Mochileira há 8 anos
Josefina Roldan, 82 anos, viaja sozinha

Por Gisnelli Bataglia Mincache

Nascida em 19 de junho de 1926, na Argentina, Josefina Roldan tem dois filhos e quatro netos. Atualmente vive em Necochea, em uma pensão. Sua moradia fica a 500 km de distância de seus familiares, que vivem em Buenos Aires, Argentina.

É incrível ver a disposição de Josefina que, aos 82 anos, relata sua experiência em viagens que faz geralmente de ônibus e trem pelo mundo afora. Não há em seu semblante desejo algum de parar, está sempre pensando na próxima viajem, ela simplesmente curte a vida.

Eu, na verdade, senti um pouco de inveja, dessa senhorinha (isto no sentido carinhoso), pois quando a vemos, ela parece ser tão frágil, pequena, caminha com bastante cuidado e atenção, mas ela é intensa...

Já viajou quatro vezes ao Brasil, Peru e Uruguai. Sozinha.

A conheci no dia 17 de julho, em visita à PUC-SP. Almoçamos com a professora Beltrina Côrte e por vários momentos quase engasguei com suas histórias... Josefina sempre quis conhecer uma universidade brasileira. Ela não conseguiu cursar o ensino superior. Fez os cursos primário, secundário, terciário. Foi secretária comercial e atualmente freqüenta as salas para terceira idade em seu país.

 


Da esq. para a dir. Beltrina, Josefina e Gisnelli, uma pausa na viagem

 

Por que mudou para tão longe e só?
Quando cheguei aos 80 anos da minha vida, achei que começava uma nova etapa e que isso significava uma mudança total. Por isso decidi deixar minha casa e me mudar para uma pensão/hotel com uma habitação grande e também com banheiro independente em uma cidade que fica há 500 km de onde morava.

Já conhecia esta cidade e havia observado que não havia políticas para os idosos, então pensei que ali poderia trabalhar para eles. Participo de um trabalho voluntário em um abrigo municipal fazendo teatro comunitário, narrando contos para crianças e gravando livros em CD para os visuais, somos um grupo de mais ou menos 5 pessoas e gravamos páginas alternadas dos livros, incorporando-me a um grupo de voluntários.

Organizei uma campanha preventiva de saúde com tomada de pressão, peso, altura, índice de glicemia e atividade física.

Atualmente penso em montar um grupo de octogenários que chamarei de “CLUBE DE OCTOPUS” com uma comunidade onde todos poderão colaborar com sua experiência e conhecimentos.

Dia-a-dia
Leio o jornal para ver se tem alguma atividade para participar. Há dias que vou ao teatro, outros vou gravar contos e há dias que não faço nada. Outros vou à casa da minha amiga, preparo a comida e jantamos juntas. Sempre tenho lugares a visitar ou coisas a comprar. Farei agora um curso de TAI-CHI-HUAN. Na primavera entrarei na natação. Todos os anos tomo banhos termais, possivelmente este ano irei em setembro. Minha próxima viagem será na Argentina mesmo, provavelmente entre outubro e novembro.

Agora descansarei um pouco desta última viagem para fazer um controle de saúde.


Josefina na frente da PUC-SP

 

O que significa viajar?
Para mim a maior experiência da viajem é ter conhecido gente de todos os níveis sociais, pois acredito que a melhor maneira de conhecer as pessoas é morar com elas, para saber como vivem, como pensam e como sentem. Pude conhecer um país com gente hospitaleira e solidária, e a maior experiência que tive destas viagens foi conhecer pessoas, seus costumes, sua maneira de viver. E a melhor experiência de todas é conhecer pessoas, lugares e histórias. Fui ao Museu do Ipiranga (SP) e conheci parte da história do Brasil, fui a teatros e confeitarias, conheci não somente o turismo, mas a vida de todos os dias.

Minha experiência de viagem me ensinou que em todo o lugar a problemática do idoso é igual. Por isto quero ser uma Bandeirante para meus iguais e demonstrar às gerações de futuros velhos que tudo é possível, que não há impedimentos para fazer e aprender coisas novas, ainda que a memória seja fraca ou que mesmo soframos alguma doença e assim lutar contra o terrível mal da discriminação.

O que a motivou a ser mochileira aos 82 anos?
Foi fazer algo diferente, pois fazer sempre a mesma coisa cai na rotina, é como se fosse uma força se renovando, a pessoa acorda na mesma hora, janta na mesma hora e dorme na mesma hora. Conheço pessoas que não viajam porque não conseguem dormir a não ser na  sua própria cama... Algumas pessoas carregam até seus talheres.

Qual foi seu roteiro?
Inicialmente meu roteiro era Buenos Aires, Búzios, Salvador, Búzios, Buenos Aires. Mas recebi indicações para conhecer a mãe de um amigo em Búzios, então poupei dinheiro viajando de ônibus. Pude conhecer um novo amigo em Itapetininga, fiquei uma semana e fui até Ilhéus, de  lá para Salvador. Conheci o Pelourinho; e de Salvador à Búzios, e de Búzios à São Paulo, de São Paulo à Argentina. Saí da Argentina dia 16 de junho e retornei no dia 23 de julho.

Fiquei 4 dias em Búzios e 5 dias no Rio. Ninguém conhece o Rio em 3 ou 5 dias, conheci o Jardim Botânico, o Zoológico que não são turísticos. Agora que sou idosa decidi que não comprarei nada para ninguém, somente alguns chocolates, mas confesso que gostaria de ter ido a alguma loja.

Quais foram as barreiras encontradas como pessoa idosa?
Nenhuma barreira em particular. Todo o mundo se admira ao ver uma mulher de 82 anos viajar sozinha da Argentina ao Brasil e querem ajudar. Tive alguns problemas, como um ataque de artrose no pescoço que não poderia me mover, mas nem por isto deixei de viajar. De Salvador a São Paulo comi um peixe que não devia, uma imprudência, e aí não pude me levantar. Confesso que me apavorei, e nunca demonstro. Mas disse à minha amiga e esta me levou ao hospital. Lá me deram uma medicação que me fez sentir melhor. Agora tenho bastante cuidado com o que como. Cheguei até a pensar que deveria voltar a Buenos Aires, mas se voltasse todos diriam: “está vendo?”. As pessoas me consideram louca, inclusive minhas amigas idosas.  Há muito preconceito, das próprias amigas, quer acham que por serem idosas não mais podem viajar. Não me deixei levar por estas idéias, pensei: “vou esperar uns dias, pois como vou voltar dizendo que estou com diarréia? Risos e mais risos.

O que recomenda para os idosos em relação à alimentação nas viagens?
Que tenham muito cuidado com o que comem, principalmente comidas quentes, o melhor é comida fria, legumes, verduras e nada muito temperado, muitas frutas.

Um dos problemas dos idosos é a digestão e a produção das enzimas, então uma digestão para o idoso deve ser de 3 a 5 horas, de preferência não jantar, ou comer frutas e saladas, a comida mais importante é o almoço. Caminhar muito, caminhar olhando as casas, as plantas, os lugares, olhar as diferentes paisagens, é aí que se compara a diferença entre um lugar e outro, é assim que se desfruta uma boa viagem.

Em relação a hotéis, ônibus e infra-estrutura, o Brasil está preparado para o turismo com os idosos?
O Brasil é um exemplo de turismo receptivo. As informações são bem orientadas, são muito hospitaleiros, nas pousadas, nos hotéis, sempre perguntam se estamos sendo bem servidos. Mas a gente recebe o que dá; se é amável, simples, sem nenhuma pretensão, certamente seremos bem acolhidos. Nós, argentinos, somos muito orgulhosos, prepotentes, achamos que  somos os melhores do mundo em todos os lugares do planeta e por isso os argentinos são mal vistos.

Mensagem
O corpo envelhece, mas o espírito deve permanecer firme, cheio de energia, e boas vibrações para transmiti-las a todos aqueles que nos rodeiam, sejam crianças, adultos ou velhos. Quero contagiar com meu entusiasmo, meu otimismo, meu amor à vida, meu senso de humor a todos os mais velhos do mundo.

Recomendações
Todas as pessoas ficam sem fazer nada, esperando... Devem sacudir “a poeira dos anos” e começar uma nova vida. Não ficar esperando a morte e sim caminhar até que ela chegue.

“No viví para la muerte sino hacia la muerte.”