Poucos e bons
Com a taxa de fecundidade em 1,8 filho por mulher, a população brasileira cresce mais devagar. Isso melhora a renda e o padrão de vida no país

Paula Neiva e Roberta de Abreu Lima

Durante muito tempo os brasileiros conviveram com uma ameaça nascida nos boletins dos censos demográficos. O rápido crescimento da população do país, que aumentou dez vezes entre o início e o fim do século XX, apontava para um futuro em que faltariam alimentos, moradia e infra-estrutura para tanta gente. A bomba populacional foi um risco real para o Brasil. Foi ela que sustentou uma infinidade de apostas sombrias sobre o país. Sem que se prestasse muita atenção, porém, a bomba foi perdendo força à medida que um número cada vez maior de mulheres escolheu ter menos filhos. Essa tendência começou nos anos 70. Agora, quase quarenta anos depois, a bomba populacional acaba de ser oficialmente desativada. É uma grande notícia para os brasileiros. Uma pesquisa feita pelo Ministério da Saúde mostra que a taxa de fecundidade do país, ou seja, a quantidade de filhos que cada brasileira gera, em média, chegou a 1,8 – contra 6,3 nos anos 60.

A taxa de fecundidade é o fator que mais influencia a taxa de crescimento populacional de um país, juntamente com a taxa de mortalidade e a migração. Quando a taxa de fecundidade de um país cai abaixo do patamar de 2,1, a população cresce em ritmo cada vez mais lento e, depois de duas ou três décadas, passa a diminuir de tamanho. É o que vai ocorrer com o Brasil. Todos os países desenvolvidos, em algum ponto de sua trajetória, tiveram quedas expressivas em seus índices de natalidade. Na Europa Ocidental, nos Estados Unidos e nos países ricos da Ásia, as taxas de fecundidade são hoje iguais ou menores do que 2,1. A taxa de fertilidade brasileira é agora igual à da China, que há tempos limita o número de filhos a um por família. A quantidade de crianças que as mulheres dão à luz tem impacto direto na economia e na sociedade de uma nação. São muitas as razões que levam os casais de países ricos a ser mais propensos a formar famílias pequenas. A adesão das mulheres à competitividade no trabalho ou na vida acadêmica é certamente uma delas. O certo é que, hoje, só as nações muito pobres, como as da África Subsaariana e o Afeganistão, com renda per capita miserável, apresentam altas taxas de fecundidade e de crescimento populacional.

As conseqüências econômicas, sociais, culturais e políticas dessa mudança no tamanho da família brasileira só agora começam a ser medidas em toda a sua extensão. Com a taxa de fecundidade na casa do 1,8 filho por mulher, abre-se para o Brasil o que os especialistas chamam de janela de oportunidade demográfica. Nos próximos trinta anos, com a queda gradual no número de nascimentos, o país terá uma proporção maior de pessoas em idade produtiva – entre 15 e 64 anos. A porcentagem de crianças e idosos, que demandam mais investimento do estado e, em tese, não produzem riqueza, será inferior à existente hoje.

Com menor necessidade de gastos com escolas e hospitais, entre muitos outros itens relacionados à promoção do bem-estar de crianças e idosos, torna-se mais fácil para o governo fazer investimentos que produzam riqueza e acumular poupança. O mesmo vale para os cidadãos, que podem gastar menos com a educação das crianças e com o sustento e a saúde dos mais velhos. O resultado dessa equação é o aumento da renda per capita, conta que resulta da divisão de toda a riqueza produzida por um país pelo seu número de habitantes. Quando as riquezas de um país se multiplicam e a população se mantém numericamente estável, a economia adquire vitalidade, criam-se mais empregos e todos ficam mais ricos. "O Brasil está vivendo uma fase em que a situação demográfica historicamente é a mais favorável", diz o demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE.

A janela de oportunidade demográfica brasileira, segundo especialistas, vai se fechar num prazo de vinte a trinta anos. Nesse período, levas de cidadãos que formam a força de trabalho passarão para o contingente de idosos e não serão substituídos, em virtude da baixa natalidade no país. O aumento da proporção de idosos na pirâmide populacional – somada à sua maior longevidade – vai pesar nas contas públicas, principalmente na previdência social, e também no bolso dos cidadãos em idade produtiva (veja reportagem). Esse processo ocorre atualmente em alguns países da Europa, nos quais uma pequena elevação na taxa de fecundidade seria bem-vinda. Na Itália e na Suécia, 25% da população tem mais de 60 anos – no Brasil, essa cifra é de 10%. Nesses países, assim como na Alemanha e na Espanha, o governo tem políticas de incentivo à natalidade que incluem prêmios em dinheiro às mulheres que engravidam. Recentemente, o papa Bento XVI lamentou a queda no número de nascimentos no continente: "A Europa está infectada por uma estranha falta de apetite pelo futuro. As crianças são percebidas como uma ameaça ao presente".

A substituição da força de trabalho é também feita na Europa, em parte, pela imigração. No caso do Brasil, há tempo suficiente para aproveitar a janela de oportunidade demográfica e preparar o país para o sustento da massa de idosos que surgirá em três décadas. "A diminuição no tamanho da família, em conseqüência da baixa natalidade, significa menos gente em idade produtiva para tomar conta deles, o que acarreta enormes desafios para a economia e os governos", disse a VEJA David Lam, do Centro de Estudos Populacionais da Universidade de Michigan. Os idosos conhecem hoje no Brasil um bom momento (veja a reportagem). Colhem os frutos do investimento feito em fundos de previdência privada e têm crédito farto à disposição. Muitos colaboram decisivamente para o orçamento familiar. A renda das aposentadorias concedidas aos maiores de 65 anos sustenta muitas pequenas cidades no interior do Brasil. A questão é fazer com que esse bom momento se estenda aos que chegarão à terceira idade nas próximas décadas.

As relações familiares também estão em transformação num Brasil com cada vez menos crianças. Nas reuniões familiares, em lugar de confraternizar com muitos primos, como acontecia na geração de seus pais, as crianças já começam a encontrar em maior número parentes mais velhos, na faixa de 50 a 90 anos. Nas famílias menores, há menos disputa pelos recursos econômicos e sobra mais dinheiro para pais e filhos satisfazerem seus desejos de consumo e lazer. Além disso, os integrantes de famílias pequenas tendem a ser mais individualistas, já que não há pressão para a divisão dos recursos. "Quando a sociedade fica mais individualista, existe menos interação entre as gerações, e isso não será bom para os idosos", diz o gerontologista carioca Alexandre Kalache, consultor para políticas globais de envelhecimento da Academia de Medicina de Nova York.

O encolhimento da família brasileira nas últimas duas décadas, provocado pela queda progressiva da taxa de fecundidade, já causou mudanças na arquitetura das moradias de classe média. Segundo os incorporadores imobiliários, os apartamentos construídos atualmente para essa faixa da população têm quartos menores – já que não precisam abrigar várias crianças – e área de convívio familiar maior. A redução da taxa de fecundidade no Brasil é uma boa notícia para os ambientalistas. Significa que o país vai dar menor contribuição para a superlotação do planeta, que, nas estimativas das Nações Unidas, terá atingido 9,2 bilhões de pessoas em 2050. A partir daí, com a generalização global das baixas taxas de fecundidade, prevê-se um período de estabilidade populacional.

Os resultados da pesquisa do Ministério da Saúde se chocam com as previsões do IBGE. Embora a taxa de fecundidade do país venha caindo desde os anos 70, o instituto previa que o índice de 1,8 seria alcançado apenas em 2043. O que provocou essa antecipação? As evidências apontam para uma série de transformações ocorridas na sociedade brasileira nas últimas décadas. Uma delas foi o crescente êxodo das populações rurais para as cidades, fugindo do desemprego causado pela mecanização das lavouras e em busca de uma vida melhor. No campo, tradicionalmente, uma prole alentada significa garantia de mão-de-obra farta para a agricultura. Na cidade é diferente – ter vários filhos se traduz em mais despesas para transformá-los em força de trabalho produtiva. Um fator crucial para a queda da taxa de fecundidade no Brasil é a crescente inserção das mulheres no mercado de trabalho. Hoje, 57% das mulheres brasileiras trabalham fora, contra 18% em 1970.

Diante dos desafios cada vez maiores para vencer na carreira, e do tempo que a faina diária consome, muitas mulheres preferem ter apenas um filho – ou abdicar da maternidade. Diz a socióloga Cristina Bruschini, coordenadora de estudos sobre gênero da Fundação Carlos Chagas: "Hoje as mulheres trabalham não apenas por necessidade financeira. Elas querem participar da vida do país. Mas a complexa articulação entre trabalhar e cuidar dos filhos exige uma prole reduzida".

Outra surpresa embutida na pesquisa é que a queda acentuada da taxa de fecundidade brasileira se deu também no meio rural, onde as famílias são tradicionalmente mais conservadoras e numerosas. A explicação para isso está nas amplas campanhas de prevenção a doenças sexualmente transmissíveis e de esclarecimento da população a respeito de métodos contraceptivos desenvolvidas pelos governos do país há quinze anos. Em meados da década de 90, o Ministério da Saúde distribuía anualmente no Brasil 5 milhões de cartelas de pílulas anticoncepcionais e 100 milhões de preservativos. Hoje, são repassados à população todo ano 50 milhões de cartelas de pílula e 1 bilhão de preservativos. Esse material, assim como cartilhas de esclarecimento sobre os métodos contraceptivos, alcança atualmente aos locais mais remotos do país. A tendência à redução das famílias chegou às regiões rurais também pelos meios de comunicação. Os personagens de novelas discutem sexo e prevenção da gravidez – e nenhum deles costuma ter mais de dois filhos. A queda da taxa de fecundidade no campo é, em si, uma segunda boa notícia. O fato mostra que as mulheres brasileiras de todos os quadrantes e estratos sociais estão empenhadas em ter menos filhos, criando oportunidades para construir um país melhor e mais rico.

 

O envelhecimento da população pressiona gastos com aposentados.
Sem uma reforma, a Previdência explode

 Cíntia Borsato

 A queda na taxa de fecundidade e o envelhecimento populacional são movimentos positivos, comuns aos países que atingiram um patamar mediano de desenvolvimento – um caminho que o Brasil agora começa a trilhar com maior rapidez. Mas esses avanços sociais trazem consigo desafios no que diz respeito aos gastos com o sistema previdenciário. É fácil entender por quê. Se as pessoas vivem mais, elas receberão aposentadoria durante um período de tempo maior. Por mais nobre que seja uma despesa destinada a assegurar a velhice digna, a questão é: como financiá-la?

A cada ano, cresce o número de aposentados no país. Já a quantidade de pessoas na ativa, contribuindo para o INSS (o sistema previdenciário oficial dos trabalhadores da iniciativa privada), não avança na mesma velocidade. Com base na atual taxa de fecundidade das brasileiras, de 1,8 filho por mulher, o economista Marcelo Caetano, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), estimou que, se o ritmo se mantiver estável nos próximos anos, já em 2032 haverá mais gente recebendo aposentadoria do que contribuintes sustentando o INSS (veja quadro). Se não houver ajuste no sistema, o rombo nas contas da Previdência assumirá proporções explosivas. Atualmente, o déficit entre receitas e despesas é da ordem de 2% do produto interno bruto (PIB) – ou 50 bilhões de reais ao ano. Pelas projeções de Caetano, sem reformas, o buraco deverá quadruplicar e superar 8% do PIB dentro de quatro décadas. Diz o pesquisador: "A pressão sobre os gastos é óbvia. Por isso, em todo o mundo os países correm para reformar seu sistema antes que o desequilíbrio saia do controle".

Esse cenário comprova que as reformas feitas nos últimos anos foram insuficientes. Os brasileiros terão de se conformar com a realidade de que serão obrigados a se aposentar mais tarde. Entre os ajustes necessários – mas sempre adiados, por ser impopulares – está o aumento do período de contribuição e o estabelecimento de uma idade mínima obrigatória para que as pessoas se aposentem. A idade média de aposentadoria entre os trinta países-membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) é de 62 anos; no Brasil, é de 57 anos para homens e de 52 para mulheres. Esses números ajudam a entender por que, sendo uma nação ainda relativamente jovem, o Brasil gasta tanto com os seus aposentados. No Japão, mais de 20% dos habitantes têm 65 anos ou mais, e o país gasta o equivalente a 7% de seu PIB com o pagamento de benefícios previdenciários. Já os aposentados brasileiros custam 12% do PIB, mas os idosos não chegam a 7% da população. Lidar com a questão previdenciária não deixa de ser um bom desafio, daqueles típicos dos países desenvolvidos. Postergar sua reforma, por outro lado, significará sacrificar recursos que poderiam ser investidos no futuro do país, como a melhora da educação e da infra-estrutura.

A meta é chegar bem aos 80
Aos 61 anos, o advogado paulistano Francisco Fraga tem uma rotina de deixar muito adolescente sem fôlego. Além das doze horas diárias dedicadas ao trabalho, pratica exercícios físicos todos os dias, pontualmente às 6 da manhã. O treino é dividido entre partidas de tênis e sessões de musculação e aeróbica na academia. Nos fins de semana, faz caminhada. "Estou fazendo uma poupança de saúde", diz. Nesse pacote, ainda estão check-ups semestrais e alimentação saudável. "Quero chegar aos 80 com o fôlego de hoje", afirma o advogado. 

De cada 100 brasileiros que viviam na década de 20, apenas três ultrapassavam a barreira dos 60 anos. Para os que estão nascendo hoje, a probabilidade de romper essa marca é três vezes maior. E com uma vantagem enorme sobre os antepassados: não apenas se vive mais, mas com qualidade. O primeiro passo para uma vida longeva foi dado com o controle das doenças infecto-contagiosas e com o investimento em saneamento básico, na primeira metade do século XX, o que reduziu drasticamente o número de mortes precoces. Desde o início do século passado, a expectativa de vida deu um salto de 120%: passou de 33 para quase 73 anos. Mas a meta ideal não se restringe a ultrapassar os limites da idade. É preciso ter saúde e disposição para desfrutar a segunda metade da vida. O envelhecimento em boa forma física e mental só se tornou possível com o controle, sobretudo nas últimas duas décadas, dos males que mais afetam os idosos: as doenças crônicas, dentre as quais as mais comuns são diabetes, hipertensão, osteoporose, câncer e depressão. "Hoje, quem mantém uma doença crônica bem-cuidada e sob controle pode ter a mesma qualidade de vida de quem não é doente", diz Wilson Jacob Filho, professor de geriatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atualmente, as patologias crônicas são responsáveis por 40% de todas as doenças no mundo, e acredita-se que, em 2020, elas responderão por 60% do total de moléstias dos países em desenvolvimento.

O brasileiro dos grandes centros urbanos que chega aos 60 anos sem uma doença grave tem pela frente pelo menos mais quinze anos de vida saudável. Se ele vencer a marca dos 70, poderá contar com mais dez anos bem vividos. "O controle médico das patologias crônicas simboliza um dos maiores saltos evolutivos da humanidade", afirma o geriatra Fábio Nasri, do Hospital Albert Einstein, de São Paulo. O advogado paulistano Francisco Fraga, de 61 anos, tem como meta chegar aos 80 com o mesmo fôlego de hoje. Para compensar a rotina de doze horas diárias no escritório, tem feito, como ele diz, uma "poupança de saúde". Submete-se a check-ups semestrais, não fuma e pratica exercícios físicos todos os dias para controlar o colesterol alto. "Meu pai infartou aos 68 anos. Pretendo ir muito além e esbanjando saúde", declara. Há pelo menos quatro fatores-chave que garantiram a Francisco – e aos outros 19 milhões de brasileiros que passaram dos 60 anos – uma vida não apenas longa, mas saudável.

Exames preventivos – A partir da década de 80, com o aprimoramento dos métodos diagnósticos, o check-up tornou-se um procedimento corriqueiro. A procura pelos exames anuais em hospitais particulares do país cresce, em média, 10% ao ano. Uma bateria de exames bem-feita, além de detectar doenças precocemente, ajuda o paciente a adotar um estilo de vida mais saudável. As versões mais modernas de tomógrafos e aparelhos de ressonância magnética, desenvolvidas na última década, permitem a descoberta de uma enfermidade anos antes do surgimento de seus primeiros sintomas. Uma tomografia é capaz de localizar nas artérias o depósito de placas de cálcio de menos de 1 milímetro cúbico ou tumores de até meio milímetro, quando as chances de cura e controle da doença são maiores.

Tratamentos mais eficazes – Por ser mais preciso e seguro, o arsenal terapêutico contra as doenças crônicas pode ser administrado, em sua maioria, por tempo ilimitado, com menos efeitos colaterais. Um exemplo são as estatinas: lançadas em meados da década de 80, elas revolucionaram a prevenção e o tratamento do colesterol alto, um dos piores inimigos do coração. Podem ser tomadas pela vida toda. Até mesmo remédios como os quimioterápicos já são mais bem tolerados. Por estarem menos tóxicos, hoje esses medicamentos são acessíveis a pacientes com mais de 70 anos. Para grande parte dos diabéticos tipo 2, basta uma picada por dia de insulina para o controle da doença. Nos anos 30, era necessário reaplicar a dose de hormônio a cada quatro horas.

Acesso a planos de saúde – Os brasileiros com mais de 60 anos representam 11% do total de usuários de planos de saúde: são 4,5 milhões de pessoas. Convênios médicos facilitam o acesso não só a hospitais e profissionais de ponta, mas a programas de saúde preventivos. A prática é bastante estimulada por planos empresariais – hoje, 40% dos convênios médicos são bancados pelos empregadores. Na conta dos empresários, sai mais barato investir na prevenção do que no tratamento das doenças de seus funcionários. O custo de um obeso às empresas, por exemplo, é cerca de 10% maior. Os gastos se devem a faltas ao trabalho e a despesas com o tratamento de moléstias associadas ao excesso de peso – distúrbios cardiovasculares, diabetes tipo 2, hipertensão e colesterol alto.

Adoção de hábitos saudáveis – Hoje já se sabe que, na equação da boa saúde, 70% cabem ao estilo de vida. Os outros 30% são determinados pela genética. Uma pesquisa inglesa, divulgada no início deste ano por médicos da Universidade de Cambridge, revelou que hábitos saudáveis podem acrescentar catorze anos à vida de uma pessoa. Isso inclui não fumar, consumir cinco porções de fruta por dia, praticar exercícios físicos – ao menos meia hora diária de caminhada, natação ou bicicleta – e ingerir moderadamente bebidas alcoólicas. O ideal são duas taças de vinho ou uma dose de uísque ou duas latinhas de cerveja por dia. Não há avanço médico que dê conta dos efeitos perversos do fumo, do sedentarismo e da alimentação fora de controle. Em outras palavras, de nada adianta tomar um super-remédio que reduza drasticamente as taxas do colesterol ruim no sangue sem fazer dieta e sem abandonar as comidas gordurosas. A medicina faz a sua parte. Chegar lá – e bem – depende de cada um.

"É hora de gastar"
A aposentada Clélia Rêgo, 70 anos, sempre poupou parte do salário que recebia como auditora da Receita Federal. É com esse dinheiro, somado à generosa aposentadoria, que ela banca compras em lojas de grife e em cruzeiros pela costa nordestina. Paga também o aluguel de 7 000 reais do flat cinco-estrelas onde mora, em São Paulo. É um lugar especializado em receber gente mais velha. Lá, ela tem aulas de ginástica e faz todas as refeições num restaurante de alto nível. "Esse é o momento de aproveitar. Gasto dinheiro sem culpa." 

Eles têm dinheiro no bolso, tempo de sobra para o consumo e uma notável disposição para gastar. Quando vão às compras, a conta sai quase 10% mais alta do que a da média dos demais clientes. Trata-se de um grupo de brasileiros que já passou dos 60 anos – e nunca teve renda tão alta. Os rendimentos cresceram 74% nos últimos quinze anos, porcentual expressivo diante do que ocorreu nas demais faixas etárias: um aumento de 48%. Essa parcela da população conta com 19 milhões de pessoas, 25% mais do que eles representavam na década passada. E vai aumentar. Os dados vêm de um recente estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV), que traçou um detalhado perfil dos consumidores de terceira idade. "Nunca houve no Brasil um momento tão bom para investir em negócios voltados para eles", resume o economista Marcelo Neri, coordenador da pesquisa. É por isso que grandes empresas começaram a apostar nesse grupo – algo bem recente no país. No turismo, setor em que os mais velhos já compram 40% dos pacotes, houve adaptações, sobretudo nos cruzeiros, opção preferida depois dos 60. As operadoras passaram a oferecer mais hidroginástica, cardápios leves e bingo, três das demandas dessa faixa etária. No mercado imobiliário, pela primeira vez surgem edifícios old friendly (termo em inglês para designar construções adaptadas aos mais velhos). São repletos de corrimãos e pisos antiderrapantes e não têm degraus. Diz Romeu Busarello, diretor de marketing da Tecnisa, uma das construtoras a investir no gênero: "Quem quer ganhar dinheiro hoje precisa mirar esse público".

De cinco anos para cá, com o envelhecimento acelerado da população brasileira, as empresas começaram a apostar no novo mercado que se abria, mas nunca de forma tão consistente quanto agora. Algumas delas já planejam, inclusive, investir num estrato específico desse grupo etário: o de pessoas que cruzaram a fronteira dos 80 anos. Atualmente, há 1 milhão delas no país. Em 2050, chegarão a 10 milhões. São números que justificam, por exemplo, o investimento da Natura na pesquisa de cremes para gente mais idosa. A motivação veio do enorme sucesso alcançado por tais cosméticos na Europa e no Japão, onde o fenômeno do envelhecimento da população é bem mais antigo e acentuado. "Estamos diante de um mercado de extraordinário potencial", conclui Joel Ponte, diretor de marketing da Natura.

O Brasil segue, portanto, o mesmo caminho de países onde os idosos já representam mais de 20% da população – e a adaptação do mercado a esse fato se tornou uma necessidade há mais tempo. Na tentativa de atrair os mais velhos, as empresas de tecnologia começaram a lançar eletrônicos com teclas maiores e fluorescentes, som mais alto e recursos inusitados, como a medição dos níveis de glicose e da pressão arterial, ambos embutidos num telefone celular da LG. O setor automobilístico é outro que aposta no afã consumista – e no vigor físico – de quem já passou dos 70 e beira os 80. São pessoas que, segundo apontam as pesquisas, não pretendem abandonar a direção. Para elas, fabricantes japoneses como Nissan e Toyota planejam lançar veículos programados para reduzir certos riscos típicos dessa faixa etária. Na fábrica da Nissan, os funcionários envolvidos na pesquisa dos novos carros vestem jaquetas preenchidas com gesso, que simulam as dificuldades de movimento de alguém com artrite, e usam sapatos com o bico inclinado, para conferir sensação de desequilíbrio. O objetivo é chegar a um produto adaptado às eventuais limitações físicas de um motorista mais velho.

O mercado brasileiro interessa a essas empresas. Antes de tudo, porque o número de brasileiros acima dos 60 equivale à população inteira de alguns países, como a Holanda. Um outro dado positivo diz respeito ao crescimento recente da renda entre os mais velhos, o que se deve, basicamente, a dois fatores. Primeiro, ao aumento no valor das aposentadorias pagas pelo governo. Em segundo lugar, ao volume de dinheiro acumulado em previdências privadas. O valor dobrou nos últimos cinco anos. Fenômeno típico de países onde as pessoas vivem mais e se tornam naturalmente precavidas em relação à velhice. O que torna esse mercado ainda mais atraente no Brasil é o fato de que os idosos tiveram recentemente acesso ao crédito facilitado. Isso ocorre porque, de quatro anos para cá, o pagamento do empréstimo passou a poder ser debitado diretamente da aposentadoria. Para os bancos, o risco é menor. Para gente como a funcionária pública aposentada Clélia Rêgo, 70 anos, significa taxas de juros menores, mais tempo para quitar a dívida – e um estímulo a mais para o consumo, algo que ela adora. Vivendo num flat de luxo para a terceira idade, em São Paulo, seu principal hobby é ir às compras. "Poupei a vida inteira. Chegou a hora de gastar."

Menos gente ajuda, mas pesa mais o modo como se usam os recursos naturais do país
A organização ambientalista WWF estimou que o consumo humano já supera em 25% a capacidade de recuperação dos recursos naturais. O tamanho da população mundial é um dos fatores que influenciam essa equação. Com o ritmo mais lento do crescimento da população brasileira, a natureza agradece. Do ponto de vista de disponibilidade de recursos naturais, o Brasil tem uma situação confortável: em tese, poderia até dobrar a população atual sem ultrapassar a capacidade de recuperação de seus recursos naturais. Essa é uma situação transitória. O impacto sobre o ambiente é medido menos pelo número e mais pelo padrão de consumo das pessoas. Se não atentar para a forma como cuida de seus recursos naturais, o Brasil pagará caro pela prosperidade em termos de preservação.

O modo predador com que o Brasil trata suas florestas é explicado pela necessidade de alimentar uma população mundial numerosa. Para isso não seria necessário avançar sobre a Floresta Amazônica. A distribuição desigual da população também contribui para os danos ambientais. A maior parte dos brasileiros vive nas proximidades do litoral. O resultado é que, pressionada desde que o primeiro português pisou no continente, a Mata Atlântica perdeu 93% de sua cobertura florestal nos últimos 500 anos. A superlotação nas cidades também cria problemas ambientais. A floresta está menos ameaçada no Amazonas do que nos estados vizinhos. Mas o fato de apenas 3% dos moradores de Manaus disporem de rede de esgoto é um legítimo desastre ambiental.

A ONU prevê que a população mundial só entrará em retração em 2050, ao atingir 9,2 bilhões de habitantes, um aumento de cerca de 37% em relação aos 6,7 bilhões atuais. Até lá, a renda per capita dos países em desenvolvimento deve crescer ao ritmo de 3% ao ano. Cada ponto porcentual de melhoria na economia desses países tem seu preço em recursos naturais. A saída de milhões de pessoas da pobreza, que é bem-vinda, pode ter efeito devastador para o planeta. "A Terra só tem capacidade para suportar 2 bilhões de pessoas com um padrão de consumo equivalente ao de um país rico", disse a VEJA o demógrafo americano Paul Ehrlich, autor do best-seller A Bomba Populacional. Novas tecnologias e fontes alternativas de energia podem amenizar o impacto, evidentemente. A desaceleração do crescimento populacional no Brasil é uma boa notícia para o planeta.
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Fonte: Revista VEJA | Edição 2071 | 30 de julho de 200830 Jul 2008.