"A religião se alimenta da morte", diz Saramago

Escritor português fala de política e do seu novo romance para o EP

Miguel Mora, Lisboa

José Saramago (nascido em Azinhaga, 1922) publica um novo romance, "As Intermitências da Morte", segundo ele o melhor desde que recebeu o Prêmio Nobel. Nele o escritor reflete com humor sobre a impossibilidade de ser imortal: a morte é um grande negócio e nem sempre limpo, é difícil imaginar uma velhice extrema, e as religiões cristãs se alimentam da morte, diz Saramago.

Aos 83 anos, José Saramago estréia uma casa e um romance. A casa fica num bairro tranqüilo do centro de Lisboa e se chama Blimunda, como seu personagem feminino de "Memorial do Convento". O romance se intitula "As Intermitências da Morte" e foi editado simultaneamente (com uma primeira tiragem de 100 mil exemplares) em português, espanhol, italiano e catalão.

O prêmio Nobel de 1998 apresentou o livro nesta sexta-feira (11/11) em uma sessão dupla em Lisboa. De manhã no Instituto Cervantes, com uma videoconferência, e à tarde no Teatro São Carlos, durante um ato com grande público, em que Saramago recebeu o afeto de seus leitores, ouviu-se música de Bach. Várias mulheres (entre elas sua esposa, Pilar del Río, tradutora do romance para o espanhol) leram trechos do livro. Saramago falou de literatura, de vida, de morte e de política.

O autor de "O Ano da Morte de Ricardo Reis" mantém uma relação difícil com Portugal, país que abandonou simbolicamente em 1993 depois que um subsecretário de Cultura do governo de Cavaco Silva impediu que seu romance "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" representasse seu país em um prêmio literário europeu.

E agora que Cavaco volta ao primeiro plano, com a pré-campanha presidencial, Saramago redobrou seus ataques contra "o censor", com a mesma energia com que escreveu e defende esse novo romance, "talvez o melhor desde o Nobel", segundo afirma.

"As Intermitências da Morte" parte de uma idéia-catapulta, como todos os romances de Saramago: em um país imaginário, de repente a morte deixa de matar. A partir daí, o relato indaga com ironia, humor, humanismo e pessimismo essa situação de imortalidade transitória que perturba os poderosos, ilude os ingênuos e acaba se revelando um caos muito difícil administrar.

El País - O livro começa com a frase "No dia seguinte ninguém morreu", e às vezes parece uma sátira, embora poucos associem o senhor a esse gênero.

José Saramago - Não é exatamente uma sátira, embora haja sátira em parte, ou melhor, talvez crítica, dos costumes e das instituições e das reações das pessoas diante da morte e a falta de morte... A pergunta é: o que aconteceria se fôssemos eternos?

EP - E a primeira resposta do romance é que sem a morte muita gente se arruinaria.

Saramago -
A morte é um grande negócio, e nem sempre muito limpo. Embora esse não seja o tema principal do romance, se a morte desaparecesse de repente, se a morte deixasse de matar, muita gente entraria em pânico: funerárias, seguradoras, residências de idosos... Isso sem falar no Estado, que não saberia como pagar as pensões.

EP - Parece uma piada, embora a coisa seja séria porque a velhice dura cada vez mais.

Saramago - É sério, sim. Só podem pagar as pensões até 2015, a partir daí não sabemos. Essa era em parte a idéia do romance: com o ar de estarmos nos divertindo, falar de alguns temas sérios.

EP - Mais que com ironia, com sarcasmo, o que também parece novo...

Saramago - A ironia não é nova em meus livros, e creio que de uma maneira ou de outra, agressiva, ativa, direta ou menos, está em tudo o que escrevo. O que é novo é o humor; há um olhar do narrador muito mais humorístico, mais que em nenhum outro romance, pelo menos é o que dizem algumas pessoas, que parece que deram gargalhadas com o livro.

EP - O humor costuma cair bem para falar de coisas tão transcendentes como a morte.

Saramago - A verdade é que não o fiz de forma deliberada. Simplesmente saiu assim. E devo confessar que me diverti muito escrevendo sobre um tema tão sério quanto a morte. Embora já se saiba que com a morte não se pode rir muito, porque ela acaba rindo de nós. É melhor pensar que a morte não é uma entidade, nem uma dama que esteja aí fora nos esperando, mas sim que está dentro de nós, que cada um a leva dentro de si, e quando o corpo e ela entram em acordo, acabou...

EP - O romance também trata da impossibilidade da imortalidade.

Saramago - É que a imortalidade seria um horror; mesmo que uma pessoa vivesse 20 anos de infância, 50 de adolescência e 80 ou 90 de maturidade, a velhice acabaria chegando, e a partir daí começaria o drama. Alguém pode imaginar uma velhice eterna? Melhor não imaginar, melhor pensar que morrer não é nenhum ato heróico, mas uma coisa das mais corriqueiras.

EP - É aí que aparece o Saramago pessimista?

Saramago - Neste caso, nada pessimista, apenas se rende às evidências.

EP - E esse violoncelista que se enamora da morte encarnada em mulher sem saber quem é, sente algo do que o senhor sente?

Saramago - Se olho para trás, em todos os meus romances o protagonista é um homem só; este também, e além disso é muito tímido, não tem família... Eu nunca vivi só e jamais gostei de colocar minhas experiências pessoais nos romances...

EP - Como surgiu a idéia deste?

Saramago - Eu estava em Madri, relendo Rilke, e não sei se por sugestão direta do livro, "Malte Laurids Brigge", ou não, quando acabei de colocá-lo de lado surgiu a idéia. Sempre acontece assim, por isso digo que talvez este seja meu último romance, porque não escrevo qualquer coisa, é preciso que primeiro venha essa idéia. Pensei: e se a morte não fosse capaz de matar uma determinada pessoa? Esse foi o embrião, a trama. Não pensei no início que a morte fizesse greve em um país inteiro, que afinal é o que ocupa a primeira parte. Isso veio depois, ao inventar uma situação geral...

EP - Para lembrar, entre outras coisas, que a idéia da morte contribui para que perdure o poder da Igreja...

Saramago - Pior que isso. O problema da Igreja é que precisa da morte para viver. Sem morte não poderia haver Igreja porque não haveria ressurreição. As religiões cristãs se alimentam da morte. A pedra angular sobre a qual se assenta o edifício administrativo, teológico, ideológico e repressor da Igreja desmoronaria se a morte deixasse de existir. Por isso os bispos no romance convocam uma campanha de oração para que a morte retorne. Parece cruel, mas sem a morte e a ressurreição a religião não poderia continuar dizendo para nos comportarmos bem para viver a vida eterna no além. Se a vida eterna estivesse aqui...

EP - Por enquanto, aqui está Cavaco Silva como candidato a presidente.

Saramago - Sim, e seu aparecimento me obrigou a desenterrar o cadáver daquela censura que me aconteceu quando ele era primeiro-ministro. Seu governo fez uma coisa própria de uma ditadura fascista. Por isso apoiarei Mário Soares se houver um segundo turno. Embora meu candidato seja Jerónimo de Sousa, do meu partido, o Bloco de Esquerda, se Cavaco chegar ao segundo turno com Soares votarei em Soares. O que me preocupa mais é a apatia das pessoas, esse desânimo, essa crise de indiferença que se vive no país. Parece mentira que seja o mesmo povo que há 30 anos era o mais combativo da Europa.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
_____________________________

Fonte: El País, reproduzido pelo Uol Mídia Global, 12/11/05
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/elpais/2005/11/12/ult581u1478.jhtm