O Baile

Você tem sede de que?
Você tem fome de que?
A gente não quer só comida,
A gente quer comida, diversão e arte.
(...)
A gente quer saída para qualquer parte.
A gente não quer só comida,
A gente quer bebida, diversão, balé.
A gente não quer só comida,
A gente quer a vida como a vida quer.
(...)
A gente não quer só comer
A gente quer comer
E quer fazer amor
A gente não quer só comer
A gente quer prazer
Pra aliviar a dor...
(...)

Comida, de Arnaldo Antunes / Marcelo Fromer / Sérgio Britto

 

Por Cléber Leôncio, Ilza Trabachin Ferraz, Marcella Machado, Maria Lígia Pagenotto, Nádia Loureiro Ferreira, Pedro Sammarco e Sônia Fuentes*

 

Quando os funcionários do Lar Nossa Senhora da Conceição, localizado na zona sul de São Paulo, perguntaram aos internos, todos idosos ex-moradores de rua, o que eles mais queriam ter na instituição onde moram, a resposta veio com rapidez: “Um baile”!

Pois é: num lugar onde seria importante ter mais sabonetes, lençóis, toalhas, mantimentos, aqueles senhores e senhoras disseram sem pestanejar que queriam transformar a moradia, ao menos por uns momentos, num animado salão de baile.

A resposta surpreendeu a todos e nos fez pensar.

Por que um baile se aquelas pessoas carecem de tantas coisas?

“Por que o baile é o lugar do desejo”, disse a professora Suzana Medeiros na abertura do Nepe (Núcleo de Estudos do Envelhecimento) que teve como tema “O Baile”. Quem nos inspirou a realização deste trabalho foi justamente o grupo que habita a instituição de longa permanência para idosos Lar Nossa Senhora da Conceição.

O baile é o lugar onde eles se expressam de forma ampla, geral e irrestrita, sem preconceitos. Podem se insinuar para o companheiro ou companheira que tanto desejam com aquela pitada de sensualidade que há anos está adormecida, tantas são as dores físicas e as dores da alma dessa gente.

Aqui vale lembrar ainda a música Valsinha, de autoria de Chico Buarque e Vinícius de Morais. A mulher é tirada para dançar por seu companheiro, que um dia chega em casa “tão diferente do seu jeito de sempre chegar”. Aí ela se faz bonita como há muito tempo não queria ousar, com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar...

Assim como esta mulher, os idosos do Lar Nossa Senhora da Conceição não querem só comida.  Querem comida, diversão e arte. Querem bebida, diversão, balé.

Chega de Saudade

Quem freqüenta bailes sabe que esses espaços nunca poderiam ser definidos como local onde as pessoas dançam embaladas ao som de uma música qualquer. O baile é muito mais do que isso: o que está em jogo ali são corpos se movimentando na procura de seu ritmo e cadência próprias, suando, pulsando, exalando vida e alegria, expressão. Misturando-se na embriaguez dos ritmos, dos sons, das músicas, dos embalos, dos vários conjuntos que compõem aquele quadro vivo de fantasia e de quase irrealidade. Quase irreal em se tratando de idosos que dançam, pois a sociedade se acostumou a não ver idosos atuantes e felizes dentro de um baile.

Nossa própria visão do idoso no baile era muito romântica. Imaginávamos ele um ser frágil, sentado, observando o que conseguisse e dançando com quem aparecesse, com o único intuito de passar o tempo e  alimentar um  certo saudosismo pelos anos que ficaram para trás.

Nossa visão mudou após algumas incursões aos famosos “Bailes da Terceira Idade”: Clubes Piratininga, Ipiranga, Cartola, Sesc… Os idosos que freqüentam os bailes são na sua maioria ousados. Vão para dançar, conversar, namorar, ficar; apertar a parceira, o parceiro, e trazê-los para bem juntinho, a fim de sentir seu cheiro e seu pulsar do coração. Sentados?? Quase não há ninguém nesta posição! A maioria está dançando, fazendo coreografias e rodopiando alegremente salão adentro.

A vida acontece ali e agora, naquele espaço do baile, para esses grupos de cidadãos dançantes. O baile é o espaço de socialização por excelência – há aulas para quem quer se aprimorar na maioria dos salões. Quem vai sozinho encontra amigos. Quem se aventura na dança esquece a artrose, a osteoporose, a dor na coluna. Esquece as contas a pagar, a aposentadoria aviltante, os familiares sem paciência. Esquece as perdas.

Quem se distrai perde o passo, sai do ritmo. É preciso estar ali por inteiro, cabeça e corpo. E para dançar bem é preciso estar em forma, claro! Por isso os dançarinos de salão costumam freqüentar hidroginástica, fazer alongamento, yoga.

E das amizades e do encontro que nasce nas pistas são levados a fazer passeios em grupo, ir a cinemas e teatros.

Tudo isso, claro, sem perder a disposição para atividades domésticas, como cuidar dos netos (de vez em quando, não todo dia, sem obrigação!), cozinhar, lavar e passar… Parece que a idade deu a essas pessoas mais experiência para aprender a planejar muito bem o tempo que se tem. Tratam o tempo como uma jóia, tal qual Kalil Gibran, poeta e pensador libanês (1883-1931).

Os bailes são ainda o lugar onde há pessoas de grupos diferentes, com interesses também distintos, um microcosmo da vida. Há os que timidamente aprenderam a dançar com o intuito de buscar uma parceira ou parceiro, há gente viúva (a maioria), separados, solteiros, namorados ou ainda aqueles casados que vão ao salão porque geralmente não têm um (a) companheiro (a) que compartilhe do gosto pela dança...

Também há aquele grupo formado por pessoas que entraram na dança e perceberam que levam jeito, e que jeito! Dançam divinamente, e é possível ficar ali só olhando e se deliciando com suas rápidas e certeiras passadas. São leves, dançam com um charme natural, com aquele dom que nos aproxima do divino.

Aqui se encaixam os figurantes do filme “Chega de Saudade”: charmosos, elegantes e nada modestos...

Outro grupo aparece para “ficar”, não querem compromisso, até porque querem variar e conhecer diversas pessoas, vivem aquela noite e aquela emoção, o momento presente fala mais alto. Não procuram uma parceira ou parceiro para toda vida, sabem muito bem o que querem e o por que  estão ali. Dançam razoavelmente bem, o suficiente para não dar vexame. Muitos preferem manter o anonimato, não querem ser descobertos nem filmados. Assumem ter uma vida secreta. Direito de cada um.

E há um outro grupo ainda que chama atenção: a turma do 171. Do que se trata? Estelionatários? São os homens que vão ao salão para perceber quem está precisando de elogios, quem é novo no pedaço e pode ser uma presa fácil para se tirar alguma vantagem. Também são charmosos, carismáticos e educadíssimos, transitam de baile em baile para não darem na vista.

Comparando com os bailes da terceira idade com os bailes de jovens, percebemos uma série de similaridades – como a paquera, o jogo da sedução, a vontade de impressionar o sexo oposto, a competição, o ciúme. Mas também notamos que a turma mais madura por vezes está muito mais empenhada em se divertir e em aproveitar o momento do que muitos jovens que vemos por aí.

A urgência em viver, talvez, os faça assim. Mas nós preferimos pensar que a experiência, os anos já vividos e a maturidade os transformou em seres humanos mais completos e felizes, que perderam o medo de ousar e de ir ao encontro de seus desejos. Assim como a mulher de Chico Buarque e Vinícius em Valsinha, os idosos do Lar Nossa Senhora da Conceição e os que conhecemos nos muitos bailes de São Paulo, não querem só comida.  Querem comida, diversão e arte. Querem bebida, diversão, balé. Querem prazer para aliviar a dor. E encontram tudo isso num Baile.

 

*Mestrandos em Gerontologia pela PUC-SP. Este texto foi elaborado a partir de uma pesquisa feita nos diversos Bailes de São Paulo para cumprimento de créditos em Atividade Programada para o Nepe (Núcleo de Estudos do Envelhecimento), que teve como tema “O Baile”.