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A morte complexa
O filósofo Peter
Singer vê como justificável o desligamento do Sérgio Dávila, da Califórnia
Se a defesa do livre-arbítrio entre o chamado grupo "pró-escolha" tem um radical nos EUA, este responde pelo nome de Peter Singer. O titular da cadeira de bioética da Universidade Princeton é autor da seguinte frase: "Matar um recém-nascido deficiente não é igual moralmente a matar uma pessoa. Algumas vezes, simplesmente não é errado". A declaração está em um de seus livros mais conhecidos, "Ética Prática" (ed. Martins Fontes), uma entre dezenas de obras lançadas sobre temas que vão da defesa dos animais à redistribuição de riqueza. Opiniões semelhantes lhe valeram epítetos como "um dos filósofos mais influentes vivos" mas também comparações com o segundo homem de Adolf Hitler, Martin Bormann -feita pelo "Wall Street Journal"-, o apelido de "titular da cátedra Josef Mengele de bioética de Princeton" -dado por um congressista norte-americano- e "defensor público do genocídio" e "o homem mais perigoso na Terra", segundo Diane Coleman, líder do grupo de direitos dos portadores de deficiência Not Dead Yet (Vivos Ainda). Desde que o caso Terri Schiavo tomou o lugar na prateleira de obsessão norte-americana antes ocupado pelo julgamento de Michael Jackson, que derrubou a separação dos atores Jennifer Aniston e Brad Pitt etc., o filósofo australiano de 58 anos tem sido instado a dar sua opinião, que é repelida com força quase igual pelos liberais, que a acham polêmica demais até para eles, e pelos conservadores, principalmente pela direita cristã instalada em Washington, que vê no acadêmico a "bête noire" de tudo em que acredita e defende. Peter Singer falou sobre o caso Schiavo à Folha por e-mail, da Austrália, onde passava alguns dias. Leia a seguir entrevista: Folha - Em "Ética Prática", o sr. escreveu que assassinar um recém-nascido deficiente não é o equivalente moral de assassinar uma pessoa. E se o deficiente em questão fosse um ser adulto em estado vegetativo, como parecia ser o caso de Terri Schiavo? Peter Singer - Adultos que foram um dia normais e capazes de expressar suas opiniões são diferentes de recém-nascidos. Qualquer decisão dependerá muito do que eles quereriam quando eram capazes. Mas, se não há maneira nenhuma de saber qual era esse desejo e se eles estão clara e irreversivelmente inconscientes, então é justificável matá-los. Folha - O sr. disse em uma entrevista que apóia a mudança da lei para permitir que as próprias pessoas decidam dar fim às suas vidas, se elas são doentes terminais ou têm doenças incuráveis. O sr. também disse ser contra a lei que autoriza a pena de morte. Qual a diferença entre a lei que permite que o Estado execute um prisioneiro e a lei que permite que o Estado autorize que uma pessoa doente se mate, se assim desejar? O princípio -o Estado ter ou não leis que autorizam a morte-, independentemente da "qualidade" do cidadão que está sendo morto, não é o mesmo? Singer - Não, é obviamente totalmente diferente se uma pessoa quer morrer. O que é -normalmente- tão deplorável a respeito de matar pessoas é precisamente o fato de elas quererem seguir vivendo e de elas poderem aspirar a uma série de objetivos que nós todos como sociedade concordamos em que são desejáveis. Uma pessoa em estado terminal está em uma situação completamente diferente de alguém saudável que quer continuar a viver. Folha - E quem define que tal pessoa é um doente terminal? Os médicos? Mas eles não cometem erros? A lei? A própria pessoa? Mas, estando esta com uma doença incurável, ela terá a mente clara o suficiente para saber o que é melhor para ela? Quais são os critérios para uma vida que "não vale a pena ser vivida" e quem os define? Singer - Você está me fazendo duas perguntas diferentes aqui. Os médicos são aqueles que devem determinar se a pessoa tem alguma chance de sobrevivência. É claro que eles podem cometer erros, mas é o máximo com o que podemos contar, o melhor aconselhamento médico possível - no seu melhor conhecimento, embora saibamos que seja falível. Mas são os pacientes que devem decidir se suas vidas devem continuar sendo vividas, porque esse é um questionamento que envolve valores, não fatos. Eles devem decidir baseados no melhor aconselhamento médico possível, mas tem de ser decisão deles, desde que sejam mentalmente competentes e tenham tido tempo de pensar a respeito dessa decisão... Folha - O sr. acha que o caso Schiavo foi mais um duelo de forças entre os liberais e a direita religiosa, que ganhou novo alento com a reeleição de George W. Bush, do que propriamente uma batalha para "salvar" Terri Schiavo? Singer - Sim, acho que é evidente que a direita religiosa está mostrando suas garras - mas de uma maneira tipicamente errática, na qual o resultado fará pouca diferença para o resto do país. A perda de energia e dinheiro relacionados a esse caso - convocando os congressistas e o próprio presidente Bush a voar de volta para Washington no meio de um fim de semana, por exemplo - foi ridícula. Tal dinheiro e energia poderiam ter salvo muitas vidas se fossem direcionados a algumas das famílias dos norte-americanos mais pobres, ajudando a ter acesso a um plano básico de saúde... Folha - A direita religiosa não teme que uma mudança na lei, que leve em consideração o desejo do marido de Terri Schiavo, possa abrir uma porta para fortalecer grupos e pessoas "pró-escolha", que defendem o aborto e a eutanásia, como o sr. mesmo? Singer - Não, não vejo conexão direta aqui, mas tudo faz parte do que eles acreditam ser uma batalha entre o bem e o mal. Folha - Como o sr. explica então o envolvimento do próprio presidente num caso que envolveu uma mulher supostamente em estado vegetativo e o desejo, segundo seu marido, que ela expressou anteriormente? Singer - Ele se envolveu por motivos políticos, porque deve sua reeleição a essa direita religiosa. E isso é especialmente irônico, porque os conservadores sempre se disseram contrários à intrusão do governo na vida privada. Folha - No domingo passado, o "Los Angeles Times" revelou que há dez anos o congressista Tom DeLay, líder da maioria republicana no Congresso e um dos que tomaram a frente do caso Schiavo contra a morte assistida, permitiu que seu pai sofresse eutanásia. Qual sua opinião sobre essa aparente hipocrisia ou, na melhor das hipóteses, mudança de pensamento? Singer - Reforça o que eu venho dizendo -que DeLay age por motivos políticos, não por convicção pessoal. Folha - Tendo o sr. como alvo, um colunista escreveu recentemente que a divisão por que os EUA passam desde as últimas eleições também atinge a bioética. Teríamos, assim, os bioéticos dos Estados azuis (a cor do Partido Democrata) e os bioéticos dos Estados vermelhos (do Partido Republicano)? Singer - Isso é muito simplista, mas há realmente bioéticos que estão apenas defendendo seus pontos de vista religiosos e outros que estão tentando pensar sobre essas questões sem idéias preconcebidas. ______________________________
Fonte:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs0304200506.htm,
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