Olá Música-Musicoterapia - acordes para toda a vida

Pedro Lodovicci

Nesta abertura de um diálogo com você, leitor deste Fórum, ensaiamos alguns acordes básicos que nos levam a sentir a música na sua função de otimizar a qualidade de vida especialmente dos idosos e de servir como terapia a um grande repertório de doenças. Assim é que o convidamos a uma escuta musical de nossa trilha sonora – a Musicoterapia.

No espaço musical de nosso Portal do Envelhecimento, vamos por um mês ´tocar` todos os pontos de seu interesse, e, desde já em feliz jam session, todos nós vamos afinando os ouvidos para permitir a emergência de nossos mecanismos musicais... E qual a via para isso?

A escuta de nossa música interna significa resgatar o que se poderia chamar de “identidade sonora” do ser humano: retomar vínculos que se esvaem especialmente com o avançar da idade, de par à tendência de afrouxamento de vínculos, tributária à evolução de nossa civilização.

Por que por meio da música? Porque manifestações não-verbais como a música, o movimento, o som, o silêncio, implicam evocar e recuperar vínculos materno-fetais, materno-infantis, com o próprio ritmo do corpo, com a mãe-natureza, esta entendida como desdobramento dos primeiros – experiência primordial que abre canais de comunicação no ser humano... Não sem razão, o interlúdio do neurologista Oliver Sacks: “O poder da música para integrar e curar...é fundamental. Ela é o mais profundo medicamento não-químico...”. Tem-se, aí, o fenômeno musical intrinsecamente vinculado a seus efeitos terapêuticos.

Por que terapia? Terapia é termo de origem grega designando procedimentos e medicações para o tratamento e/ou cura de doenças. A Musicoterapia, segundo o próprio termo, tem como objetivo fundamental a terapia, que propicia uma forma de viver melhor alguns momentos da vida, de ´esquecer´ ou minimizar – nem que o seja por pouco tempo – os sintomas de uma doença, em que exemplares são a Doença de Parkinson e a de Alzheimer. E o essencial: de forma compartilhada, seja por meio de um diálogo com o próprio instrumento musical, que leva o doente para “outros mundos”, seja por meio da interação com outras pessoas, como os integrantes de um Coral Terapêutico, que juntos compartilham emoções e desejos. Corpo, som e palavra imbricados no mesmo processo terapêutico, contribuem para que o doente transfira para seu cotidiano com familiares e comunidade, o vivenciado no setting terapêutico, de forma equilibrada e harmoniosa.

A Musicoterapia é tratamento coadjuvante a (ou deve estar inserido em) um programa multidisciplinar que envolva concomitante e necessariamente vários outros tratamentos, como o fonoaudiológico, o psicológico e/ou psicanalítico, a terapia corporal, a fisioterapia... Com mente, corpo e espírito em exercício, voltados para práticas sociais – a música por exemplo – uma pessoa mantém-se mais saudável, mais feliz, nutrida de esperanças em relação a seu futuro.

Encerrando esta breve recepção sonora, jogo mais música aos dizeres de Sacks, por meio deste poslúdio:

A Musicoterapia, a nosso ver, é o mais essencial dos processos terapêuticos, porque leva um indivíduo portador de alguma doença, como a de Parkinson, a manter uma posição resiliente diante da vida, ao minimizar a sintomatologia motora e não-motora, ao transformar-se a si mesmo diante da doença, sobrepondo-se a seus efeitos, ganhando força até para estancá-la em sua progressão, além de conseguir mudanças significativas em outros doentes. Tudo isso porque a Musicoterapia possibilita que o indivíduo orquestre mente, corpo e coração, resgatando sua identidade sonoro-musical. Em suma, a Musicoterapia o faz tornar-se maestro de sua própria vida e da vida de muitas outras pessoas que se motivam com sua orquestração.

Pedro Lodovici Neto

É engenheiro formado na FEI quando esta era filiada à PUC-SP. Especialização em Administração no Mackenzie, completando sua formação inicial em exatas. Isso permitiu a Pedro durante décadas atuar nessa área do mercado. Músico por gosto desde criança fundou juntamente com colegas do Mackenzie uma banda de jazz tradicional – a São Paulo Dixieland Band – que em 2008 comemora seus 50 anos de atividades ininterruptas. Sempre devotado aos idosos da família, foi no Programa de Estudos Pós-Graduados em Gerontologia da PUC-SP, sob a orientação da Profa.Dra.Beltrina Côrte que Pedro colocou, na Musicoterapia, seu desejo de unir a música à questão do envelhecimento. Pedro finaliza seu doutorado também em Musicoterapia no Programa de Ciências Sociais: Antropologia do Envelhecimento, sob a orientação da Profa.Dra.Maria Helena Villas Boas Concone. E-mail: pplodo@terra.com.br.