Senhor mercado
Apostar no segmento
da terceira idade é uma estratégia que pode trazer bons resultados
também no Brasil
Por Anderson Gurgel
O Brasil tem envelhecido rapidamente.
Hoje, já tem 120 idosos para cada 100 crianças. Segundo dados do
IBGE, em 2005 a faixa etária de pessoas com mais de 60 anos – que é
conhecida tecnicamente por terceira idade, mas que o mercado está
chamando de sênior – já representava 8,8% dos brasileiros, com
previsão de que esse número chegue a 17% em 2030. Nesse bolo estão
inseridos tanto os “velhinhos clássicos”, aqueles que fazem tricô e
jogam xadrez na praça, como outros que trabalham, viajam
regularmente, fazem academia e consomem produtos e serviços altamente
especializados e sofisticados. Esse segundo grupo surge como parte de
um fenômeno do envelhecimento numa sociedade em que há uma oferta
enorme de alternativas e tecnologias que oferecem qualidade e
prolongamento de vida.
Os dois tipos de terceira idade geram oportunidades de negócio, mas
cresce o foco de atenção de grande parte dos empreendedores no
segundo grupo, de olho numa mudança de comportamento do público
consumidor. Afinal, trata-se de um interessantíssimo mercado, com
grande e variada oferta de itens e acelerada expansão de demanda. E,
diferentemente dos Estados Unidos, onde esse mercado já é uma
realidade consolidada (ver box), no Brasil esse é um nicho de
negócios ainda pouco explorado.
Trabalho contínuo
Segundo o consultor Ricardo Silva, da consultoria internacional GfK,
esse setor injeta mensalmente na economia brasileira um total de R$
10,8 bilhões, ou cerca de R$ 130 bilhões ao ano. “Em termos de
remuneração mensal, o sênior tem um ganho médio maior que o segmento
de 18 a 29 anos, respectivamente R$ 726 contra R$ 581”, afirma. O
poder de compra desse indivíduo também é outro fato que não pode ser
desconsiderado. Há um crescimento dos sêniores no setor mais alto da
pirâmide econômica do País, a classe A. De acordo com Silvar,
enquanto 29% da população brasileira se encontra nessa categoria,
entre os sêniores a fatia chega a 31%.
Uma outra vertente desse mercado é composta por trabalhadores que,
mesmo em idade de aposentadoria, não pensam em dar uma folga ao
trabalho. Muitas empresas têm apostado no sênior como um profissional
de potencial e experiência de sobra para oferecer. É o caso da
americana Pizza Hut, que mantém há dois anos um programa chamado
Atividade, que prevê a contratação de funcionários com mais de 60
anos. O sênior é contratado em carteira e tem plano de carreira, numa
demonstração de que ainda pode crescer na empresa. A iniciativa já
contratou 50 pessoas, o que corresponde a 10% do quadro total da
Pizza Hut no Brasil. “Nossa aposta foi na experiência e na vontade de
aprender desse grupo e a resposta foi a melhor possível, já que o
engajamento com o trabalho é maior do que em outras idades”, diz
Reynaldo Zani, diretor de comunicação da empresa.
Conforto em alto nível
Outro exemplo de êxito junto ao mercado sênior está na área hoteleira
ocupacional assistida para idosos. Lançado em novembro do ano
passado, o empreendimento Residence Care, localizado em São Bernardo
do Campo, na Grande São Paulo, surgiu da conversão de um antigo
hotel. Para isso, o ponto central foi uma reforma de acordo com as
normas ABNT de padrões ergonômicos para esse público, com maior
atenção à segurança: redução de pisos escorregadios e de escadas
desnecessárias e investimento em corrimões e outros itens de
segurança. “Nossa aposta foi no sênior que quer ter qualidade de
vida, se divertir e continuar a agir no mundo”, comenta a
sócia-proprietária Karine Costa. Por esse motivo, o local conta com
biblioteca, DVDteca e acesso à Internet, além de atendimento de
enfermagem e nutrição personalizado. A mensalidade varia de R$
2.750,00 a R$ 3.900,00.
O Residencial Care é a mais nova face de um segmento de negócios que
ganha fôlego e que teve entre seus pioneiros o Residencial Santa
Catarina. Esse projeto, implantado na Zona Sul de São Paulo, foi
criado pelo grupo que administra o hospital de mesmo nome na capital
paulista. Lançado em 2000, tem 125 apartamentos e ocupação fixa de
cerca de 50% com hóspedes de idade média por volta de 80 anos que
podem desembolsar uma mensalidade superior a R$ 5 mil.
Remédios e atividades físicas
O setor de serviços também aposta no crescimento do mercado sênior.
Uma das primeiras a investir nessa faixa etária foi a Droga Raia,
rede de farmácias com cerca de 140 unidades em vários estados, que
deu início a um programa de descontos para aposentados em 1987.
Cristiana Pipponzi, diretora de marketing, comenta que a opção por
fazer um trabalho de fidelização foi uma aposta plenamente
bem-sucedida: atualmente o público sênior corresponde a 50% do
faturamento da empresa. “Hoje, as pessoas vivem mais e muitas
precisam do auxílio de remédios. E o idoso é o cliente que mais
consome medicamentos tarjados”, diz.
A percepção de que, ao se cuidar mais, fica reduzido o número de
problemas de saúde, faz com que esse grupo tenha um foco na
prevenção, com ênfase na qualidade de vida. Academias de ginástica,
agências de turismo, shoppings e universidades abrem a cada dia mais
espaço para os sêniores. Silva, da GfK, destaca nas pesquisas
recentes da consultoria o ganho de espaço para o idoso que prefere
fazer atividades físicas, como caminhar e viajar. “Mais da metade dos
entrevistados pela pesquisa gastam boa parte de seu tempo e de seus
rendimentos em viagens”, exemplifica.
Desafios e oportunidades
Contudo, se o setor de turismo e qualidade de vida já está bem
conectado com os sessentões, há um desafio a ser rompido pelas
mídias, pelas novas tecnologias e pelo comércio eletrônico. Quem
conhece bem o desafio de ganhar espaço junto aos sêniores é Luciene
Craveiro. Atenta às novas oportunidades ao grupo da terceira idade,
ela criou a revista VIV Senior Lifestyle, voltada diretamente para o
público acima dos 60 anos. No mercado editorial há dois anos, a
publicação tem circulação de 20 mil exemplares e já ganhou prêmios no
mercado e leitores fiéis. No entanto, ela acha que grande parte das
empresas ainda têm preconceitos e, por isso, têm medo de associar sua
imagem a esse mercado. “Muitos anunciantes acham que esse grupo se
resume a velhinhos aposentados que jogam dominó, mas os que já
ultrapassaram essa barreira estão gerando muitas oportunidades de
negócios”, conclui.
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Fonte:
Revista Update - Ed. 423, fevereiro de
2006 - Negócios
http://www.revistaupdate.com.br/revista/revista2006-02-03a/materia2006-02-06a/pagina2006-02-06d/index_impressao


