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Cem anos sem solidão Saudáveis e em atividade, idosos centenários são fonte de inspiração para quem sonha com uma vida longa e cheia de realizações
Por Giselle Araújo
Em atividade, Oscar Niemeyer completou 102 anos há dois meses. "Este assunto sobre idade não é com Oscar. Ele não gosta de falar sobre isso", informou a mulher do arquiteto, Vera Niemeyer. Em setembro do ano passado, a Bahia entrou em festa, celebrando os 102 anos de Dona Canô, que até hoje tem autoridade, amor e lucidez para, mesmo publicamente, "puxar a orelha" dos filhos, entre eles Caetano Veloso e Maria Bethânia. No último dia 25, outra matriarca ilustre completou dez décadas: Maria Amélia Alvim Buarque de Holanda. Mãe de sete filhos, entre eles o cantor e compositor Chico Buarque, dona Maria Amélia sempre está na companhia de um deles. Ganhou de um sobrinho um quadro que retrata sua imagem e decora a parede da sala de seu apartamento em Copacabana, no Rio de Janeiro. Uma homenagem em que se lê: "Memélia faz 100". Em Belo Horizonte, 2009 foi um ano especial para a família Mares Guia. A matriarca Judith Pinto Coelho dos Mares Guia completou 100 anos em dezembro. Decorado com bonequinhos representando seus oito filhos, 26 netos e 30 bisnetos, o bolo de aniversário ficou rodeado de familiares e amigos que foram cantar "parabéns pra você" em homenagem ao centenário de dona Judith.
Forte e saudável, ela acorda "cantando com o passarinho" que enfeita sua sala, estuda música, toca piano e lê muito. Aos 96 anos decidiu aprender espanhol para ler a obra do escritor chileno Pablo Neruda (1904-1973) "no original". Fala sobre o passado revelando a memória poderosa. "Deus me livre envelhecer sem lembranças", afirma ela, que acha difícil expressar os desígnios de uma vida centenária. "Você não tem ideia do que é viver 100 anos. É impossível explicar". Rainha
Independente e saudável, dona Bela tem muita história para contar e quase nada do que reclamar. "Só sinto uma dor nas pernas quando ando muito. Por isso, recusei um convite para participar da festa de São Sebastião em Ouro Preto". Reconhecida e querida na região Noroeste, onde mora "há tanto tempo" que perdeu a conta, dona Bela desce a ladeira de casa até o trabalho sozinha. Para abrir as portas do seu bazar na rua Mariana, no bairro Santo André, conta com a ajuda dos frequentadores e amigos do bar que fica ao lado, verdadeiros protetores da vizinha centenária, que também gosta de uma cerveja gelada. "Às vezes, tomo uma cervejinha. Já tomei muito Velho Barreiro (cachaça), deixava uma garrafa debaixo da pia. Agora é só cerveja". Mãe de 16 filhos, sendo 15 de criação, dona Bela diz que não tem nenhum segredo para a longevidade. "Vou vivendo, é a vontade de Deus", conclui. Para os interessados em conhecer sua história, ela manda um recado: "Quem quiser saber alguma coisa de mim pode assistir ao documentário que a Andréia fez. Não quero mais dar entrevista, já estou cansada". No documentário "Rainha Bela", a diretora Andreia Duarte revela a vida da benzedeira, rezadeira, congadeira e fundadora da Guarda de Moçambique Nossa Senhora do Rosário e São João Batista, criada em 1954 na capital.
Dona Bela é a rainha do congado mineiro No bairro Horto, região Leste da capital, dona Alzira Pereira dos Santos se prepara para a festa do seu centenário, dia 8 de maio. Ela guarda as lembranças do tempo da infância em Rio Vermelho, sente saudades da mãe, dos 15 irmãos que já faleceram e do marido, que viveu até os 102 anos. “Ainda relembro minha infância na fazenda das Palmeiras”, diz dona Alzira, que há seis anos usa cadeira de rodas. “Agora, o que eu mais gosto de fazer é ficar à toa”, confessa. “Nunca bebi ou fumei e estou lúcida. Fui muito bem-sucedida e fiz tudo que eu quis”, diz ela, que teve seis filhos, duas enteadas, 24 netos, 29 bisnetos e aguarda a chegada do segundo tataraneto.
Tranquilidade soberana Avanços na medicina e incentivos à valorização dos idosos elevam expectativa de vida
Dona Canô: lições de ternura aos 102 anos Para Confúcio, os mais velhos têm supremacia sobre os mais jovens, sendo a autoridade da velhice justificada pela posse da sabedoria. E Lao-Tsé diz que a velhice é um momento de alcance espiritual máximo. De acordo com o professor de sociologia da PUC Minas, Juracy Costa Amaral, a longevidade é um fator que se soma ao processo de desenvolvimento da sociedade. "Quanto mais ‘civilizada’ a sociedade, mais estende-se a vida", afirma. Após a "ditadura da juventude", nos anos 90, o Brasil vive um processo de mudança de postura quando o assunto é terceira idade, na avaliação do professor. "Na década de 1990, o foco estava nos jovens, principalmente no mercado de trabalho. Agora, buscamos reverter isso, reconhecendo o valor da experiência dos mais velhos". O avanço da medicina é um fator de destaque no aumento da expectativa de vida da população, embora a evolução das técnicas e medicamentos não possa por si só explicar porque algumas pessoas conseguem ultrapassar os 100 anos. "O desenvolvimento de tratamentos para doenças que antes causavam grandes índices de morte, como infarto, insuficiência renal e outros, garante mais sobrevida. Além disso, a prevenção e adoção de atitudes para garantir um envelhecimento saudável favorecem a longevidade", ressalta a geriatra Cláudia Caciquinho. Genética O geneticista Sérgio Pena observa que a longevidade é um tema bastante complexo. "Isso porque as pessoas são tremendamente variáveis do ponto de vista genético". Segundo o médico, todas as nossas características dependem do nosso genoma. "E cada genoma humano é único, nunca vai se repetir - com exceção de gêmeos monozigóticos. Por isso, é impossível saber como cada um de nós irá envelhecer", avisa. Apesar da determinação genética, podemos tomar medidas para ter uma vida mais longa, segundo o médico. "Pode-se fazer a prevenção de doenças associadas ao envelhecimento através da medicina genômica - baseada no conhecimento do mapa de predisposições genéticas de cada indivíduo - e da medicina regenerativa, que depende da terapia com células-tronco", aponta. "Cuidados com a saúde e comportamento também devem ser priorizados. Afinal não nos interessa apenas viver mais, queremos qualidade de vida. Em outras palavras não queremos só ter mais anos na nossa vida, mas mais vida nos nossos anos". Vida natural Tirar proveito da natureza é o melhor caminho para quem pretende viver muito, segundo o higienista Fernando Carneiro Travi. "O higienismo é radicalmente contra toda tentativa artificial de suprir um ser vivo", explica. Para os higienistas, toda a doença deriva da intoxicação por acúmulo excessivo de toxinas no sangue. Alimentos crus bem combinados entre si, ar puro, banhos de sol, atividade física e atitude mental positiva são a base para a longevidade. "Aquele que vive de acordo com as leis da natureza vai bem até o fim e morre sem doenças". _____________ Fonte: Jornal Pampulha, 05/02/2010 Matéria de capa (Fotos: Cristiano Trad) http://www.otempo.com.br/jornalpampulha/noticias/?IdNoticia=5439 |
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