência, envolvendo envelhecimento da
população, baixa taxa de natalidade, elevação do salário mínimo e
aposentadoria precoce – dentre outros fatores – acaba de ser
desmistificada pela professora Denise Gentil, do Instituto de
Economia da UFRJ, como sendo nada mais que um meio de manipulação
estatística do governo federal em prol de interesses econômicos que
nada têm a ver com seguridade social.
Em sua tese de doutorado, Denise mostra que os próprios dados
oficiais divulgados no site do Ministério da Previdência Social
provam uma considerável distorção entre o que é divulgado à
população e o que realmente pode ser constatado por especialistas em
relação ao financiamento previdenciário. “Existem interesses
econômicos poderosos empenhados em propagar a idéia de que há um
déficit na Previdência que, concretamente, não existe. E não sou só
eu quem diz isso, a maior parte das pessoas que defendem a
manutenção de
uma Previdência pública comprovam facilmente que há
distorções”, afirma a professora.
A discrepância está na forma de calcular o financiamento da
Previdência. Segundo Denise, a somatória de recursos apontada como
“saldo previdenciário” não inclui todas as receitas que contribuem
para a totalidade do financiamento: “O saldo previdenciário é
apresentado como negativo, pois levanta apenas as receitas de
contribuição ao INSS do empregador e dos trabalhadores. O verdadeiro
resultado final da Previdência social envolve receitas que não foram
consideradas, como as de CPMF, CSLL e COFINS. Se calculadas todas as
fontes de financiamento, percebe-se que há um saldo positivo de R$
8,2 bilhões na Previdência”.
Em sua tese, a professora mostra uma relação entre a existência
desse saldo positivo e o seu uso pela política econômica neoliberal
de manutenção de superávits primários, adotada pelas correntes
ortodoxas de gestão que ocupam o Banco Central. “Recursos da
Previdência estão sendo retirados para serem aplicados no
orçamento da União, que está legalmente autorizada a retirar 20% dos
impostos e das contribuições da seguridade social para aplicar
livremente em qualquer tipo de despesas. Não é difícil perceber que
esse discurso de falência faz parte de uma retórica que pretende
destinar uma fatia cada vez maior do orçamento público para fora da
seguridade social”.
Todos os grandes proprietários de títulos públicos do governo seriam
os beneficiários diretos desse falso déficit artificial, favorecidos
pela política de juros altos e por sua grande influência no Banco
Central. O processo de execração da Previdência pública faria parte
do interesse desse grupo em privatizá-la, liberando recursos
públicos que hoje estão vinculados a gastos sociais. Com uma
Previdência privatizada, todos os trabalhadores rurais e os cerca de
40 milhões de trabalhadores informais seriam excluídos, em um
processo que a professora classificou como uma verdadeira “luta de
classes”.
Mesmo tendo o nível de renda da classe trabalhadora caído nos
últimos anos, as receitas da Previdência não se mostram
deficitárias, segundo os cálculos de Denise: “Pode ser que em outros
países do mundo seja, por terem apenas como base o desconto na folha
de pagamento. Mas no Brasil não é, devido à diversificação do
financiamento da Previdência. O lucro e o faturamento são seus
maiores financiadores. E a idéia de que há um déficit é tão
massacrante na mídia, que aqueles que defendem uma reforma na
Previdência propõem uma reforma baseada no desmonte de direitos. A
dívida do governo com a classe trabalhadora foi esquecida”.
Leia abaixo a entrevista com Denise Gentil:
Na sua opinião, você acredita que há má fé por parte do governo
federal na divulgação dos dados de arrecadação da Previdência?
Denise Gentil - Existem interesses econômicos poderosos
empenhados em propagar a idéia de que há um déficit na Previdência
que, concretamente, não existe. E não sou só eu quem digo isso, a
maior parte das pessoas que defendem a manutenção de uma Previdência
pública comprovam facilmente, através dos próprios dados oficiais
disponibilizados pelo site do Ministério da Previdência, que há
distorções. Nele, é possível encontrar dados de fluxo de caixa do
INSS, com duas informações cruciais: o saldo previdenciário e o
saldo operacional do INSS. Se você observar o saldo previdenciário,
ele de fato é negativo, pois seu cálculo levanta apenas as receitas
de contribuição ao INSS do empregador e dos trabalhadores. No
entanto não é o resultado final da Previdência Social, é apenas a
receita parcial. As receitas que faltam, como as de CPMF, CSLL e
COFINS, são receitas de grande porte e, mesmo assim, não aparecem no
cálculo. Se calculadas todas as fontes de financiamento, percebe-se
que há um superávit de R$ 8,2 bilhões na Previdência. Portanto, isso
levanta uma questão: se não há um déficit, quais são os interesses
do governo em propagar a idéia de que há um déficit? As estatísticas
comprovam que o governo tem feito uma política extremamente
restritiva de manutenção de superávits primários gigantescos. Esses
superávits primários implicam na retirada de recursos da Previdência
para serem aplicadas no orçamento da União.
Essa retirada é legal?
A partir do Plano Real, houve o recurso da Desvinculação das
Receitas da União, chamada na época de Fundo de Estabilização
Fiscal, através do qual o governo foi autorizado a retirar 20% dos
impostos e das contribuições da seguridade social pra aplicar
livremente em qualquer tipo de despesas. Ou seja, houve a
desvinculação dos recursos direcionados aos gastos da Previdência
para gastos com outros fins. É uma desconstrução do real sentido da
seguridade social, e a justificativa para isso era, na época e até
hoje, que o equilíbrio orçamentário é mais importante e dele depende
o controle do processo inflacionário. Não é difícil perceber que
esse discurso de falência faz parte de uma retórica que pretende
destinar uma fatia cada vez maior do orçamento público para fora da
seguridade social. Quem tem mantido o superávit primário é a
seguridade social, pois há uma transferência óbvia de recursos de um
para o outro.
Com que finalidade foi estabelecida, com a Constituição de 1988,
a diversidade da base de financiamento da Previdência?
A Constituição de 1988 teve uma importância inigualável para a
Previdência, pois criou um sistema de seguridade social, muito mais
amplo e capaz de amparar inclusive trabalhadores rurais, que não
contribuem significativamente para a Previdência. As pessoas
passaram a ter direito a esse serviço de acordo com sua necessidade,
e a contribuir de acordo com suas possibilidades. A Previdência foi
desvinculada da noção de seguro, cujo sistema excludente garante
assistência apenas àqueles que são capazes arcar com altos custos.
Foi um contrato social com o Estado. Mesmo assim, o sistema
continuou sendo excludente, obviamente, já que favorece apenas a
quem possui carteira assinada e contribui com os impostos.
Devido às proporções do sistema, percebeu-se que não era possível
construir um sistema como esse financiado unicamente na folha de
salários. Todos os economistas e intelectuais que participaram da
Constituição de 88 claramente já tinham essa visão, portanto fizeram
uma diversificação do financiamento desse sistema, criando outros
financiamentos da receita. A partir do momento em que se percebeu
que a Previdência havia se tornando uma grande fonte de renda, houve
o interesse de se destinar parte dele a outros fins.
Mais na frente, em 2000, veio a Lei de Responsabilidade Fiscal, cujo
nome parece ser uma ironia se consideradas algumas de suas
diretrizes. Ela criou o Fundo de Previdência, cuja receita é baseada
unicamente na contribuição ao INSS dos trabalhadores e empregadores.
Isso isolou as outras formas de financiamento, gerando um déficit
artificial.
Quem são os favorecidos pelo déficit artificial?
Todos os grandes proprietários de títulos públicos do governo. São
eles que se beneficiam da política de juros altos, e possuem grande
influência no Banco Central. É um grupo que pressiona por uma
política econômica restritiva. O processo de execração da
Previdência pública faz parte do interesse desse grupo em
privatizá-la. E com uma Previdência privatizada, todos os
trabalhadores rurais e os cerca de 40 milhões de trabalhadores
informais seriam excluídos deixados de lado. É uma luta de classes.
Essa manipulação dos dados oficiais pode ser considerada fraude?
Não, pois eles têm amparo legal para isso, através da Lei de
Responsabilidade Fiscal. A concepção de que só pertence à
Previdência a contribuição das folhas de pagamento foi consolidada
ao longo dos anos 90, portanto não é fraude falar isso. No entanto,
pela Constituição de 88, o artigo 68 da Lei de Responsabilidade
Fiscal, referente a essa questão, não possui sustentação nenhuma.
Esse conceito de déficit da Previdência é, portanto,
inconstitucional, uma afronta à Constituição.
O déficit previdenciário do mundo ocidental é resultado da política
restritiva adotada de maneira hegemônica pelos países do grupo. A
partir do momento em que os países passarem a valorizar a geração de
empregos e o estímulo à produção, esse déficit desaparecerá. E os
economistas sabem disso, sabem que essa política de desmantelamento
do Estado promovida pelo superávit primário é uma política
recessiva. Basta ver a queda do PIB registrada recentemente no país.
Por todos esses motivos, a política previdenciária no Brasil tinha
tudo para ser deficitária. Mas não é. Embora o nível de renda da
classe trabalhadora tenha caído, há uma fonte poderosa de
financiamento da Previdência, que é o lucro, o faturamento. As
receitas da Previdência estão crescendo, e não são deficitárias.
Pode ser que em outros países do mundo seja, por terem apenas como
base o desconto na folha de pagamento. Mas no Brasil não é, devido à
diversificação do financiamento da Previdência. E a idéia de que há
um déficit é tão massacrante na mídia, que aqueles que defendem uma
reforma na Previdência propõem uma reforma baseada no desmonte de
direitos.
Somente um processo democrático consistente e sólido poderia
resgatar o conceito constitucional da seguridade social e evitar o
desmantelamento da Previdência Social. No momento, a dívida social
do governo com a classe trabalhadora foi esquecida. Calculei um
superávit de R$ 8,2 bilhões na Previdência. Onde foi parar esse
dinheiro? É isso que pretendo descobrir.
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Fonte:
http://www.ufrj.br/noticias/materia.php?cod=2327,
07/12/2005.
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