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Para o cérebro, sexo e amor
não passam de sentimentos
Neurocientista português radicado nos EUA diz que até mesmo a
razão tem suas raízes no corpo.
A ciência acaba de
invadir um dos últimos territórios livres da poesia. Um livro
recém-lançado no Brasil afirma que os sentimentos não passam de
noções que o cérebro cria sobre o estado do corpo. Longe de serem
abstrações, são fenômenos fisiológicos bem definidos - e
fundamentais tanto à sobrevivência quanto à construção da razão.
A hipótese é do pesquisador português António Damásio, do Depto. de
Neurologia da Universidade de Iowa (EUA), e está delineada na obra
Em Busca de Espinosa. Segundo Damásio, estados de espírito como
tristeza, orgulho, empatia e amor são manifestações de um mecanismo
biológico responsável pelo equilíbrio geral do organismo (a
homeostase).
"Aquilo que define alegria ou tristeza é a descrição do estado em
que o corpo fica quando nós temos alegria ou tristeza", diz. Da
mesma forma, o amor romântico seria em parte uma invenção social,
elaborada a partir de um sentimento básico: a atração sexual.
Experimentos feitos pelo grupo de Damásio com técnicas de mapeamento
do cérebro, mostram um aumento na atividade de zonas cerebrais
específicas toda vez que os pacientes testados declaravam estar
sentindo uma emoção. Outros estudos da equipe, mais surpreendentes,
revelaram que portadores de lesões nessas áreas eram incapazes de
sentir vergonha ou compaixão.
Essa integração corpo-mente já havia sido intuída no século 17 pelo
filósofo holandês Benedictus Spinoza, ou Bento Espinosa (1632-1677),
que é tido por Damásio um patrono não-reconhecido da neurobiologia.
Espinosa foi excomungado por negar a divisão entre matéria e
espírito.
Damásio dedica seus estudos a entender a base biológica de processos
mentais, como as emoções e a consciência, com o mesmo objetivo:
enterrar o dualismo. Ele já havia proposto em 1994, no livro "O Erro
de Descartes", que as emoções são fundamentais para a tomada de
decisões pelo cérebro - e que são racionalíssimas, sim.
Os sentimentos adicionam uma ordem de complexidade às reações
emocionais. "Se só tivéssemos a emoção, a emoção viria e passaria, e
não haveria maneira de marcar fortemente aquilo que a emoção é.
Tendo sentimento, nós temos a possibilidade de tomar consciência
daquilo que aconteceu em relação a certo objeto. Permite-nos também
colocar na memória essa ligação", diz o pesquisador.
Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, concedida por telefone de
seu escritório em Iowa City, Damásio falou sobre amor, agressão,
controle social e Deus - para ele, uma das grandes invenções do
cérebro.
A seguir, trechos da entrevista:
Folha - O argumento central do livro é
que os sentimentos são apenas a maneira como o cérebro percebe o
estado do corpo. Como o sr. chegou a essa conclusão?
António Damásio - A conclusão vem de
uma série de linhas de investigação. Umas teóricas, desenvolvidas ao
longo de muitos anos, e outras experimentais. Do ponto de vista da
minha intuição, sempre me pareceu que sentir uma emoção, antes de
mais, era sentir o que se passa com o corpo quando temos essa
emoção. Portanto, quando nós temos um estado de alegria ou um estado
de tristeza, aquilo que define alegria ou tristeza é a descrição do
estado em que o corpo fica quando temos alegria ou tristeza.
Folha - Então só me sinto feliz a
partir do momento em que as áreas do meu cérebro detectam uma
mudança fisiológica no meu corpo?
Damásio - Exato. Há outro sistema,
chamado as-if body loop (algo como 'circuito pseudocorporal'). Por
vezes, a alteração pode ser construída muito rapidamente nos
próprios mapas do cérebro. Em vez de você ter de ir até o corpo,
mudar o corpo e avaliar o que aconteceu com o corpo, você pode
alterar diretamente o estado dos mapas (representações) do corpo no
cérebro. O resultado final é o mesmo: você só pode sentir aquilo que
está nos mapas do corpo, mas não é preciso que os mapas correspondam
à realidade.
Folha - Para que servem os sentimentos?
Damásio - Os sentimentos permitem-nos
chamar a atenção para alguns estados emocionais que estão ligados a
certas causas. Se só tivéssemos a emoção, a emoção viria e passaria
e não haveria maneira de marcar fortemente aquilo que a emoção é e a
maneira como ela se relaciona com um determinado objeto. Tendo
sentimento, nós temos a possibilidade de tomar consciência daquilo
que aconteceu em relação a certo objeto -a pessoa amada, ou alguma
causa de perigo. Permite-nos também colocar na memória essa ligação.
O sentimento é quase o princípio da nossa vida autoconsciente, em
que nós podemos nos lembrar do que é bom e daquilo que é mau.
Portanto, nos permite fazer escolhas mais inteligentes. É um
elemento fundamental da construção da memória e da própria razão.
Folha - Os neurocientistas não gostam do termo 'pílula da
felicidade', mas seria algo próximo disso?
Damásio - Não propriamente, porque não
gosto do termo, mas tudo tem a ver com a forma como a sociedade
aceita ou não certas intervenções. E eu não gosto da idéia de as
pessoas tomarem pílulas da felicidade, em vez de verificarem como
funcionam e analisarem os próprios problemas. Mas tomar pílulas para
não estar deprimido e não sofrer com dor física, isso é
absolutamente correto.
Folha - Para a maioria das pessoas é
difícil imaginar abstrações como compaixão e amor romântico como
derivadas de um mapeamento cerebral do corpo, um mecanismo
aparentemente simples.
Damásio - Não parece assim tão difícil
de imaginar. Essa é uma das grandes contribuições da literatura e da
poesia clássicas, relacionar coisas como o amor romântico, a atração
sexual ou a compaixão com o corpo. Você encontra isso em
Shakespeare, em Dante, nos românticos ingleses. Todos eles
perceberam muito bem que o amor e coisas quetais estão relacionados
com o corpo. Essa é a razão pela qual eu coloquei o Espinosa de uma
forma tão saliente no livro. Ele teve a intuição clara de que o
corpo era absolutamente decisivo para a emoção, que não é possível
conceber emoção sem a alteração do corpo.
Folha - O amor, no caso, seria uma
construção cultural, e o real sentimento seria a atração sexual?
Damásio - Sim, pode-se construir dessa
maneira. Eu acho que há um elemento básico, que é a atração sexual,
que é totalmente corporal, como é fácil perceber, que está ligado à
homeostase, a regulação biológica que vem da evolução. Mas depois
também há certos estados emocionais que têm a ver com dedicação ao
outro, compaixão e uma série de outras emoções de tipo social que
estão ainda relacionadas com o corpo, elas próprias também
transmitidas pela evolução. E depois há toda uma construção
cultural, que vem juntar muitas outras dimensões intelectuais àquilo
que começa como uma variação emocional relativamente simples.
Folha - Há sentimentos mal-adaptativos?
Damásio - Imensos. Por exemplo, as
emoções que levam a agressão e violência, zanga, orgulho, desprezo
-são sentimentos extremamente negativos, que têm uma raiz evolutiva
muito antiga. Eram úteis quando a organização social era simples e
hoje podem ser nefastos. Até mesmo o medo é um sentimento
extremamente importante e valioso, na maior parte dos casos, mas que
pode ser negativo e levar à doença.
Folha - O conhecimento cada vez maior
de neurobiologia pode substituir o controle social dos sentimentos
pelo controle químico?
Damásio - Pode ser que o controle
químico possa ajudar. Mas o problema, para começar, é que o controle
químico não é uma realidade. Claro, quando as pessoas bebem álcool,
ou tomam drogas como o Prozac, estão fazendo um controle químico,
mas extremamente grosseiro. Quando nós tivermos um conhecimento
detalhado [do cérebro], é possível que esse controle químico seja
melhor. Mas o problema continuará sendo cultural, porque a forma
como esse controle químico pode ser utilizado é extremamente
problemática. Por exemplo, você não vai querer que esse controle
químico esteja nas mãos do poder político. Se ainda dermos mais
armas aos que já nos controlam pelas idéias, estamos mesmo lixados.
Folha - O sr. escreveu em 1999 que em
2050 nós teremos conhecimento suficiente do funcionamento do cérebro
para eliminar o dualismo corpo-mente. Quais são as implicações
éticas que o sr. vê nisso? Estamos falando de uma sociedade sem
Deus...
Damásio - A eliminação da dualidade
corpo-espírito para mim não é um problema. O que é um problema é
passar-se de uma sociedade na qual todas as nossas tristezas e
angústias eram resolvidas por meio da fé para uma sociedade na qual
temos de resolver as angústias com coragem de pensar que pode ser
que não haja um Deus a quem se possa pedir ajuda. E que, por outro
lado, a ajuda tem de ser construída como instrumento social, com o
sentido de justiça, compaixão, respeito, tratamento de doenças.
Folha - Isso não sugere a transferência
da autoridade moral da igreja para o laboratório?
Damásio - Isso é completamente
disparatado. Eu tenho o maior respeito pela fé e pela crença que as
pessoas têm. Se há alguém que acredita em Deus e utiliza a fé como
suporte para sua felicidade, isso me dá um imenso gosto. O que não
quero é que venham negar a possibilidade de explicar biologia e o
Universo de uma forma científica. Não há razão nenhuma para a
ciência ser intolerante da crença religiosa, até porque o impulso
religioso é uma tentativa muito inteligente dos seres humanos de
resolverem seus problemas. Eu discuto no livro a idéia de que há uma
enorme beleza em tentar resolver o nosso drama, em lidar com a
mortalidade e a dor, de uma forma religiosa. É uma das grandes
invenções dos seres humanos.
Folha - O sr. afirma no livro que
comportamentos éticos podem ter uma base neurobiológica. Como essa
idéia pode ser testada?
Damásio - De muitas maneiras. Estamos,
no nosso laboratório e em outros, vendo a forma como lesões em
certas zonas do cérebro de crianças, adolescentes e adultos podem
levar ao bloqueio de certos comportamentos éticos. O modo como pode
levar à perda da compaixão, do sentido da vergonha, a comportamentos
sociopáticos e tudo o mais.
Folha - Como tratar essas pessoas?
Existe um tratamento para impiedade, por exemplo?
Damásio - Aquilo que estamos fazendo
primeiro é perceber como isso pode acontecer. Se é possível ou não
interferir nesses comportamentos, é outra história.
Folha - Espinosa foi um cidadão de
origem portuguesa, escrevendo num país estrangeiro, numa língua
estrangeira. Ele é o seu herói, ou seu alter-ego?
Damásio - Não é. Se é, é inconsciente
(risos). Espinosa é uma figura admirável, porque é uma pessoa capaz
de defender suas convicções, sabendo que elas vão lhe fazer a vida
mais complicada. Ele teve uma intuição sobre aquilo que as emoções
são que é extremamente valiosa, que precede a intuição do William
James, que admiro imensamente. Espinosa chegou primeiro.
Fonte: Folha de São
Paulo. |

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