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Por Déa Januzzi
O texto do teólogo Leonardo Boff em que ele se declara oficialmente velho pelas condições brasileiras, ao ter completado 70 anos, em dezembro de 2009, correu pela internet. Quem me enviou o texto pela primeira vez foi a psicóloga, filósofa e amiga Marisa Sanábria, com a qual converso muito sobre a velhice e a morte de nossos pais. E, juntas, queremos traçar um projeto de como envelhecer, pois cuidamos de nossos pais, mas não sabemos quem vai cuidar de nós.
A conversa chegou à casa de minha irmã mais velha, Vera, a primeira dos cinco filhos de Guaracy Januzzi e Amélia. Vera também se tornou oficialmente velha em maio de 2009. Aos 70 anos, ela sente as mesmas dores da mãe e uma impotência diante do corpo que se degenera a cada dia.
Ela confessou que um ano e dois meses depois da morte da mãe, aos 91 anos, hoje entende mais as queixas de Amélia, a dor eterna nos joelhos, praticamente imobilizados pela artrose, que lhe consumiu as articulações, fazendo um estrago no caminhar. Só que Amélia sentiu a velhice chegar oficialmente depois dos 87 anos. Até aí, ela viveu bem com suas dores e sua caixa de medicamentos cada vez mais abastecida. A velhice de Amélia só se tornou oficial quando ela perdeu o único filho entre quatro mulheres. Ele estava com 67 e levou embora o resto da vontade de viver da mãe.
Vera disse que hoje teria mais paciência com as lamentações da mãe, porque só agora aos 70, percebe que está indo para o mesmo caminho dela, apesar de todos os avanços da medicina, dos exames de diagnóstico, dos medicamentos, vitaminas e da hidroginástica, que ela faz rigorosamente três vezes por semana, na companhia da irmã Rosina, de 65 anos.
Quantos outros Leonardos e Veras estão se tornando oficialmente velhos num país chamado Brasil? Com certeza muitos, pois o Brasil caminha para a velhice. Mas Leonardo Boff nos ensina como envelhecer. Ele diz que ser considerado oficialmente velho “não significa que estou próximo da morte, porque essa pode ocorrer já no primeiro momento da vida. Mas é uma outra etapa da vida, a derradeira. Possui uma dimensão biológica, pois irrefreavelmente o capital vital se esgota, nos debilitamos, perdemos o vigor dos sentidos e nos despedimos lentamente de todas as coisas.”
De fato, diz ele, “ficamos mais esquecidos, quem sabe, impaciente e sensíveis a gestos de bondade que nos levam facilmente às lágrimas. Mas há um outro lado, mais instigante. A velhice é a última etapa do crescimento humano. Nós nascemos inteiros, mas nunca estamos prontos. Temos que completar nosso nascimento ao construir a existência, ao abrir caminhos, ao superar dificuldades e ao moldar nosso destino. Estamos sempre em gênese. Começamos a nascer, vamos nascendo em prestações ao longo da vida até acabar de nascer. Então entramos no silêncio. E morremos”.
A velhice, segundo o teólogo, “é a última chance que a vida nos oferece para acabar de crescer, madurar e finalmente terminar de nascer. Nesse contexto, é iluminadora a palavra de São Paulo: “Na medida em que definha o homem exterior, nesta mesma medida rejuvenesce o homem interior. A velhice é uma exigência do homem interior. Que é o homem interior? É o nosso eu profundo, o nosso modo singular de ser e de agir, nossa marca registrada, nossa identidade mais radical”.
Ela é pessoalíssima de acordo com Boff “e se esconde atrás de muitas máscaras que a vida nos impõe. Pois a vida é um teatro no qual desempenhamos muitos papéis. Eu, por exemplo, fui franciscano, padre, agora leigo, teólogo, filósofo, professor, conferencista, escritor, editor, redator de algumas revistas, inquirido pelas autoridades doutrinais do Vaticano, submetido ao silêncio obsequioso e outros papéis mais. Mas há um momento em que tudo isso é relativizado e vira pura palha”.
Devemos deixar o palco, “tiramos as máscaras e nos perguntamos: Afinal, quem sou eu? Que sonhos me movem? Que anjos me habitam? Que demônios me atormentam? Qual é o meu lugar no desígnio do mistério? Na medida em que tentamos, com temor e tremor, responder a essas indagações vem a lume o homem interior. A resposta nunca é conclusiva; perde-se para dentro do inefável. Este é o desafio para a etapa da velhice. Então nos damos conta de que precisaríamos muitos anos de velhice para encontrar a palavra essencial que nos defina. Surpresos, descobrimos que não vivemos porque simplesmente não morremos, mas vivemos para pensar, meditar, rasgar novos horizontes e criar sentidos de vida”.
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