Várias faces da passagem do tempo Várias faces da passagem do tempo

 

Simone Intrator, Brasil Digital

 

As cinqüentonas européias não têm problemas em dizer a idade, não vêem vantagem em parecer mais jovens, nunca encarariam um bisturi por estética, acham que cantadas na rua são uma ofensa e não incluem palavras como botox e silicone em suas conversas. Alguma semelhança com a brasileira de mesma faixa etária? "Não", garante a antropóloga Mirian Goldenberg, 50 anos, que no ano passado causou alvoroço ao lançar Infiel, notas de uma antropóloga (Ed. Record) e deve repetir a dose agora, com sua nova pesquisa. Como a carioca (representante da brasileira, por ser o Rio esse mar de diversidades) encara o envelhecimento, comparando-se à européia e vivendo numa cidade refém do culto ao corpo? Nas mãos da antropóloga - que tem o poder de levar as questões femininas de seus estudos ao debate informal em academias, bares, lojas e areia das praias - esse trabalho deve deixar as moças daqui com a pulga atrás da orelha. Seriam as brasileiras tão de vanguarda quanto pensam que são?

 

"A mulher emancipada no Brasil, termo que elas usam muito lá fora, está longe do que significa ser uma mulher emancipada na Europa. Ainda se vive aqui em função de agradar aos homens e de atender às necessidades da família. Lá fora, para elas, é uma falta de dignidade precisar dos homens ou agir apenas para deixá-los felizes", pontua Mirian, que acaba de voltar de 40 dias na Alemanha, onde entrevistou - na primeira fase da pesquisa - grupos de mulheres de classe média, de 50 anos ou mais, todas empregadas e responsáveis pelo próprio sustento. O estudo também será feito na Inglaterra com moças com o mesmo perfil.

 

"As européias não estão preocupadas em congelar o tempo como as brasileiras. Não há a menor chance de uma alemã aos 50 desejar ser sexy, ou malhada, ou parecer mais jovem. Ela quer se destacar por sua capacidade intelectual ou competência profissional. Nós somos femininas demais para elas, de forma até negativa. É o jeito de andar, de tocar um no outro, de beijar todo mundo. Nos expressamos muito pelo corpo", explica Mirian, santista de nascimento, que há 30 anos escolheu o Rio como morada e, desde então, não por acaso, estuda assuntos polêmicos do cotidiano feminino, como infidelidade, pressão social para se casar e ter filhos, fixação pela estética.

 

Não é mesmo casual a escolha de Mirian para fazer do Rio sua cidade-sede de pesquisas e lugar para viver. Para ela, moradora do mesmo apartamento no Leblon há 10 anos, vista ampla das Ilhas Cagarras cravadas no mar azul, e andarilha fiel das areias da praia, com bloquinho e caneta nas mãos para anotar suas idéias, o Rio tem espaços para diferentes grupos, dos mais caretas aos mais de vanguarda. "É um lugar que, dentro e fora do Brasil, tem um imaginário de liberdade, até uma certa loucura, um vanguardismo que poucos lugares no mundo têm. Aqui criam-se e reproduzem-se comportamentos; há uma possibilidade de inventar e se reinventar. Isso é o que mais me interessa".

 

Reinventar-se, agora, é uma meta da antropóloga. Ela voltou da Alemanha com um dilema pessoal: como trazer os aspectos positivos da visão européia de envelhecimento para seu dia-a-dia. Isso, claro, sem abrir mão de morar numa cidade tão corporal como o Rio, e num país com tanta pressão social sobre as escolhas femininas como o Brasil.

 

"Eu tenho, todas nós temos, o que o Pierre Bourdieu (sociólogo francês) chama de habitus. São atitudes incorporadas, não as percebemos. Aqui, a mulher sempre depende do olhar do outro para dizer quem ela é, principalmente da figura masculina. Se não recebe um elogio, é como se fosse invisível. Ou acha que tem algo de errado com ela: envelheceu, está gorda. As européias não precisam disso, e essa possibilidade de liberdade, que não temos em função do nosso habitus, é fascinante", explica a antropóloga.

 

Decidida a incorporar alguns trejeitos das alemães no cotidiano, como um forte aperto de mãos como cumprimento, e de sorrir menos para os outros, Mirian aproveita os temas de suas pesquisas para se auto-analisar: "Muitas vezes abraçamos, tocamos ou sorrimos automaticamente quando vamos falar com alguém ou quando encontramos uma pessoa, herança, segundo Gilberto Freyre, do nosso passado de escravidão, da subserviência, da vontade de agradar. Nem sempre é sincero", diz a antropóloga, já sorrindo de canto a canto, nada convencida, e nem um pouco convincente, de que um dia conseguirá ser menos carioca na expressão de seu afeto.

 

No fundo, o desejo de Mirian é mudar mais do que a forma de se expressar. O que essa cinqüentinha (ela não tem físico para ser chamada de cinqüentona) quer é não perder tempo com fatos que, objetivamente, não podem ser mudados por ela. Magra toda a vida, chamada sempre de Olívia Palito, apelido acentuado pela imponência física dos três irmãos homens, ela passou a infância mergulhada nos livros, tamanha a timidez. Ainda neles, continua aprendendo e trabalhando para esta conquista: "Gostaria de ser uma brasileira que não dramatizasse tanto o envelhecimento. Essa é a minha tragédia-comédia atual", resume Mirian, que foge do academiquês mesmo nas salas de aula do curso de Ciências Sociais da UFRJ. "Poderia, sim, fazer todas as plásticas do mundo. Mas nada mudaria o fato de eu ter 50 anos, a não ser a mentira. O que posso fazer por mim e por qualquer brasileira é mostrar que, em outras culturas, passar dos 50 tem um significado muito mais positivo do que negativo, pode ser o auge da vida de uma mulher", conta Mirian, que desde muito nova decidiu não ceder às convenções sociais.

 

Na adolescência, nos fervorosos anos 60 e 70, foi uma militante política de esquerda, trotskysta convicta, contrariando as expectativas do pai, vereador em Santos e de ideologia oposta à sua. Por opção, não quis ter filhos ("e sempre vêm as cobranças, principalmente femininas, de que não terei ninguém para cuidar de mim na velhice"). Mudou-se para o Rio aos 20, casou-se aos 21, separou-se, casou-se novamente. E garante que está mais feliz do que nunca, e não trocaria seu atual momento por seus 15, seus 20, seus 30 anos.

 

"Minha vida nunca foi melhor. E, fisicamente, na minha energia, não me sinto diferente de 10 anos atrás. Tenho uma segurança enorme do que quero e das opções que fiz. Mas, subjetivamente - e esse subjetivo tem a ver com a pressão cultural - me dizem: 'Olha, você está ficando velha, o mercado é desfavorável para uma mulher de 50, por que você não põe um botox básico?'", revela. "Quero viver inteiramente todas as faixas da minha vida sem me preocupar tanto com valores que dizem que não posso ser uma mulher plena por não ter filhos, ou porque tenho 50, ou porque não fiz as plásticas necessárias para parecer 10 anos mais jovem".

 

Na Europa, garante a pesquisadora ao analisar o universo de suas entrevistas, os 50 são o auge da vida. A preocupação das mulheres é com a saúde e com a qualidade de vida. "Para nós, chegar a essa idade é quase como uma aposentadoria afetiva, sexual. É quando começamos todos os processos de compensação para não aparentar a verdadeira idade", analisa.

 

E aproveita para emendar com uma brincadeira, enfatizando uma característica bem sua, a de rir de pequenos dramas do cotidiano. Sem problema algum, Mirian assume a classificação de coroa, mas rejeita o enxuta que sempre vem incorporado ao substantivo. "Por que enxuta? Por que gastar esse tempo obcecada em não perder seu lado sexy? Como se ser sexy fosse condição para ser mulher", provoca a antropóloga. "Na Europa, a sedução passa pela inteligência, pelas idéias, pela personalidade, e não pelo corpo, pela cara esticadinha, pelo silicone, pelo rebolado. Visualmente, as mulheres dessa faixa etária lá aproximam-se muito mais dos homens: preferem roupas largas, não usam maquiagem, enfeites, nem saltos altos. Têm cabelos curtos, muitas os deixam brancos, sem tintura. Aqui, seriam rotuladas de mal-amadas, desleixadas. Mas são muito mais poderosas do que nós", garante Mirian, também adepta da simplicidade.

 

No Jardim Botânico, seu lugar preferido no Rio - onde escreveu sua tese sobre Leila Diniz (e acabou virando o livro Toda mulher é meio Leila Diniz, da Record) sentada no chão e apoiada num banquinho - anda sempre descalça. No dia-a-dia, prefere roupas pretas ou verdes, para não ter que se preocupar com diferentes combinações. Teve a orelha recentemente furada. O único enfeite que usa é uma pequena argola de ouro. O cabelo é curto. Não malha, mas caminha diariamente, horas a fio, desde os 13 anos, porque a ajuda a pensar e a meditar ("exercícios mais pesados não exercem em mim essa função mais filosófica"). Foi ao dermatologista pela primeira vez há 10 anos, quando começou seu estudo sobre o corpo carioca e entrou numa inesperada e passageira crise.

 

"Minhas pesquisas, às vezes, têm efeito inesperado sobre mim. Não me preocupava com corpo, até pesquisá-lo. Não usava nem filtro solar. O médico começou a me oferecer um monte de tratamentos para o rosto, prometendo jovialidade, e passei a enxergar rugas e marcas de expressão que não via antes. Simplesmente porque não me preocupava com isso. Agora estou nessa tentativa de mudança de habitus, para me querer como sou. Se tivesse optado por essa fantasia que nos vendem de parecer 10 anos mais jovem, teria uma vida muito pior, com esse tipo de preocupação permanente. Quero me aceitar e usufruir do que conquistei sem medo de envelhecer". Também não a inquietava a desproporção demográfica entre homens e mulheres no Rio até estudar infidelidade e ver que a oferta de moças era muito maior. "Nunca tive esse problema na vida real, mas as estatísticas assustam", comenta.

 

Duas musas, de estilos opostos, permeiam a rotina e o trabalho da antropóloga: Leila Diniz, a quem recorre quando se sente muito massacrada pelo olhar do outro ("e aí penso como ela reagiria, ela que nunca abriu mão de sua espontaneidade e alegria") e Simone de Beauvoir, presente na sua atual pesquisa: "A velhice, livro de Simone, vem inspirando meu novo estudo. É uma obra marcante, devastadora. Simone lidou mal com o envelhecimento, aos 38 anos já decretara-se velha. O livro é uma verdadeira tragédia para as mulheres que querem paralisar suas vidas com botox e plásticas. Não o recomendo para quem tem medo de envelhecer", avalia a antropóloga, que leu todos os livros da escritora francesa até os 25 anos, sendo que O segundo sexo ela devorou antes de fazer 18.

 

Fanática por cinema, é capaz de assistir a três sessões seguidas de filmes diferentes no Estação Ipanema ("é o lugar onde mais me esqueço de tudo. Não importa a qualidade do filme, curto todos, desligo e sou feliz"). Desde pequena, cultiva o hábito: "Meu pai levava a mim e meus irmãos para ver My fair lady e Tom & Jerry quando ainda éramos crianças".

 

Carro, Mirian não tem por opção. Dois já foram roubados. Resolveu não comprar o terceiro. Prefere andar a pé, de táxi, para dar suas aulas no Centro, ou de metrô. E acha que, assim como ela, todos os cariocas criam mecanismos de sobrevivência para não saírem do Rio.

 

"Aqui tem violência, lá fora tem chuva, vento, frio, outra língua, outra cultura, outro tipo de caráter, relações de amizade completamente diferentes. Aqui é possível construir uma rede de amigos com um afeto muito intenso. Seria muito difícil, por exemplo, existir uma Leila Diniz em qualquer outro lugar do mundo. No exterior, percebi que se vive muito mais sozinho. Por isso, nada me dá mais prazer na vida do que viajar e voltar para o Rio. É um privilégio morar aqui. Não é para qualquer um, mas mesmo assim é uma sorte", diz ela, que nas suas viagens a trabalho bota em prática toda a sua simplicidade. Para a Alemanha, levou dois pares de sapato: uma sandália preta de salto alto, com uma tira de elástico atrás, que garantia o conforto para depois das palestras fazer suas andanças diárias, e um tênis.

 

Seu apartamento também reflete seu estilo de vida. O piso é feito para seus pés: à prova de areia de praia. É só passar a vassoura que tudo se resolve. Os móveis são todos brancos ou pretos. Os detalhes coloridos ficam por conta dos presentes dados pelos amigos. Não ter empregada é outra opção sua. "Mas não cozinho nada. Vou nos restaurantes daqui de perto. Tem um natural que adoro. Tomo meus sucos, faço meus lanches, sem radicalismos e sem complicações", sintetiza Mirian, espontânea, feliz, revelando que toda mulher é um pouco Leila Diniz. Mas em Mirian, essa porção veio caprichada.

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Fonte: JB Online, 29/07/2007.
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