Cirurgia de Catarata no Brasil

 

No Brasil, 40% dos pacientes com catarata não conseguem cirurgia

Cláudia Collucci

 

Aos menos 40% dos pacientes que precisam de cirurgia da catarata não conseguem tratamento, revela uma pesquisa da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). O trabalho, inédito na América Latina, recebeu financiamento da OMS (Organização Mundial da Saúde) e do Instituto da Visão dos EUA e acaba de ser publicado na edição online do "American Journal of Ophthalmology".

 

O objetivo da OMS foi conhecer a frequência e os resultados das cirurgias de catarata no Brasil. Iniciativas semelhantes aconteceram na China, na Índia e na Rússia. A OMS recomenda uma taxa de 3.000 cirurgias por ano por milhão de habitantes. Embora o país tenha melhorado o acesso à cirurgia -passou de 600 (em 1998) para 1.815 (em 2002) por milhão de habitantes-, os pesquisadores avaliam que o número seja insuficiente.

 

                                                          Filipe Redondo/Folha Imagem

O aposentado José Cícero Deodato, 81, passa por exame para detectar catarata na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo)

O aposentado José Cícero Deodato, 81, passa por exame para detectar catarata na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo)

No estudo, com 4.224 pessoas acima de 50 anos, concluiu-se que a cobertura cirúrgica da catarata é de 61%. A pesquisa foi realizada entre os anos de 2004 e 2005. Para o oftalmologista Rubens Belfort Júnior, professor da Unifesp e um dos coordenadores do estudo, o déficit persiste. Dados do próprio Ministério da Saúde mostram que, em 2008, foram realizadas 252 mil cirurgias -68 mil a menos do que o total feito em 2002, conforme a pesquisa.

"Quase 40% dos pacientes que precisam de cirurgia da catarata no Brasil não estão sendo operados. Isso se indicarmos a cirurgia apenas quando o paciente tiver cerca de 30% de visão. Na prática, as pessoas acabam necessitando [da cirurgia] muito antes disso", diz.

 

Segundo ele, o acesso à cirurgia é ainda mais difícil quando o paciente é idoso e precisa de internação hospitalar -em geral, o procedimento é feito no ambulatório, sem internação.

 

Ociosidade

No Instituto da Visão da Unifesp, por exemplo, são feitas por mês 200 cirurgias de catarata, quando a real capacidade do local é realizar de 500 a 600 procedimentos mensais. "Estamos impossibilitados de operar mais pacientes porque o sistema [SUS] não autoriza." A pesquisa também detectou que falta assistência após a cirurgia de catarata. Em uma primeira avaliação, 41% dos pacientes operados estavam com visão máxima (acima de 50%). Depois de receberem novos óculos, o índice de visão máxima passou para 60% -ou seja, 19% deles não estavam sendo seguidos corretamente.

 

Belfort explica que o uso do óculos após a cirurgia é necessário especialmente aos pacientes que se submeteram a técnicas mais antigas. "Além de aumentar o número de cirurgias, é preciso padrão de qualidade e um seguimento pós-operatório adequado."

 

Ministério da Saúde

Em nota, a assessoria de imprensa do Ministério da Saúde informou que, em nove anos, foram investidos R$ 1,2 bilhão em cirurgias de catarata, com quase 2,5 milhões de procedimentos. Entre 2006 e 2008, houve um incremento de 25% no número de cirurgias -de 201 mil para 252 mil.

 

Com isso, diz o ministério, houve redução da demanda reprimida em todas as regiões do Brasil. Informa também que, desde 2008, uma série de portarias aperfeiçoou a atenção à saúde ocular. Entre elas, houve a criação de cinco programas que preveem a redução do tempo de espera e a ampliação da oferta de procedimentos.

 

De acordo com o ministério, nunca houve recusa de propostas encaminhadas pelos gestores (Estados e municípios) ou corte nos repasses de recursos.

 

O ministério também diz que tem recebido manifestações de apoio de entidades oftalmológicas. "Elas pontuam que a atual gestão do SUS tem mudado o panorama do atendimento oftalmológico no Brasil sem a necessidade de ações pontuais, como campanhas e mutirões, e nos colocando num patamar mais elevado, capaz de tornar o país referência internacional."

 

 

                                                     Editoria de Arte

 

Fonte: Folha de S.Paulo, 25/6/09. http://www1.folha.uol.com.br/folha/equilibrio/noticias/ult263u586144.shtml

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Quando tudo fica nublado

O assunto desta semana interessa a todos. Especialistas costumam dizer que quem viver o suficiente terá catarata, a maior causa de cegueira curável no mundo

 

Tiago Braga

 

Se você tem mais de 55 anos e está tendo dificuldade em enxergar com nitidez, é bom ficar atento. A imagem borrada ou distorcida é um dos sintomas da catarata, a maior causa de cegueira curável do mundo. Mas ninguém precisa ficar assustado. Na maioria das vezes, o distúrbio ocular é uma consequência natural do envelhecimento. Além disso, a cirurgia de catarata evoluiu nos últimos anos e o procedimento ficou rápido e seguro, garantindo conforto ao paciente.


A principal causa da catarata é o envelhecimento do cristalino, uma lente transparente que fica no interior do olho (atrás da pupila) e que é responsável pelo ajuste do foco das imagens que vemos. Com o passar dos anos, essa lente vai ficando opaca, o que acaba bloqueando a passagem de luz para a retina, onde a imagem é formada.


“O cristalino vai perdendo a transparência e a elasticidade com o tempo. É um processo natural que ocorre com mais frequência depois dos 55 anos de idade”, informa o oftalmologista Álvaro Fernandes, que trabalha na Sociedade de Assistência aos Cegos, mais conhecida como Instituto dos Cegos.


A catarata se desenvolve aos poucos. Em estágio inicial, a perda da qualidade visual é discreta. À medida que a doença avança, a visão vai ficando mais turva e embaçada, comprometendo atividades cotidianas como ler e dirigir. “É como se tivesse o tempo todo nublado”, compara o oftalmologista Newton de Andrade, diretor do Hospital de Olhos Leiria de Andrade, em Fortaleza.


Quem tem catarata enxerga como se estivesse olhando por meio de um vidro sujo ou como se existisse uma névoa constante diante dos olhos. A perda total da visão ocorre no estágio mais avançado da catarata. Mas os especialistas lembram que a cegueira é reversível. A única forma de tratamento é a cirurgia. Nela, o médico substitui o cristalino opaco por uma lente artificial. Nas técnicas mais modernas, a anestesia é com colírio, sem necessidade de injeção, e o corte é mínimo.


Novas lentes intraoculares também têm garantido mais conforto aos pacientes. Além de resolver a questão da catarata, elas corrigem outros problemas na vista, como astigmatismo, miopia e hipermetropia. Em alguns casos, o paciente nem precisa mais usar óculos.


Especialistas lembram que, embora a causa mais comum seja o envelhecimento, a catarata também pode ocorrer em outras faixas etárias. Ela pode ser congênita (quando o bebê nasce com a doença) ou ainda ser provocada por outros fatores, como uso de colírios com corticoides, inflamações ou por acidentes que causam traumatismo nos olhos, como os que acontecem no trânsito.


Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a cada ano, no Brasil, são diagnosticados 100 mil novos casos de catarata. No mundo todo, a estimativa da OMS é de que, até 2020, o número de pessoas acometidas pela doença chegará a 40 milhões.

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Fonte: O Povo Online - Ciência & Saúde. Da Redação, 27 Jun 2009.

http://www.opovo.com.br/opovo/cienciaesaude/888465.html