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Senhor Otto Dirceu Badini Quando me recordo de fatos isolados em relação a minha profissão, a memória se espraia em alegrias e satisfações e em outras ela engole em seco, pois nada mais havia o que fazer naquela época. Ainda é assim, nem todos os males a Medicina está apta a vencer com espada de fogo, como menino já sonhei: não haveria chance alguma para as doenças. Hoje as crianças mais se encantam e se miram em heróis como o Homem-Aranha. Teria medo e me esconderia se na minha infância alguém tivesse a ousadia de me apelidar de Aranha. Eu me olhava como os adultos que tinham algo a me mostrar. Espelhava-me em heróis de carne e osso. Passado! Passado... não gosto de pensar nele, mas como fugir quando dele eu posso tirar histórias e fingir ou atuar como sendo a fase da vida que mais me proporcionou alegrias? Que me recorde, tristezas só quando morreu meu galo. O senhor é novo, saiu da faculdade agora. Então me diga: já há remédios para curar uma catarata? Encontrei-me com a pessoa que me indicou e disse que não parecia ter ficado magoado ou insatisfeito com o que dissera, pois já sabia dos outros oculistas. Disse-lhe que não deveria ser influenciado, pois a cirurgia dele não era isenta de complicações, graças à alta miopia. Naquela época nós acreditávamos que o olho míope era muito mais fraco que os outros e mexer nele era buscar encrencas. Complementei: Ela me trouxe três, envelopadas. Usei uma naquela cirurgia e guardei uma outra para mim (tinha trinta e um anos naquela época!). Enfim, seu Otto foi operado e o coloquei de repouso durante um mês. Ia ao seu apartamento todos os dias para que ele não fizesse o mínimo esforço físico a fim de poupar a sua retina. Era a complicação mais temida. Todas as vezes que eu abria o curativo ele se extasiava. Estava enxergando como nunca vira antes. Com a retirada do seu cristalino, a miopia e a catarata “desapareceram” e via maior e melhor sem os óculos. Modernamente, é umas das técnicas usadas para corrigir altas miopias (cirurgia alternativa). No dia em que o deixei sem o curativo, deu-me um abraço prolongado. Tornamo-nos amigos para sempre; um papo proveitoso de duas gerações distantes nos fortuitos encontros. Recentemente, remexendo ao acaso uma velha carteira, encontrei um pequeno envelope. Abri-o. Lá estavam, enroladas em algodão, completamente enferrujadas e sem nenhuma serventia, as duas outras agulhas. Logo, logo apareceram as montadas com fios muito melhores e também porque até agora não necessitei ter as minhas possíveis e esperadas cataratas operadas. Valeu o achado. Lembrei-me do seu Otto, que me confiou ultrapassar o nosso maior receio e de ter confidenciado arrependimento de não ter sido operado antes. Na época eu não tinha ainda tanta bronca do passado. Aperto de mãos. Sorrimos felizes e nunca mais nos vimos. Só isso!
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