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Aos 84 anos, a dona de casa Acyr Magalhães deixa todo mundo animado. Ela faz parte de um grupo que decidiu ficar em forma de qualquer jeito. Ela vive do outro lado da Baía de Guanabara, no centro de Niterói, uma das cidades com o maior percentual de idosos do estado do Rio de Janeiro. Sofre as agruras que toda pessoa de idade enfrenta nas grandes cidades, como São Paulo ou Rio de Janeiro, em plena Praia de Copacabana. O tempo passa para todos e provoca mudanças inevitáveis no nosso corpo: dificuldade para ver e ouvir, perda de equilíbrio e força nos músculos, falta de atenção. E aí, um passo em falso pode ser um perigo. Por isso, os mais velhos estão cada vez mais preocupados com os movimentos simples do dia-a-dia. Eles querem ter liberdade, mas com segurança. Fisioterapeutas e professores de educação física montaram uma pista cheia de obstáculos. É para a aula de prevenção de quedas, criada pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e adotada pelo Programa Viva Idoso, da prefeitura de Niterói. Uma simulação dos problemas mais comuns que os idosos enfrentam nas ruas, a toda hora. "A gente orienta a nunca passar por cima de um bueiro, sempre desviar. Na faixa de pedestre, observar o sinal de trânsito para atravessar", diz o professor de educação física Hugo Leonardo Prata. Treinar, treinar, se conscientizando o tempo todo das armadilhas do dia-a-dia. O Ministério da Saúde considera que as quedas e suas conseqüências já estão assumindo as dimensões de uma epidemia. Por ano, 93 mil idosos são internados no Brasil por causa de tombos. "Eu caí umas sete vezes", conta a dona de casa Juraci Alice Lobo, de 71 anos. "Eu perdi o equilíbrio e fui de cara no chão. Abri a testa, o nariz todo, os dentes da frente e o joelho", revela a aposentada Maria Ercília Baronto Flores, de 85 anos. Dolorosas lembranças. Dona Maria Ercília já sofreu tanto com as quedas. Caiu ao descer de um ônibus, por causa de um motorista impaciente, e tropeçou na rua. No Prev-Quedas, mais uma lição: ela está aprendendo que deve tentar proteger a cabeça quando perceber que vai cair. O pessoal do Prev-Quedas ainda não tem um número oficial, mas pelo retorno dos alunos, a redução dos tombos de quem freqüenta o programa foi de 80%. "Tanto as cidades quanto as pessoas não estão preparadas para lidar com o idoso. As cidades não estão preparadas para atender às necessidades dos idosos. E eles reclamam muito disso", conta a professora de educação física Sabrina Ferreira. Uma briga justa e que a cada dia ganha mais adeptos em Niterói. Só no Viva Idoso, pelo menos 1,5 mil pessoas participam de várias atividades. Há uma prática intensa de exercícios de equilíbrio, força, concentração e alongamento. Para muita gente, são movimentos simples. Não foi para o aposentado Wilson Pires de Oliveira, de 70 anos. Ele anda triste com a morte da mulher, há apenas seis meses. Mas o primeiro baque veio cinco anos atrás, quando ele teve um derrame. O aposentado ficou com muitos problemas. "Deu vontade de morrer. A pior coisa na vida é a gente se sentir inútil, e eu estava me sentindo inútil. Eu nunca gostei de depender de ninguém, inclusive para tomar banho. Isso foi horrível", conta seu Wilson. Pai de duas filhas e com dois netos já grandes, seu Wilson se sentiu perdido. O comerciante ativo, que já havia sido dono de duas lojas e chegou a viajar pelo mundo, não sabia o que fazer. "No princípio, eu fiquei praticamente imóvel, não queria nada. Elas ficavam me incentivando", conta o aposentado. No Viva Idoso ele encontrou incentivo para recuperar não só os movimentos do corpo, mas também a fala e a voz, que estavam comprometidas por causa do AVC. "Ele tinha muita dificuldade. Tinha dificuldade para falar e completar palavras. Ou seja, foi um trabalho extremamente focado na fonoaudiologia. Nós conseguimos, através da música, esse milagre", comemora a professora de canto Abigail de Souza Silva. Milagre à custa de dedicação e trabalho. A professora não tem dúvidas: a música é um santo remédio não só para a voz, mas para a dicção, memória e auto-estima. Mudanças que seu Wilson vivenciou. "Foi em sete meses. Parece impressionante, mas é real. Eu olho para ele e vejo aqueles olhinhos azuis brilhando, como se dissessem ‘Eu agradeço’. Mas ele não sabe o quanto eu agradeço a ele também por ter acreditado", revela Abigail. Quando a gente está com as fraquezas expostas, readquirir a confiança perdida é sempre um desafio. E com a idade, isso pode ficar ainda mais difícil. Mas quando essa confiança é reconquistada, os laços entre professores e alunos se estreitam. O professor de dança Luciano Mota diz que está apaixonado pelos alunos. E a turma garante que o amor é correspondido. O professor fica emocionado com tanto carinho. Não parece, mas a mesma dona Acyr o consola já passou por muita coisa na vida. Filha de uma família humilde, ela perdeu os pais muito cedo. O marido morreu há 20 anos. "Minha família se resume à minha filha e ao meu neto. Não tenho mais ninguém. Meu filho morreu em 1985 e minha filha morreu em 2000", lembra a dona de casa. A filha, Márcia, e o neto, André, são tudo o que dona Acyr tem hoje. Eles estão sempre de olho nela e gostam de saber que essa mãe e avó é uma mulher que não desiste nunca. "Mesmo que eu sinta dor, eu não falo. Não reclamo mesmo e não gosto de ficar perto de quem reclama, porque acho que isso pega", diz dona Acyr. É difícil não ficar por aí reclamando, ainda mais para quem tem 84 anos. Só que dona Acyr tem um jeito especial, muito especial, de ver a vida. "Deixo o que passou para trás. Lembro, mas lembro só com saudade, não com tristeza", afirma. Dona Acyr, Doralice, seu Armando e tantos outros. A escolha do hip-hop revela o quanto eles querem e podem romper as barreiras entre gerações, entre o velho e o novo, entre passado e presente. "Eu sei que meu corpo está velho, mas acho que aqui dentro ainda não tenho nem 20 anos", finaliza dona Acyr. Chega um dia em que aquela segurança que adquirimos com a maturidade começa a ir embora, um pouco a cada dia. A vida parece fugir ao nosso controle. Por que não somos mais os mesmos? A aposentada Zailda Silvestre de Melo ainda não completou 75 anos. Há seis, recebeu o diagnóstico: Mal de Alzheimer. Por trás do olhar calmo, ela guarda um passado rico em alegrias e sofrimentos. Mas, hoje, essa viúva, mãe de quatro filhos e avó precisa ser vigiada e cuidada como uma criança. As mudanças que percebemos no funcionamento do nosso cérebro, a partir dos 70 ou 80 anos de idade, na verdade, têm início muito antes, quando temos apenas 20 ou 30 anos. É nesse momento que as células do cérebro passam a envelhecer. E quando é que essas alterações, os lapsos e esquecimentos, passam a representar um sinal de alerta? Segundo os médicos, é quando elas interferem diretamente no nosso dia-a-dia e atrapalham muito a nossa rotina. "Perda de memória, comprometimento no dia-a-dia, alterações comportamentais, podendo evoluir para comprometimento de linguagem, capacidade de julgamento e capacidade de crítica", explica Ivan Okamoto, diretor do Núcleo de Envelhecimento Cerebral da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Ainda não se conhece totalmente as doenças degenerativas que atingem nosso cérebro. Mas a ciência tem pressa, porque, como estamos vivendo cada vez mais, elas também vão ficando cada vez mais freqüentes. Antigamente, as pessoas que sofriam desses males eram chamadas de "esclerosadas". Mas os médicos sabem, agora, que os transtornos que ocorrem na terceira idade podem ter várias causas. E a metade dos pacientes sofre do Mal de Alzheimer. No caso de Zailda, a família percebeu que alguma coisa estava errada logo que ela ficou viúva e muito deprimida. "'Seu marido morreu' foi a pior coisa que eu já escutei na vida. Deus me livre. Eu gostava demais dele", revela a aposentada. "A evolução foi assim: de uma mãe que era matriarca e que começou a perder a memória e falar algumas coisas. Mas, de repente, ela começou a parar de desenvolver mesmo as coisas. E isso aconteceu rápido. Ela passou a não fazer café, não fazer arroz e não fazer almoço", conta a gerente de vendas Rosa Maria de Melo, filha de dona Zailda. Dona Zailda hoje se trata no Núcleo de Envelhecimento Cerebral da Unifesp. Com o avanço da doença, há uma perda progressiva de neurônios. Os testes indicam aos médicos quais as áreas do cérebro estão afetadas. Ainda não se descobriu a cura, mas já é possível tratar o paciente. "São medicações no sentido de estabilizar a doença e na tentativa de oferecer mais qualidade de vida para o paciente e de se ter uma progressão lenta", esclarece doutor Ivan Okamoto. O Mal de Alzheimer tem um forte componente genético e não se conhece uma forma de prevenir a doença. Os cientistas acreditam que levar uma vida saudável pode ser uma ajuda valiosa. O avanço da doença é inevitável, mas o carinho e a proteção da família tornam esse processo menos doloroso. Foi por isso que as filhas concordaram em deixar dona Zailda participar do Globo Repórter. Ao contrário do que se acreditava no passado, estudos recentes mostram que o melhor para o paciente não é ser internado em uma clínica, mas continuar em casa. "Esse paciente é muito melhor tratado na sua própria casa, porque ele está cercado das suas coisas. Ele mantém uma memória residual, em que consegue ter uma noção. Então, o paciente se sente mais seguro dentro da sua própria casa. O carinho familiar minimiza as diversas dificuldades que esse paciente pode apresentar", diz Ivan Okamoto. Dona Zailda garante que adora viver. "A vida tem umas coisa ruins e outras boas, porque não há obrigação de ser tudo junto. Eu tenho minhas filhas, tenho cachorro, tenho gato. Eu tenho tudo", declara a aposentada. Rosa diz que sente saudades da mãe, mas que agora tem uma filha, cujo futuro é hoje. "Eu vou pensando no dia-a-dia. Não estou mais presa ao futuro. Acho que nem vale muito a pena ficar muito presa ao futuro, depois da grandeza que é você cuidar de alguém que cuidou de você a vida inteira", finaliza. As conseqüências seriam imprevisíveis. Quarenta minutos depois, termina a cirurgia e os médicos resolvem chamar os filhos, que estão muito preocupados. A filha de dona Angélica, Rosemeri de Matos, tem motivo para estar tão emocionada. Dona Angélica já não reconhecia os filhos, mal respondia a perguntas e saiu da cirurgia consciente. Esta é mais que a história de uma cirurgia no cérebro bem-sucedida. Primeiro, para a medicina este é um procedimento considerado novo, que vem sendo desenvolvido nos últimos anos. Segundo, ele está acontecendo longe dos grandes centros. Itaperuna é uma cidade de clima quente, construída no meio de um vale, com pouco mais de cem mil habitantes, no noroeste do estado do Rio de Janeiro. O hospital atende pelo Sistema Único de Saúde (SUS), que paga pela cirurgia. Apreensão, medo de morrer ou de ficar com um dano permanente. A notícia de uma operação no cérebro sempre assusta, mas, com a nova técnica, os médicos conseguem deixar a família e os pacientes bem mais tranqüilos. Afinal, a cirurgia é feita sem nenhum corte. A anestesia é local, e a pessoa pode voltar para casa em menos de 48 horas. Essa é a esperança da aposentada Anna Celvo Mazzolai, de 69 anos. Agricultora, ela criou sete filhos com a vida na roça. Com essa mesma força, ela vai do quarto para a sala de cirurgia andando. Ela vai operar um aneurisma no cérebro. "Eu estou tranqüila. Não tenho medo. Entrego a Deus", afirmou. Foi confiante que ela se deitou na mesa de cirurgia. Os médicos sabiam que tinham um desafio pela frente. "A complexidade do caso dela está relacionada ao tamanho e à localização do aneurisma. Ele está localizado em uma estrutura óssea, na base do crânio e tem uma dificuldade técnica e cirúrgica elevada. Por causa da localização do aneurisma a cirurgia pelo método tradicional seria muito mais complicada. A abertura do crânio teria que chegar a uma estrutura óssea muito rígida. Isso alongaria o tempo cirúrgico e exigiria técnicas que dificultariam muito o tratamento dela", argumentou o neurocirurgião Orlando Maia. Dona Anna ficou o tempo todo acordada. A anestesia foi local. Pela virilha, entrou um cateter: uma sonda, que funciona como uma espécie de guia que navega por dentro das artérias até chegar ao cérebro. O cateter foi avançando lentamente e atingiu o ponto onde está o aneurisma. Começou, então, a segunda parte da cirurgia. Um fio de platina com a espessura de dois fios de cabelo foi levado, pela sonda, até o aneurisma, a bolsa de sangue que se formou no cérebro de dona Anna. "Estou dentro do aneurisma e vou começar a enrolar esse fio metálico, conhecido como micro-mola. Ela vai tomar a forma do aneurisma e começar a preencher ele por completo", descreveu o neurocirurgião Orlando Maia. A calma da paciente ajudou os médicos. Fio a fio, o aneurisma foi sendo preenchido. O sangue voltou a fazer o caminho normal e a passar apenas pela artéria. A bolsa foi isolada. O aneurisma está todo preenchido, ela não corre mais o risco de nova hemorragia. "O aneurisma está todo preenchido de micro-molas de platina, o que impede a entrada de sangue dentro desse aneurisma e, consequentemente, o risco de nova hemorragia. A cirurgia foi um sucesso. Está resolvido o problema dela", declara o médico. Dona Anna revelou a primeira coisa que faria quando saísse do hospital: "Andar bastante e cuidar da minha horta. Vou plantar uns pezinhos de alface, de couve, colher feijão de vara, quiabo". Dona Anna não corre mais o risco de ter um derrame cerebral. Não é que a danadinha conseguiu? Exatamente um mês depois da cirurgia, dona Anna foi encontrada em casa com as mãos na enxada, em casa, na zona rural de Rio Novo do Sul, no Espírito Santo. "Cheguei em casa, às 20h, e não pude fazer nada naquele dia. No outro dia, eu levantei, cuidei do meu serviço, arrumei minha casa e depois vim para a horta. Comecei a arrancar os pezinhos de mato, fui nas plantas e comecei a arrancar, até hoje", conta a senhora. A couve está quase no ponto. Daqui a pouco, tem tomate maduro no pé. Mas a maior colheita, dona Anna está fazendo agora: a colheita da saúde. "A minha vida vai ser normal, como eu queria. Vou passear, trabalhar, fazer uma coisa e fazer outra. Vou viver sem medo", conta dona Anna, que enfrentou um grande perigo e escapou de uma estatística assustadora. Quando um aneurisma se rompe e provoca um derrame, metade das vítimas acaba morrendo se o tratamento não for rápido e correto. O risco é ainda maior para os mais velhos. Só no ano passado, mais de 17,5 mil idosos morreram vítimas de AVC. É natural que a idade vá deixando o organismo menos resistente. Por isso, os médicos dizem que a turma da terceira idade é a maior beneficiada pela cirurgia sem bisturi. Mas é preciso saber que a nova técnica não substitui totalmente o método tradicional. Cada caso tem que ser estudado. "Se o procedimento é isento de incisão cirúrgica isso deixa de ter uma porta de entrada, consequentemente minimiza a possibilidade de infecções pós-operatórias", explica o neurocirurgião Carlos Maurício Primo de Siqueira. Viver mais e melhor. Um sonho que o aposentado Daniel Cabral Botelho está realizando, aos 70 anos, depois de passar por um baita susto por causa de um aneurisma. "O caso era grave, com muito risco de vida. Eles avisaram para a minha esposa e para a minha filha. Eles ficaram preocupados se eu ia ficar nervoso, o que prejudicaria inclusive a cirurgia", conta. A cirurgia foi feita em Itaperuna, há um ano e meio. Os resultados? Basta olhar. Seu Daniel está cheio de vida. Ele tem 11 filhos, dois bisnetos e disposição para ajudar na loja de autopeças de um amigo. É muita energia. "A atividade é o segredo. Por isso, eu sou novo e bonito assim. Não me deixo levar pela idade. Ninguém deve se deixar levar", aconselha o aposentado. Corrida contra o envelhecimento Ela se queixa de dores na coluna, mas sobe e desce todo dia a escada da oficina de costura. "Quando eu estou no andar de cima, esqueço de tudo e de dor, de trabalho, de nada. Quanto mais rápido eu fizer é para mim melhor. As noivas adoram", destaca dona Xinda. A cada 15 dias ela faz um vestido de noiva, a especialidade que a fez famosa em Petrópolis, na Serra Fluminense. Sob o sol forte do Rio de Janeiro, um grupo de atletas enfrenta um treino puxado. O atleta Francisco Cortez , de 78 anos, acompanha o ritmo. Tem paixão pela corrida. Ele começou na metade do século passado, em 1948, e não parou mais. "A velhice está dentro, não está fora. Por fora, eu tenho 78 anos", compara seu Cortez. A maturidade não fez dele um corredor aposentado, ao contrário. "Na minha faixa etária, sou campeão brasileiro de 100, 200 e 400 metros. Isso foi desde 2006. E como só vai ter um campeonato até o fim do ano, eu sou o campeão brasileiro na faixa etária dessas três provas, que são as três de mais velocidade", orgulha-se. Raquel foi experimentar o vestido. Dona Xinda mexe aqui, ajeita ali e vai dando forma ao sonho de mais esta noiva. Lá em baixo, na sala, o aposentado Mário dos Reis, de 86 anos, vive alheio à agitação alegre da oficina. Ao contrário da mulher, ele se aposentou há 20 anos e nunca mais trabalhou. "Eu passo o dia fazendo nada, só pensando. E isso me incomoda muito", reclama. Seu Francisco nunca pensou em parar. Não abandonou o esporte nem quando o coração lhe deu um susto: teve um enfarte. "Eu tinha problemas de colesterol muito sério, congênito, e não sabia. O colesterol estava lá por dentro, só roendo", conta seu Cortez. Teimoso, aos poucos, voltou aos treinos. Quando contou para o cardiologista, ouviu dele: "Se você acha que pode... Só vamos combinar uma coisa: cada vez que você ganhar uma medalha, traga para eu ver", lembra o atleta. Dona Xinda e seu Mário vão completar 60 anos de casados. Tiveram quatro filhos e sete netos. Enquanto ele chora as recordações do passado, ela, cheia de vitalidade, prepara a festa das bodas de diamante. "Nunca tive melancolia pelo tempo que passou. Hoje é o que vale", comenta dona Xinda. Seu Cortez continua cumprindo o acordo com o médico e garante que, correndo, encontrou a receita para envelhecer com saúde.
"Eu nasci em 10 de abril de 1933, em Samo di Calábria, na Itália. Aos 8 anos vim para o Brasil. Isso foi em 1941", lembra dona Magda Sadalla, de 75 anos. Psicóloga e professora, ela gosta de escrever e faz desse hobby uma forma de manter vivas as memórias da família. Dona Magda e o engenheiro Felício Sadalla, de 79 anos, têm 51 anos de casados, seis filhos, oito netos e uma longa história de amor. Seu Felício é engenheiro. Quando ele e a mulher começaram a sentir o peso da idade, foi na Oficina da Memória da Universidade de São Paulo (USP) que foram buscar reforço. "Com o avanço da idade, realmente a memória começa a falhar. Mas é preciso treinar", comenta seu Felício. "Eu não lembro onde guardei as coisas", lamenta dona Satoko Tamaki, de 66 anos. "O próprio esquecimento me incomoda. Não gostaria de ficar esquecendo as coisas", reclama dona Jandira Iscarlati, de 74 anos. Com apenas 67 anos, o aposentado José Pavão viveu uma experiência dramática. Um dia, estava no meio da rua e, de repente, não se lembrava mais quem era, nem o que fazia ali. Foi salvo por um número de telefone que encontrou no bolso. "Eu liguei, me identifiquei e me perguntaram onde eu estava. Aí eu falei: 'Quem é você'? E ela respondeu: 'Maria Tereza!’ Aí eu lembrei", conta o aposentado. Na Oficina da Memória, a psicóloga Maria Lúcia Beger aplica vários exercícios para reforçar a atenção e a concentração. Com a memória estimulada, é mais fácil reter as informações. "Eu consegui lembrar das figuras no exercício usando a estratégia da associação", conta dona Zelinda Gaspar. Pelo jeito, os exercícios dão resultado. "Eu melhorei bastante, me deu uma nova visão, atenção, percepção, observação. E isso é importante", ressalta dona Lucia Batista Silva. Dona Magda já faz compras no supermercado sem precisar de uma lista escrita e revela como consegue guardar o nome das pessoas: "Eu estava tentando lembrar o nome do maestro do coral da minha filha. O nome dele é Hermes Coelho. Agora eu sei falar. Então, eu pensei: vermes do coelho. Ele que não se ofenda, mas eu não esqueci mais". A assistente social Maria Lúcia Beger, no entanto, diz que mais do que se exercitar é preciso ter uma atitude positiva diante da vida. "Fazer exercícios, estimular, ter motivação para a vida, ter atividades prazerosas, não parar, não ficar isolado. O idoso tem a característica do isolamento social, e isso é prejudicial para a sua memória", diz. Além de não parar, a coordenadora da oficina, a enfermeira Helena Watanabe, diz que é importante também estar sempre aprendendo coisas novas. "Quando a gente começa a perceber que começou a automatizar, vamos para um nível mais difícil, porque temos que fazer atividades que são desafiadoras para o cérebro", esclarece. É o que seu Felício e dona Magda, já aposentados, fazem o tempo todo. Além de exercícios físicos diários, seu Felício não larga o violino. Enquanto isso, dona Magda escreve.
Dona Maria da Glória conta que ninguém acredita na idade que tem. Vaidosa, viúva e sem filhos, ela decidiu vir para o Brasil depois de uma grande desilusão amorosa. Até hoje faz o trabalho de casa sozinha. "Gosto de ser independente", afirma. Independência é mesmo a palavra-chave. Dona Maria da Glória foi buscar a dela há mais de dez anos no Centro de Cuidado Integral à Pessoa Idosa (Cipi). O serviço, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é dedicado ao idoso frágil, um conceito ainda novo na medicina. "Basicamente, o idoso frágil é um idoso complexo do ponto de vista dos seus problemas de saúde. São múltiplos problemas de saúde, com graus variados de gravidade", aponta o coordenador do Cipi, Roberto Lourenço. Múltiplos problemas, muitos profissionais para buscar a solução: médicos de várias especialidades, fisioterapeutas, fonoaudiólogos. A cada mês, 1,5 mil pacientes passam pelas salinhas do centro. Todos encaminhados por hospitais ou postos de saúde. Dona Rosa, de 77 anos, é viúva. Vai acompanhada da filha, a costureira Regina Célia de Andrade, que cuida dela. O dia-a-dia é investigado pela assistente social. Perdas, vida familiar, estado de espírito. Foi lá que dona Rosa descobriu que estava tomando remédios demais. Eram 13 medicamentos, alguns três vezes ao dia. "Quanto mais remédio a pessoa toma maior a chance dos efeitos adversos aparecerem. No caso dela, uma das coisas mais marcantes é a história de queda. Ela estava caindo muito. Tomava vários psicotrópicos, remédios que agem no sistema nervoso central que sedam, dão tonteira, alteram o reflexo, alteram o equilíbrio e dão fraqueza muscular", explica a geriatra Mariângela Perez. O caso de dona Rosa e dos outros pacientes são sempre discutidos por todos que trabalham no Cipi. "A queixa principal são dores articulares múltiplas. Ela tem dor em todas as articulações questionadas, uma tristeza e um desânimo, que ela relata como tendo há 30 anos", conta a médica Karla Ataíde. "Agora ela está bem mais equilibrada. Está melhor, até um pouco mais lúcida também, presta mais atenção", comenta a filha de dona Rosa. Para ajudar a mãe, Regina fez cursos de cuidadora no centro mesmo. "Nós temos o entendimento de que quem cuida tem que estar bem para cuidar", diz a assistente social Angélica Sanchez. A família é mesmo muito importante. Ela ajuda o médico a identificar quem é frágil e quem é saudável. Todo mundo, quando fica mais velho, pode ter um probleminha ou outro de saúde. O idoso saudável é aquele que, apesar de tudo o que aparece com a idade, se mantém independente, capaz de cuidar da própria vida. Mas é bom saber que a fragilidade não surge de uma hora para outra, dá vários sinais. "A tristeza, a falta de interesse por coisas novas, por fazer atividades novas, a excessiva sonolência ou a perda da capacidade de conciliar o sono adequadamente podem ser indicadores de quadros depressivos, o que identifica também o idoso frágil", descreve Roberto Lourenço. O aposentado Mário de Freitas, de 73 anos, por exemplo, quando chegou ao centro mal conseguia andar. Com o tratamento, já está deixando para trás o quadro de fragilidade. "Já estou caminhando. Daqui a uns dias vou estar jogando futebol", adianta. A prata da casa. É assim que dona Maria da Glória gosta de ser chamada no Cipi. Toda satisfeita, ela mostra como chegou ao centro. "Eu andava toda curvada e não podia endireitar-me de forma nenhuma. Agora não", lembra. Espigadinha é pouco! Ela mostra como encosta as mãos no chão sem flexionar os joelhos. Para se manter saudável e independente, dona Maria da Glória não abandona o tratamento. "Eu apanho quatro ônibus, dois para lá e dois para cá, para chegar aqui, mas nunca falto. Ontem, pelo telefone, eu disse que faltaria porque ia ao salão. Ainda não perdi a vaidade", comenta, rindo, dona Maria da Glória. Depois disso, tem início uma progressiva decadência. A cada ano, vamos perdendo 1% de nossas capacidades. Os músculos perdem a força, o coração, os pulmões e os rins já não funcionam como antes. A fórmula eterna da juventude continua desconhecida, mas já se sabe que, para ter uma boa velhice, é preciso prepará-la com muita antecedência. "Eu tento manter uma atividade física regular, pelo menos umas três vezes por semana", conta o estudante Pedro Casoti. "Eu parei de fumar. Procuro beber menos, somente nos finais de semana. Faço uma alimentção mais equilibrada e pratico exercícios físicos", diz a estudante em Maria Fernanda de Lima. "Se você for uma pessoa que não se cuida, que não faz medicina preventiva, que não cuida da pressão, não cuida da alimentação, não cuida de exercício, lá na frente, seu organismo vai pagar por isso", alerta Ivan Okamoto, coordenador do Núcelo de Envelhecimento Cerebral da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Manter nosso organismo no melhor estado, com hábitos saudáveis e cuidados médicos quando necessário. Mas o principal é acreditar no amanhã, ter projetos. Entender que a vida, em todas as suas etapas, vale a pena ser vivida.
Making of - Os desafios da longevidade
Primeiro, a boa notícia: estamos vivendo cada vez mais. Ótimo! Agora, a pergunta: como vamos viver esse tempo que ganhamos? Em que condições chegaremos aos aniversários de 80, 90, 100 anos? O que a ciência está desenvolvendo para nos garantir uma velhice saudável e prazerosa? E lá fomos nós, tentar responder essas e outras perguntas... Primeira parada: Ambulatório de Alzheimer da Universidade Federal de São Paulo. O que se vê, logo na sala de espera, é de cortar o coração. A vontade é desistir, cair fora, mas ficamos. E ficamos para ver aqueles homens e mulheres que construíram uma vida, trabalharam, amaram, tiveram filhos e netos e agora têm o cérebro que vai desligando pouco a pouco suas conexões, como um quadro de luzes que vai se apagando até restar apenas uma grande e impenetrável escuridão. Ao lado deles, maridos, mulheres, filhos, investidos no papel de cuidadores, função ingrata, penosa... É difícil olhar esses pacientes e encarar o fato de que para eles não há cura, não há futuro, não há esperanças... Segunda tarefa, muito mais fácil: fomos ao encontro de gente que aos 70, 80, permanece ativa – física e mentalmente. Trabalho, esporte, projetos de futuro, prazer em viver. Sábia gente! Descobriram a fórmula de seguir em frente, sem lamúrias, sem melancolia! Na terceira etapa, uma descoberta agradável: uma oficina de memória, para consertar “panes” que acontecem nos cérebros idosos, mas também nos jovens. Exercícios, quase brincadeiras, recompondo lembranças, facilitando o cotidiano, trazendo de volta a segurança perdida. Belo trabalho! Como sempre, gostaríamos de ter feito mais, investigado novas possibilidades, respondido a mais perguntas. Mas, de outra parte, pudemos aprender uma lição, para não esquecer: velhice não é sinônimo de doença, infelicidade e amargor. Ela pode ser, sim, uma etapa de prazeres e descobertas que vale a pena ser vivida! A lição de cada um, por Hélter Duarte Anna, Acyr, Maria da Glória, Armando, Daniel, Wilson... Tantos nomes, tantas histórias. Universos diferentes, com riqueza de alegrias e tristezas, dores e alívios, medo e coragem. Não foi apenas uma reportagem ou uma gravação de um programa de televisão. Acabou sendo um profundo mergulho no mundo de cada uma dessas pessoas. Dona Acyr Magalhães, por exemplo. De cara, ela conquistou toda a equipe com o sorriso carinhoso e a alegria de viver. Aos poucos, fomos descobrindo suas histórias. Muitas delas extremamente dolorosas, como a da perda do marido e de dois filhos. Mesmo assim, ela deu uma fantástica volta por cima. Não que ela não sofra. Não é isso. É que dona Acyr descobriu que a vida é maior do que tudo, maior até do que a morte. Ela preferiu se concentrar no que tem hoje – uma filha e um neto – e não no que perdeu ontem. Vocês se lembram da dona Maria da Glória, a portuguesa de 92 anos? Ela não tem ninguém no Brasil. Vive sozinha e é completamente independente até hoje, mesmo tendo um problema sério em um dos joelhos. O segredo de dona Maria da Glória é simples: não se entregar nunca. Dona Anna Cervo Mazzolai, do Espírito Santo, operada em Itaperuna, criou sete filhos com o trabalho na roça. Ela contou que, quando ia para a plantação de café, levava os bebês, seus filhos, dentro de uma peneira de palha. Eles ficavam embaixo de uma pedra, a única sombra do lugar, enquanto ela lutava pela sobrevivência. O almoço das crianças era feito com uma papinha de fubá com caldo de feijão. Mágoas, tristezas? Ela diz que não conhece esses sentimentos. Tem orgulho de ter conseguido criar os filhos. Medo? Medo ela tinha, até um mês atrás. Medo de que o aneurisma rompesse e levasse sua vida. Agora, sem risco de ter um AVC, dona Anna se sente feliz e, mesmo com todas as dificuldades que passa, ainda agradece por estar viva. Uma lição atrás de outra. Assim foi o trabalho nesse programa que mostra os novos velhos do Brasil. Eles estão vivendo mais, muitos conseguem viver melhor com os avanços da ciência. Mas a principal mudança talvez seja no modo de encarar o tempo, que não perdoa e deixa suas marcas no corpo. Disso, não temos como fugir. Já em relação à idade da nossa mente e das nossas emoções, a escolha pode, sim, ser de cada um...
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