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Eles sustentam a casa Estudo mostra que a grande maioria dos idosos brasileiros é responsável pela manutenção da família Charlise Morais e Marici Capitelli Helena Maria de Jesus começa sua rotina às 5h da manhã. Aos 76 anos ela não descansa, como prevê sua condição de aposentada. Ao contrário, mantém três empregos para pagar as contas de luz, água e telefone dos parentes que moram em seu quintal. Helena é um exemplo do que acontece no Brasil, onde 71% dos aposentados sustentam a família. Mãe de três filhos, com nove netos e quatro bisnetos, ela ganha o pão que alimenta boa parte da família. Para isso, faz faxina em uma imobiliária, um prédio residencial e um escritório. “Meu corpo dói todo. Mas não é de trabalhar, e sim da condução.” Há dois anos, Helena foi atropelada. Ficou com seqüelas que dificultam a sua locomoção. Com a aposentadoria e os empregos tira cerca de R$ 700 por mês. Dinheiro que usa em grande parte para sustentar dois filhos desempregados, netos e uma bisneta, cuja mãe tem 16 anos e o pai está na Fundação Casa (ex-Febem). Ela não se importa. “Estendo a mão para todos eles. Quando cheguei em São Paulo sozinha aos 20 anos, pessoas que nem conhecia me ampararam. Ajudar a minha família é a minha maneira de retribuir.” E vai além: “Quem garante que daqui a um tempo não sou eu que vou precisar dos meus filhos e netos?”. Essa é uma realidade cruel, mas cada vez mais comum entre os brasileiros. Nem todos os aposentados podem aproveitar sua condição para descansar. No País, 71% deles são chefes de família - segundo a pesquisa Idosos no Brasil 2007, da Fundação Perseu Abramo. É deles a responsabilidade de prover o sustento da casa. Quem não precisa se virar em outras atividades para garantir renda maior para a família, não consegue se livrar de ter de dividir seu benefício entre o sustento de um lar e os gastos com remédios. A pesquisa revela também que 88% dos idosos contribuem com alguma parte de seus benefícios para a renda familiar. Ou seja, mesmo nas famílias em que a renda do aposentado não é a única da casa, seus rendimentos são decisivos para a manutenção do lar. A contribuição na renda familiar é quase total entre os homens aposentados: 95%. Já entre as mulheres, o porcentual de contribuição aumenta conforme a idade avança. “Ou seja, 78% das aposentadas entre 60 e 69 anos ajudam na composição da renda familiar, na faixa etária acima de 80 anos esse porcentual é de 92%” afirma o sociólogo e responsável pela pesquisa, Gustavo Venturi. Quem ainda tem saúde e disposição continua no mercado de trabalho para compor a renda e garantir um pouco mais de conforto para a família. É o caso do metalúrgico Tiago Barbosa Fernandes, 56 anos, que se aposentou há cinco anos, mas continua trabalhando na mesma empresa, há 23 anos. “Sou eu que sustento a mulher e dois filhos, de 13 e 16 anos. Juntando as duas rendas a gente vai levando.” A aposentadoria dele, de dois salários mínimos e meio, não é suficiente para manter a casa e a família. Além dos filhos em idade escolar, o metalúrgico também custeia os estudos da esposa. “É muita despesa com material de escola, roupas e condução. Não tem como viver só da aposentadoria”, diz. A história se repete na família de Hilda da Conceição, 69 anos, aposentada há dez. Mãe de três filhos, também tem oito netos e dois bisnetos. O filho mais velho, de 48 anos, está desempregado e vive com ela. “Sou eu quem paga tudo, água, luz, telefone, mercado. Ainda tenho muita despesa com remédios.” Ela se aposentou há dez anos recebendo dez salários mínimos, mas hoje não chega a quatro. Mesmo assim, ela destina o que sobra da aposentadoria para os seus outros filhos. ________________________________ Fonte: Jornal da Tarde, 24/9/2007. Disponível em: http://txt.jt.com.br/editorias/2007/09/24/eco-1.94.2.20070924.6.1.xml
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