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Um mundo mais velho
O brasileiro que coordena o programa de
envelhecimento da OMS
diz que a sociedade deve se preparar para ter igual número de
idosos e jovens
Por Tiago Cordeiro
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"O fato de a
humanidade ter acrescentado 29 anos a sua expectativa de vida
é a maior conquista do século XX e o
grande desafio do século XXI" |
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Oscar Cabral |
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Para o médico gerontologista Alexandre Kalache, o rápido
envelhecimento da população mundial, tendência que costuma alarmar
os especialistas no assunto, deve ser motivo de comemoração. Segundo
ele, esse novo quadro demográfico vai obrigar os países a
transformar os idosos de fardos para a economia em pessoas
integradas à sociedade produtiva. Kalache coordena desde 1995, em
Genebra, na Suíça, o Programa de Envelhecimento e Curso de Vida, da
Organização Mundial de Saúde, que estabelece políticas públicas
globais para a terceira idade. Segundo o médico, as sociedades terão
de se preparar em várias frentes para um mundo que, em 2050, terá o
mesmo número de idosos e de jovens. A instituição da aposentadoria,
por exemplo, deverá ser totalmente revista. "A tendência é que, em
vez de se aposentar de um dia para o outro, a pessoa reduza a carga
horária devagar, com o passar dos anos. Esse procedimento é o ideal
porque mantém o cidadão integrado à sociedade", opina Kalache. Na
semana passada, o médico, que é carioca, esteve no Rio de Janeiro
para participar do Congresso Internacional de Gerontologia. Ele deu
a seguinte entrevista a VEJA.
Veja – A média da expectativa de vida no mundo, que era de
50 anos em 1900, pulou para 79 anos em 2000. A sociedade está
preparada para abrigar tantos idosos?
Kalache – O fato de a humanidade ter acrescentado 29 anos
a sua expectativa de vida é a maior conquista do século XX e o
grande desafio do século XXI. Em muitos países, mesmo na Europa,
ainda persiste a mentalidade de que a população é predominantemente
jovem. O sistema de saúde e a infra-estrutura urbana não levam em
consideração o aumento acelerado de pessoas na terceira idade. Na
França, um país rico, idosos morreram aos milhares durante a onda de
calor de 2003. Em 2050 o número de idosos no mundo vai ser
equivalente ao de jovens, e é preciso que as sociedades se preparem
para essa mudança. O idoso de 2050 não é uma abstração, ele é o
jovem de hoje. A geração que atualmente está próxima da
aposentadoria, os chamados baby boomers, nascidos depois da
II Guerra, talvez mude a forma como entendemos o envelhecimento.
Veja – De que maneira isso pode acontecer?
Kalache – Essa geração, nascida entre 1950 e 1964, criou
o conceito de adolescência como o conhecemos hoje, uma fase com seus
próprios problemas e demandas. Ela promoveu uma revolução sexual e
de costumes. Agora, está redefinindo as expectativas pessoais e
profissionais da vida adulta. Essa geração vai nos ensinar que
envelhecer participando da sociedade é mais importante do que
envelhecer com saúde. Seus integrantes têm um padrão educacional
muito mais alto do que seus pais e avós. Vão envelhecer exigindo ter
voz ativa e serão muito mais exigentes com seus médicos e
familiares. Serão também grandes consumidores. O mercado de turismo
já tem muitas agências especializadas nesse setor. Há carros sendo
projetados especialmente para essa geração, com portas mais largas,
poltronas que se elevam para que o motorista entre com mais
facilidade e pára-brisa maior. Por causa dos baby boomers, o design
do século XXI vai ser simplificado.
Veja – As famílias estão ficando menores e a diferença de
idade entre as gerações está aumentando. Esse distanciamento pode
provocar conflitos na convivência doméstica?
Kalache – O risco de conflitos não tende a aumentar
porque o avô e a avó sempre exercem um papel conciliador. O mesmo
vale no ambiente profissional. Uma grande rede de supermercados da
Inglaterra tem como política contratar pessoas com mais de 60 anos
para fazer pequenos trabalhos. A administração chegou à conclusão de
que a presença do idoso no ambiente profissional faz com que os
conflitos entre chefes e empregados diminuam. O mais velho é aquele
que conversa com o chefe, dá algumas sugestões ponderadas e acalma o
ambiente. O mesmo pode acontecer na família, desde que os membros
mais idosos não participem dela apenas por falta de opção.
Veja – Como será possível sustentar cada vez mais idosos
aposentados sem que o sistema previdenciário dos países entre em
colapso?
Kalache – Para pagar a conta dos aposentados, a solução é
manter as pessoas trabalhando por mais tempo. A previdência social,
no mundo todo, está numa encruzilhada. O risco é acontecer em muitos
países o que acontece no Brasil, em que se tem um sistema fantástico
só para a elite e quase nada para a maioria da população.
Veja – Isso significaria rever a instituição da
aposentadoria?
Kalache – Exatamente. A idade média em que as pessoas se
aposentam vinha caindo de forma alarmante, mas hoje há uma reversão
nesse quadro. Em 1995, nos países-membros da União Européia, 30% dos
trabalhadores tinham mais de 50 anos. Esse número deve aumentar para
48% em 2030. A tendência é que, em vez de se aposentar de um dia
para o outro, a pessoa reduza a carga horária devagar, com o passar
dos anos, e faça trabalhos que não dependam da força física. Esse
procedimento é o ideal, porque mantém o cidadão integrado à
sociedade.
Veja – Mesmo que queiram continuar produtivos, os idosos
têm pouco espaço no mercado de trabalho. É possível aproveitar
melhor a experiência deles?
Kalache – A integração do idoso à sociedade pode acontecer de
outras formas. Não é de hoje que a economia de mais de 3.000
municípios do Brasil gravita em torno daquele dinheirinho da pensão.
O valor da pensão parece uma miséria, mas é fundamental, movimenta o
comércio e gera crédito para toda a família. Na África, é a mulher
idosa que cuida dos filhos e dos netos vítimas de aids. Na Espanha,
segundo uma pesquisa recente, as mulheres entre 75 e 84 anos que têm
doentes em casa dedicam em média cinco horas e meia por dia para
cuidar deles. Se essas mulheres idosas fizessem greve, o sistema de
saúde entraria em colapso.
Veja – Os problemas de saúde enfrentados pelos idosos são
diferentes nos países desenvolvidos e nos países em desenvolvimento?
Kalache – Não. As causas de mortalidade do idoso são as
mesmas na África ou na Noruega. Nos países em desenvolvimento,
depois que se escapa da morte prematura na infância, a expectativa
de vida passa a ser muito próxima à dos países desenvolvidos. O
idoso favelado no Brasil hoje morre de câncer, de derrame, do
coração e de diabetes. Antes, ele não vivia o suficiente para sofrer
desses males, que eram considerados doenças de rico. Hoje, os pobres
têm acesso a um sistema de saúde melhor do que há vinte anos. Os
ricos, por outro lado, aprenderam a se alimentar melhor e,
beneficiados pelos avanços da medicina, adquiriram condições de
evitar ou adiar males fatais.
Veja – Como evitar que o dinheiro destinado à saúde dos
idosos sacrifique os gastos no atendimento a gestantes e crianças?
Kalache – Trinta anos atrás, os médicos precisavam de
muito treinamento nas áreas de obstetrícia e pediatria, porque havia
uma massa enorme de mulheres tendo filhos. Agora, as demandas são
outras. Continuar com aquele modelo antigo, do centro de saúde feito
para a criança, é perder a perspectiva de que o mundo está em
transformação. Um hospital que atenda ao idoso beneficia a todos. É
um lugar com facilidade de acesso aos quartos, sinalização clara,
profissionais bem treinados, uma sala de espera confortável e
banheiros adequados.
Veja – A chegada à terceira idade é igual para homens e
mulheres?
Kalache – As mulheres vivem mais e são mais pobres porque
recebem aposentadorias menores. Além disso, por causa de hábitos
culturais, elas se casam com homens mais velhos, o que traz um
período de viuvez empobrecida que dura em média quinze anos. É nesse
período que elas mais precisam de ajuda e acabam indo morar com a
família. Uma pesquisa recente apontou que a mulher mais propensa à
depressão é a idosa que vive com os filhos e mora num apartamento
apertado, dormindo no quarto dos netos adolescentes. Essa idosa
acaba sendo vítima de vários tipos de abuso.
Veja – Que tipo de abuso?
Kalache – A OMS estima que entre 7% e 10% dos idosos do mundo
sofrem algum tipo de maus-tratos físicos e psicológicos
constantemente. Uma forma cada vez mais comum, principalmente nos
países ricos, é o abuso financeiro. O idoso acaba sendo extorquido
pelos familiares. Há vinte anos, os países se recusavam a admitir a
violência doméstica contra a mulher e a criança. Agora estamos
começando a levantar dados sobre os maus-tratos aos idosos.
Veja – Os países orientais têm fama de tratar bem seus
idosos. É verdade?
Kalache – À medida que as sociedades se modernizam e se
urbanizam, a cultura de reverência aos idosos vai se diluindo. A
sociedade oriental se transformou e a juventude tem outros valores.
No Japão existem delinqüentes juvenis especializados em assaltar
velhinhas. Em países da Ásia, já andei em ônibus em que os velhinhos
vão em pé e ninguém se levanta para oferecer o assento.
Veja – Que países protegem melhor seus idosos?
Kalache – As nações ricas têm melhor infra-estrutura e
oferecem mais oportunidades de emprego, recreação e educação. Porém,
existem outros fatores igualmente importantes para o bem-estar dos
idosos. Os brasileiros ainda cultivam um carinho no trato pessoal e
uma afabilidade com os mais velhos que não existem na Europa e na
Ásia. Essa atitude é muito positiva e difícil de medir. Tanto o
Brasil como a África do Sul têm projetos fantásticos com os quais se
pretende garantir a pensão automática para os idosos pobres que não
contribuíram para a Previdência.
Veja – Com que idade é preciso se preparar para
envelhecer?
Kalache – A partir da hora em que se nasce. Envelhecer é
um processo e, agora que a vida das pessoas se tornou mais longa, a
sociedade precisa responder com medidas práticas. Transporte
público, por exemplo. Uma sociedade que não tem ônibus adequados
condena o idoso a ficar ilhado em casa. Outra questão é o
calçamento. Como é que você vai pedir que o idoso tenha uma
atividade física se as ruas estão cheias de buracos?
Veja – Depois do Viagra, a vida sexual dos idosos deixou
de ser tabu?
Kalache – Em alguns países, como a Dinamarca, a Holanda e
a Inglaterra, já não é tão escandaloso que o idoso viúvo saia para
paquerar. Mas o homem é mais bem-aceito do que a "velha assanhada".
Esta é pressionada para viver seus últimos anos como uma pessoa
recatada, que não pode pensar em sexo.
Veja – Um mundo mais idoso será mais conservador?
Kalache – Uma população envelhecida não é necessariamente
mais conservadora. Na França, no recente referendo sobre a
Constituição da União Européia, 58% dos cidadãos de 50 a 64 anos
votaram a favor de sua aprovação. Se dependesse deles, o país teria
dado um sim categórico à Constituição. Na Europa, pela primeira vez
os países têm de se preocupar com o envelhecimento da população
imigrante. Agora, o trabalhador da Jamaica ou do Paquistão que se
aposenta na Inglaterra tem força política e tende a não ser
conservador. O idoso do passado não tinha o hábito de votar. Hoje,
vota.
Veja – Não é difícil promover campanhas pela valorização
da terceira idade num mundo que celebra a juventude?
Kalache – São pouquíssimos os exemplos de valorização da
idade madura. Há seis anos, estive com a atriz Jane Fonda e pedi que
nos ajudasse numa campanha de conscientização para criar uma
sociedade atenta ao idoso. Ela se negou taxativamente. Há muitas
pessoas idosas famosas e muito bonitas que só querem projetar uma
imagem de juventude. É o caso da atriz Sophia Loren e do ator Paul
Newman. Eles não querem projetar uma imagem de beleza, mas de
juventude. No Brasil, isso é pior ainda. Conversei muito com as
atrizes Tônia Carrero e Fernanda Montenegro e elas também não
quiseram participar de campanhas de valorização da terceira idade.
Estar associado a envelhecimento, pelo jeito, é ruim para a imagem
do artista. Agora, estamos fazendo um apelo para que Pelé, que
completa 65 anos neste ano, seja nosso embaixador.
Veja – As pessoas hoje vivem mais e os casais têm menos
filhos. Como isso vai se refletir na demografia do planeta?
Kalache – Até o fim do século passado o mundo vinha
envelhecendo por causa da diminuição, em termos relativos, do número
de jovens. Esse fenômeno começou na Europa, mas hoje já se espalhou
pelo resto do mundo. No Brasil, a média de filhos por mulher caiu de
5,8 no começo dos anos 70 para 2,1. Esse é exatamente o valor da
taxa mínima de reposição populacional: dois filhos por casal mais
uma pequena margem para cobrir a mortalidade infantil. Existem hoje
setenta países com índices de fecundidade abaixo da taxa de
reposição. Há vinte anos, eram só 22. Daqui a quinze anos, serão 123
países de todos os continentes, com exceção da África. O
envelhecimento da população do mundo é um processo irreversível.
Veja – O senhor completa 60 anos em outubro. Está pronto
para envelhecer?
Kalache – Tenho excelentes hábitos alimentares e sou
bastante ativo. Mas o mais importante é ter projetos. Os índices de
morte no ano seguinte à aposentadoria são muito altos porque, de
repente, você se sente inútil, e isso tem um impacto grande na
saúde. Não pretendo parar de jeito nenhum. A aposentadoria não está
na minha agenda.
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Fonte: Revista Veja Edição 1912, Ano 38, n.º 27 - 06/07/2005
Disponível em:
http://veja.abril.com.br/060705/entrevista.html |

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