Violência doméstica é grave problema de saúde no mundo
Entrevista - Maria Inez Padula Anderson (11/5/2008)
Iracema Sales

Maria Inez: ´A violência em casa é mais grave porque se essa criança estivesse na rua, certamente, teria testemunha´ (Foto: João Luís)
´A família é tanto fonte de saúde quanto de adoecimento´, afirma Maria Inez Padula Anderson, que considera, hoje, a violência doméstica como um dos grandes problemas de saúde do Brasil e, talvez, do mundo. Lamenta a existência de poucos médicos de família com especialidade.
O médico de família era para uma elite no Brasil. Qual a importância da medicina de família para a popularização deste profissional?
A medicina de família é uma especialidade médica como existem outras. A diferença é que ela se preocupa com a pessoa como um todo. O médico de família é aquele que conhece o paciente desde a infância e faz o seu acompanhamento pelo resto da vida. Na Espanha, é chamado como médico de cabeceira, ou seja, aquele que aconselha, ajuda a tratar desde as fases iniciais de qualquer doença. Por isso, é capaz de avaliar se a pessoa tem necessidade ou não de procurar um especialista.
Como está a difusão desta especialidade no Brasil e o que falta para o Programa Saúde da Família (PSF) atingir um maior número de pessoas?
Aqui ainda existem poucos médicos de família com especialidade. O que a gente tem, hoje, é o Programa Saúde da Família (PSF) que atende a 90 milhões de brasileiros. O PSF é formado por uma equipe de profissionais de saúde, como enfermeiros, técnicos de enfermagem, médicos, odontólogos e auxiliares, que se dedica a uma população que mora num determinado local. Levando em consideração os médicos do PSF, existem 28 mil atuando como médicos de família no País atualmente. No entanto, nem todos têm especialidade na área.
O que está sendo feito para que esses médicos se especializem?
A gente está buscando valorizar o trabalho desses profissionais e fazer a prova para que consigam o título. Muitas empresas de seguro de saúde privada estão descobrindo como é vantajoso ter médico com essa especialidade. O médico de família não é para não usar os outros profissionais, mas sim para usar os especialistas com mais racionalidade e menos riscos para o paciente.
Hoje, a medicina está muito setorizada, daí o pedido de muitos exames...
Isso traz muita insegurança para as pessoas. O especialista, que talvez só veja aquela pessoa uma vez, pede uma série de exames para garantir o atendimento. Isso pode virar uma via crucis.
Qual a contribuição do médico de família para melhorar a qualidade de vida das pessoas já que ele pode investigar desde doenças a casos de violência, como o da menina Isabella?
A família é tanto fonte de saúde quanto de adoecimento. O médico de família vai às casas das pessoas para conversar sobre saúde e ver quem está doente. Mas, muitas vezes, nessas consultas feitas com os membros da família, consegue detectar fatores de risco para abusos, dependências e, eventualmente, situações como estas, de violência doméstica, que é um caso extremamente sério no Brasil.
Existe alguma estatística sobre a violência doméstica contra criança?
Só temos conhecimento de um percentual muito pequeno da violência doméstica. A gente estima que 25% das crianças sofrem algum tipo de violência dentro de casa provocada pelos pais ou por algum parente próximo. O médico de família, que cuida da atenção primária, ou faz parte da equipe do PSF tem condições de avaliar muito precocemente estas situações e evitar que isso aconteça.
Outro grupo social que também é vítima deste tipo de violência é o idoso. O médico de família também pode ajudar?
A gente tem relatos muito ricos, dramáticos, às vezes, com esse tipo de serviço, porque quando você abre a porta da casa da pessoa, é impossível negar. É possível ver a situação e agir positivamente. Não somos polícia. Em alguns casos, são situações muito dramáticas, mas graças a Deus, algumas vezes, é a única chance que essa pessoa tem. Porque ninguém chega ao médico e diz: estou espancando o meu filho, ou, estou maltratando o meu avô.
Quando a gente fala em violência imagina a rua como um lugar de insegurança. E quando a violência está dentro de casa?
A violência em casa é mais grave porque se essa criança estivesse na rua, certamente, teria testemunha. A violência dentro de casa contra criança e idoso quem são as testemunhas? Os próprios agressores ou, mais triste, ainda, os filhos dos agressores, que estão tão impotentes quanto os violentados. Considero a violência doméstica como um dos grandes problemas de saúde do Brasil e talvez do mundo, hoje.
E a violência não é só física...
A violência não é só a sexual, e, talvez a psicológica é a que deixa mais marcas. O pior é que consigo fazer uma violência psicológica com o meu filho de forma que as pessoas considerem normal como, quando digo: seu burro, você não vai conseguir ser nada na vida... A criança vai levar esta marca pelo resto da vida. Ela abaixa a auto-estima, vem a depressão, e em seguida, a bebida, o cigarro, a droga, a comida. Está mais do que provado que uma disfunção orgânica não é à toa. Ela é resultado de um processo social, ambiental, psicológico, biológico. A carga genética não explica nem 5% das doenças, que são resultados deste processo.
Muitas vezes o médico pode ajudar a melhorar o relacionamento da família?
A abordagem correta faz parte da especialização em terapia familiar. O médico de família deve ser bem formado, por isso a especialidade é muito importante, porque ele aprende técnicas de abordar a família, o que não é simples. Você não pode ser intruso, dar conselho ou decidir pela vida das pessoas. O médico deve decidir do ponto de vista técnico e terapêutico e isso exige conhecimento e habilidade.
Neste aspecto, a linguagem é também importante. O médico de família recebe ensinamento para aprender a se comunicar com todos os públicos?
O médico de família aprende a abordagem comunitária e a sua formação inclui comunicação, isto é, relação médico-paciente. Tudo isso é embasado no princípio de respeito à cultura da pessoa, sendo pouco eficaz a ordem do tipo: pare de fumar ou de beber. Porque se fosse fácil, médico não fumava e nem bebia (risos). É preciso trabalhar a motivação e nada melhor do que o vínculo médico-paciente.
O Sistema Único de Saúde (SUS) contribuiu para a criação do PSF e, conseqüentemente, popularização do então elitizado médico de família?
O SUS contribuiu muito para o PSF, que foi uma decisão acertada, já que o Brasil não tinha um modelo de atenção primária à saúde, embora não esteja perfeito. O mais importante no programa é que está ultrapassando governos. No Brasil, era freqüente, mudar de governo, mudar de política, o que não aconteceu com o PSF, criado em 1994.
Qual a importância dos municípios no processo de efetivação do programa?
O Ministério da Saúde pode fomentar a política. No entanto, pela nossa Constituição, a implantação da política de atenção primária cabe ao município, que recebe o incentivo do Ministério. Quando um município compra a idéia, os resultados são impactantes. Quanto maior o número de equipes do programa mais diminui a taxa de mortalidade infantil, assim como as internações. O aleitamento materno também aumentou e diminuíram as doenças crônicas. Todos os brasileiros devem saber que o médico de família não é para pobre ou para rico, mas para todos. Todo mundo deveria ter um bom médico de família.
O que o PSF pode fazer para ajudar no combate da atual epidemia de dengue no País?
Ele sozinho não consegue combater a epidemia de dengue porque ela exige uma articulação intersetorial. Nos Estados e municípios onde o programa atua de forma relevante foi possível controlar melhor os surtos epidêmicos. Hoje, o Brasil inteiro tem que se preparar para o verão de 2009 a fim de evitar o que ocorreu neste ano. Não é coincidência que o Rio de Janeiro, município que tem apenas 5% de cobertura do PSF, tenha registrado muitos casos de dengue e mortes neste 2008.
Qual é o percentual de cobertura do PSF nos municípios brasileiros?
A cobertura no Brasil fica em torno de 50% da população, atingindo quase 90 milhões de pessoas. Grande parte dos municípios possui cobertura acima de 45% e, em outros, 80%.
Qual o impacto do trabalho realizado pelo setor primário de atendimento à saúde nos demais setores?
Este aspecto é fundamental porque o médico sozinho não faz milagre. O que está faltando no Brasil é o aperfeiçoamento da política de saúde.
Quais os principais pontos deste aperfeiçoamento?
A qualificação dos profissionais, especialmente dos médicos e a infra-estrutura do trabalho, como o vínculo empregatício. Sabe o que vai acontecer neste ano quando mudar o prefeito? Na semana seguinte, várias equipes destas estarão desmontadas indo assumir outros médicos, porque muitos municípios ainda não fazem contratos de trabalho, ficando um cargo absolutamente eleitoral. O Brasil agora está na fase de consolidar com qualidade. Isso significa fazer concurso público, valorizar o título. Além de investir nos demais serviços de saúde.
________________________________________
Fonte: Diário do Nordeste, 11/5/2008. Disponível em:
http://diariodonordeste.globo.com:80/materia.asp?codigo=536736
|
 |