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Adeus ao futuro velho
Por Miro Hildebrando - vbrando@uniplac.net
Em recente reportagem da revista “Época”, somos, no bom sentido, confrontados com a possibilidade de chegarmos, como nação, a uma encruzilhada com diferentes futuros em cada ponta. O primeiro, com o usual crescimento contínuo do bolo capitalista – e a eterna esperança de um dia ter mais fatias para distribuir – e menos pobreza, mas grandes reformas ainda por fazer, presos num círculo vicioso com bolsões de miséria e riqueza desmedida; uma elite caolha e baixos níveis educacionais e de capital social. Um enorme PIB com hordas pobres e carentes, identificando o Brasil com a estranha Belíndia, uma espécie de meia potência belga com pobreza indiana.
O segundo surge um tanto subitamente: o mundo vasto e múltiplo se abre e descortina os novos horizontes de um país maduro, democrático e rico, confirmando a velha frase, alegre e reverencial: o bom Deus é mesmo brasileiro. A partir da década de 1990, conseguimos acabar com a inflação, criamos a Lei da Responsabilidade Fiscal, aumentamos a exposição dos políticos à mídia e o respeito à opinião pública; demos um salto na produtividade agrícola, enchemos as salas de aula, algumas instituições nacionais tornaram-se ilhas de excelência de qualidade mundial; amparamos razoavelmente os nossos pobres e empoderamos (desculpem o verbo inexistente) nossa classe média.
Iniciamos a reparação de injustiças históricas com novos e gigantescos parques indígenas e cotas universitárias; conseguimos um novo e importante parceiro comercial, de olhos amendoados; ganhamos credibilidade no mundo inteiro, como um povo alegre e trabalhador que deve ser levado a sério. Descobrimos imensas jazidas de petróleo e emprestamos US$ 10 bilhões ao FMI que, há pouco tempo, nos tratava como adolescentes irresponsáveis – que éramos, de fato.
Uma geração menos numerosa, com menos crianças, já chegou: seremos favorecidos na próxima década pelo chamado gap populacional. A atual taxa de fecundidade de 1,7 filho por mulher continuará a cair; uma menor população infantil aliviará os orçamentos públicos e domésticos: no decorrer da próxima década, haverá uma redução de dez, talvez 13 milhões de crianças no ensino fundamental.
A pirâmide populacional não terá mais uma base muito larga (jovens e crianças) e uma ponta fina (pequena quantidade de velhos). Possivelmente, terá uma “cintura” quase tão larga quanto a base, revelando a maior presença de adultos e idosos. Teremos uma população mais ativa e madura, com a produtividade pessoal se estendendo além da aposentadoria.
Alguém já poderia começar a questionar tal otimismo, pois condicionantes existem, como a necessária melhoria de nossa catastrófica infraestrutura e a qualidade política de nossos governantes (a maioria com baixa escolaridade e escassos escrúpulos éticos). Acima de qualquer coisa, como condicionante principal, a questão da educação.
Nessa área, os obstáculos são muitos, a começar pelo conservadorismo e atraso de algumas posturas sindicais, que imaginam que quaisquer soluções têm que passar por mais salários; estudantis, que se rebelam contra a disciplina e o mérito; corporativistas, que ameaçam usar a arcaica legislação trabalhista para preservar privilégios e impedir mudanças; políticas, que desejam eleitores incultos e manobráveis; e familiares, a família brasileira média ainda acredita que a responsabilidade pelos estudos dos filhos é problema da escola.
O Brasil tem pela frente uma encruzilhada histórica: o futuro descrito no primeiro parágrafo, ou o futuro como uma das principais potencias do mundo – talvez a quinta – uma garantia de qualidade de vida para seus cidadãos, com governos melhores, mais democráticos e justos. Não é o suficiente para que iniciemos um período em nossas vidas pessoais e em nossas comunidades e, talvez pela primeira vez em décadas, com chances reais de ver nossos esforços recompensados? _________________________ Fonte: ClicRBS.com.br - A Notícia – 15/06/2009
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