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Muitos Anos de Vida Ana Paula Araújo Um em cada cinco lares brasileiros tem uma pessoa com mais de 60 anos – gente com muitos anos de vida e muita experiência para inspirar as novas gerações. Na segunda reportagem da série sobre idosos, o Jornal Hoje mostra os dois lados dessa realidade: famílias que não cuidam de seus idosos e idosos que dedicam a vida para cuidar dos que foram abandonados.
Uma boneca batizada de Grace Kelly agora é a maior companhia de dona Clarisse Mello, de 87 anos. “Eu gostava dessa atriz. Ela trabalhava muito bem”, conta. Dona Clarisse vive num asilo no Rio, mantido por doações. “Perdi meu irmão, minha irmã, praticamente todos os meus parentes. Só tenho sobrinhos. Eles são moços, não querem procurar conhecer um asilo, onde tem as vovós. Tem uns que não gostam", ela diz. O motivo para estar num asilo é quase sempre o mesmo. “Solidão”, responde a aposentada Amélia Nunes. “Eu vivia sozinha, e não posso andar muito bem sozinha. Não podia fazer minhas compras, aí eu ficava na janela, passava uma pessoa e eu perguntava ‘onde você vai?’. ‘No supermercado’. E eu pedia pra trazer uma coisa pra mim”. No asilo, as pessoas encontram um amparo para a distância da família. “Cada um tem a sua vida, e não gosto de sacrificar ninguém”, justifica Amélia. Aos 92 anos, dona Helusa é voluntária do asilo e conta que a situação é muito comum. “Ninguém quer saber das pessoas idosas nos seus lares", sentencia. “A gente sabe que por mais que a gente dê atenção, carinho, por tudo que a gente faça, a gente não consegue substituir a família”, completa a diretora do asilo, Maria das Graças Damasceno. Ela e dona Helusa acabam fazendo o que é obrigação do Estado e da família, de acordo com o Estatuto do Idoso. A professora de Direito Claudia Lima Marques participa de um núcleo de estudos sobre envelhecimento, em Porto Alegre. Para ela, houve avanços na proteção ao idoso, mas é preciso cumprir a lei. “Os deveres da família não estão só no Estatuto do Idoso, mas também no Código Civil. O principal é justamente a manutenção dos idosos”, explica Claudia. “Vinte por cento dos lares brasileiros contam com uma pessoa com mais de 60 anos, algumas que necessitam de tratamento, que já estão com dificuldades, doenças típicas da idade, e aí o dever da família aumenta. O principal é o respeito à sua dignidade e à sua situação de vida”. O Estatuto do Idoso mudou bastante a realidade brasileira. Hoje, por exemplo, há filas especiais para quem tem mais de 60 anos. Mas algumas queixas, nenhuma lei resolve. A perda de algumas habilidades e o luto pela morte de pessoas queridas podem derrubar o ânimo e levar a uma doença que deixou de ser silenciosa; a depressão. “A pessoa começa a se sentir triste, desanimada”, descreve a psiquiatra Claudia Silbermann. “A pessoa começa a perder o apetite, a ter alterações do sono – pode não conseguir dormir ou dormir demais. Diminui a energia vital, vamos dizer assim”. E o que fazer quando tudo perde a graça? “O mais prudente seria procurar outra atividade prazerosa", orienta Claudia. Foi na dança que a aposentada Rosinha Arenque Carvalho redescobriu o prazer. Depois da morte das duas irmãs, ela caiu em depressão profunda; buscou ajuda médica, tomou medicamentos e investiu numa atividade que no começo não parecia divertida. “Eu me perguntava, ‘o que eu estou fazendo aqui?’. Muitas vezes, eu saí da aula correndo, chorando, sem querer mais voltar”, conta a aposentada. A resistência foi vencida passo a passo. “Devagarinho, a depressão foi embora”, diz Rosinha. “Estou me sentindo, assim, 20 anos mais nova. Quando penso na idade que eu tenho... ah, eu não tenho essa idade toda não! Eu sou jovem, sou bonita, eu danço!”.
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