Promovendo a reinvenção do envelhecimento*

 

Temos aprendido, e acreditamos que nossos parceiros diários também tenham, muitas coisas bonitas sobre o desenvolvimento do cérebro dos seres humanos, lendo e refletindo sobre as idéias da professora Nylse Cunha.

 

Agora que estamos a um passo de terminar este relato, tão rico de reflexões, estamos fazendo uma viagem ao passado, quando conhecemos bem a Nylse, então nos anos setenta, oitenta, montando a Brinquedoteca da APAE de S.Paulo, fruto de pesquisa pessoal dessa ilustre professora e dos numerosos Congressos de que participou no exterior, que enriqueceram e muito a sua caminhada já plena de iniciativas e de êxitos.

 

É um fato constatado que muitas lembranças nossas, do passado, ficam em nosso subconsciente, vindo à tona quando nossa consciência pede sua presença; outras lembranças se perdem na poeira do tempo que se foi, lembranças boas, lembranças más...

 

Da professora Nylse Cunha, com quem conversávamos com certa regularidade pois era muito ocupada e nós também, recordamos um fato que merece registro: naquela época, por volta dos anos oitenta, prevalecia na APAE de São Paulo a determinação, dada pela Diretoria da época, de que somente crianças com deficiência leve, sem problemas motores como nosso filho Ricardo, poderiam ser atendidas nos serviços da entidade. Essa forma de atuação, determinada como regra a ser fielmente obedecida, e que se originava em ordem direta da Diretoria, provavelmente, não era bem absorvida, por nós pessoalmente porque nosso filho, o Ricardo, nunca conseguiu ser atendido na entidade que seus pais haviam ajudado a fundar em 1960, e, aí entra a professora Nylse, parecia-lhe totalmente contra os objetivos de uma organização de pais com o prestígio que já tinha a APAE de São Paulo, que fossem recusadas crianças com comprometimentos maiores, que eram se não nos enganamos, orientadas a procurar a AACD, Lar Escola São Francisco, a então Escola Indianópolis, que Nylse dirigia.

 

Lembramo-nos com carinho da atitude de revolta mesmo da professora Nylse quanto a esse fato, porque representava a nossa angústia pessoal e de outras mães, já que a APAE quando fundada pretendia dar assistência a crianças com deficiência intelectual e pronto!

 

Estamos mencionando este fato aqui porque demonstra a grandeza de alma da professora Nylse Cunha, que via muitas possibilidades de progresso em crianças com problemas neurológicos, e outros, graves. Nada se modificou com a indignação que mostrava e da qual compartilhávamos também, mas é um ponto significativo que demonstra quanto Nylse era sensível ao sofrimento das famílias ao ver seus filhos de repente rejeitados bem na organização que lhes haviam dito o receberia de braços abertos.

 

Talvez você não lembre, Nylse, deste fato, aparentemente secundário, mas para nós pessoalmente foi uma atitude que nos provocou muita admiração, que persiste até hoje.

 

Vamos ao texto da professora Nylse Cunha:

 

“Promovendo a reinvenção do envelhecimento”

 

“A promoção de uma transformação requer cuidados sem os quais o resultado pode não corresponder aos benefícios esperados. Para poder prestar ajuda no sentido de melhorar a qualidade de vida de pessoas idosas, antes de mais nada, é preciso conhecê-las para fazer justiça às suas condições físicas, emocionais, psicomotoras, sociais, suas expectativas e sonhos ou melhor, sua capacidade de sonhar. Uma programação eficaz parte de uma boa avaliação global, feita por uma equipe especializada, composta por geriatra, psicólogo, terapeuta ocupacional e ludo-pedagogo. Hoje em dia existem vários tipos de instrumentos facilitadores de registro de observação evolutiva que podem subsidiar um atendimento bem orientado (o DAE – Dossiê de avaliação evolutiva criado no Instituto Indianópolis é um deles).

 

“As estratégias a serem utilizadas devem ser coerentes com a proposta de desenvolvimento de uma postura lúdica e criativa na qual são aproveitados recursos como jogos que, além de divertir, desafiam o pensamento e as habilidades psicomotoras. Concentração de atenção, orientação espacial, pensamento lógico e percepções sensoriais são capacidades que podem e devem ser estimuladas. Os jogos são grandes facilitadores deste processo mas precisam ser sempre renovados para que o desafio por eles proposto seja mantido.

 

A descoberta da plasticidade cerebral trouxe o conhecimento de que novas sinapses podem acontecer em qualquer idade. Para manter o cérebro ativo, entretanto, é fundamental variar o tipo de atividade. Isto significa que precisamos mudar hábitos, o que não é fácil para pessoas idosas. Hábitos que preencheram necessidades estão às vezes tão arraigados que passaram a ser mesmo uma segunda natureza. A armadilha, que o conforto nos prega, é a de escravizar-nos a ele pois passam a ser limites difíceis de substituir.

 

“A abordagem desta avaliação não pode ter características de teste assim como os atendimentos proporcionados não podem ter características de terapia. Como numa Brinquedoteca, os resultados da freqüência são terapêuticos embora o atendimento não seja uma terapia.

 

“Trata-se de criar Centros de Convivência, espaços comunitários, à semelhança de clubes, que proporcionem ambiente lúdico, com atmosfera criativa, que oportunize acolhimento e convivência, propiciando atividades que embora planejadas de acordo com as metas pretendidas, ofereçam oportunidades promotoras de crescimento pessoal, tanto para pessoas que apresentam alguma deficiência, como para outras que precisam apenas de estímulo para melhorar a qualidade de vida, adotando uma nova postura existencial.

 

“Reinventar, requalificar, promover a vontade de passar por um segundo nascimento, resgatando a criança interior que uma vez manti8da forte e saudável é a garantia indispensável ao equilíbrio emocional porque é também responsável pela capacidade de desenvolver postura lúdica perante a vida.

 

“No processo de cultivo pessoal do ser humano, a evolução acontece até o ponto em que esbarra na sua visão de mundo, também chamada de cosmovisão e que foi nutrida não só por idéias, mas também por uma amálgama de sentimentos, crenças e valores. Esse sistema de crenças pessoais não é apenas um sistema ideológico mas tem raízes culturais profundas e até inconscientes, que afetam a segurança pessoal. Para fazer com que a convivência seja mais transformadora, é preciso fazer o homem mais consciente de si mesmo e capaz de transcender modelos sociais estereotipados, reinventando sua vida.

 

“Se o primeiro nascimento foi acidental, o segundo é uma conseqüência de um longo processo pleno de esforços somados para possibilitar a construção de um novo ser humano, mais liberto, mais rico interiormente, mais verdadeiro. A transformação que faz crescer o potencial de mais energia de vida, é alimentada pela capacidade de amar e de manter o encantamento perante as coisas, as pessoas e os fenômenos.

 

“A velhice não deve ser negada mas reinventada e assumida com a satisfação de quem entendeu que não é hora de esperar a morte mas de renascer através de um segundo nascimento iluminado por uma nova postura existencial.

 

“Citando Milton Greco “sobreviver é fundamentalmente criar pois criativa é a base sobre a qual se assenta a aventura humana. É mais que criar, é recriar a vida em todas as suas dimensões, em todos os seus chamados, em todos os seus impulsos e apesar de todas as suas interrogações. O impasse existencial só tem saída na busca da sobrevivência total, fundada nas aspirações humanas. “

 

“O ser humano é um sistema aberto passível de incorporar novos eventos à sua trajetória existencial: um tempero de aventura e novas possibilidades poderão ser fonte de energia para colorir a vida, fazendo dela mais do que sobrevicência. Ser idoso é uma conquista.

 

Conclusões

A pessoa idosa não tem tido em nosso país as oportunidades de que necessita para poder orgulhar-se de ser idosa. Sua qualidade de vida está comprometida pela focalização equivocada de que é preciso ocultar a velhice.

 

- Descobertas relativas à plasticidade cerebral e à inteligência emocional abriram caminho para uma nova abordagem do atendimento ao idoso, objetivando sua felicidade.

 

- A criação de Centros de Convivência, baseados nos princípios aqui expostos, poderá assegurar a melhoria da qualidade de vida dos idosos, auxiliando-os a assumirem uma nova postura existencial condigna com o respeito que merecem.

 

Bibliografia

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Greco, Milton. A aventura humana entre o real e o imaginário. Ed. Klaxon, São Paulo, 1984

Groinick, S. Winnicott, o trabalho e o brinquedo – Porto Alegre, Artes Médicas, 1993

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Novaes, Maria Helena. Psicologia da criatividade. Editora Vozes. Petrópolis,1977.

Torrance, E. P. e J.P. Pode-se ensinar criatividade? EPU-Editora Pedagógica Universitária. São Paulo, 1974.

Virgolin, Ângela M.R. e Alencar, Eunice Soriano e outros. Criatividade, expressão e desenvolvimento. Vozes, 1994.

Winnicott, D. W. O brincar e a realidade – Rio de Janeiro, Imago, 1975.

Wolman, Richard N. Inteligência Espiritual – trad. Geni Irata, Rio de Janeiro, Editora Ediouro 2001

 

 

* Páginas 14 a 17 do trabalho da professora Nylse Cunha, diretora do Instituto Indianópolis, São Paulo parte da tese intitulada: Transformações na sociedade brasileira e envelhecimento Desafios e perspectivas para os novos idosos. Transcrito por Maria Amélia Vampré Xavier, da Rede de Informações Área Deficiências Secretaria Estadual de Assistência e Desenvolvimento Social de São Paulo,, Fenapaes, Brasília (Diretoria para Assuntos Internacionais), Rebrates, SP, Carpe Diem, SP, Sorri Brasil, SP, Inclusion InterAmericana e Inclusion International em 4 de maio, 2009