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O Habitar Contemporâneo: Maria Luisa Trindade Bestetti - mltbarq@terra.com.br, pesquisadora mentora,
A longevidade crescente em todo o mundo transforma a sociedade, interferindo no comportamento e nas necessidades provenientes dessas mudanças. As mulheres idosas até meados do século XX eram exclusivamente dedicadas à família e a longevidade era menor: aos 60 anos geralmente já ficavam visíveis os sinais do tempo, aparentes nos cabelos e na pele e, não raro, já se mostravam conformadas com uma história de dever cumprido. Havia uma evasão natural dos filhos já independentes, por motivos diversos, tais como mudanças profissionais para os homens, casamentos e consolidação de carreiras que justificavam a montagem de novas moradias. A conhecida “Síndrome do Ninho Vazio” tornava a vida dessas mulheres contaminada de lembranças que, mesmo boas, faziam-nas sentirem-se sós e inúteis. Para completar, o papel do homem dentro desse contexto era o de provedor, raramente participando das atividades domésticas e acostumado a uma assistência constante dentro de casa. Sendo assim, as mulheres continuavam administradoras dos seus lares até o fim da vida, geralmente podendo contar com a contratação de cuidadores que garantissem seu conforto. As residências, antes povoadas por filhos, agora passam a ter espaço ocioso, ocupado em reuniões eventuais de família. Os empregados, em número proporcional à necessidade de manutenção da casa e ao conforto normal do casal, determina que passem naturalmente à condição de acompanhantes, atendendo à fragilização natural provocada pelo envelhecimento. Um fenômeno que se configurou a partir de então foi a permanência dos filhos por muito mais tempo com os pais, mesmo auferindo renda própria, mas considerando a racionalização de atividades e a própria decisão de estudar mais tempo, investindo na carreira através de cursos e aquisição de livros e equipamentos. Mesmo casados e com filhos, não raro encontramos economias familiares compostas por três gerações, o que determina conflitos etários, sobrecarga de atividades aos idosos e falta de privacidade dentro do ambiente familiar. Não havendo uma renda suficiente para proporcionar melhores condições aos pais, os filhos colocam-se como cuidadores embora, não obstante, utilizem-nos para atender suas próprias necessidades. Hoje já convivemos com as mulheres idosas que, quando jovens, provocaram essa revolução: elas têm outros objetivos e desejos, dentre os quais garantirem um aumento da mobilidade, a flexibilização da moradia para melhorar sua praticidade e a independência dos serviços domésticos, já não mais as escravizando como antes. Mesmo dedicadas a filhos, maridos e netos, elas necessitam de independência e autonomia, podendo decidir como e quando atender seus próprios desejos, a partir de uma estabilidade financeira advinda da aposentadoria. É necessário que se ofereçam moradias assistidas condizentes com a realidade brasileira, atendendo a uma demanda crescente e já visível no mercado, em função da falta de mão-de-obra doméstica e das vantagens na cotização de gastos com o habitar. Essas habitações devem ser confortáveis e seguras, podendo ser atendidas por serviços compartilhados que garantem manutenção e qualidade, além de redução de custos e compatibilização de orçamentos. Apóiam-se em programas arquitetônicos com áreas suficientes para as atividades íntimas, mas com generosos espaços para convivência e atividades coletivas, sejam internos ou externos. Sugere uma residência que abrigue diversas pessoas que necessitam do mesmo tipo de assistência, especialmente os cuidados diários com conforto e segurança, podendo oferecer itens especiais relacionados a rotinas em tratamentos médicos ou atendimentos de emergência, além de atividades físicas e de recreação. As moradias assistidas no Brasil ainda são raras, mas demonstram, dia-a-dia, que podem ser a solução para uma velhice confortável, digna e feliz. Para os idosos significam a possibilidade de autonomia com garantia de integridade, já que envolve profissionais preparados para atendê-los e auxiliá-los em atividades coletivas. Para as famílias, a certeza de atenção e cuidado, garantindo a tranqüilidade e o bem-estar de todos. Enfim, uma boa alternativa para viver a terceira idade com muita satisfação.
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