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Avós e netos: uma relação afectiva, uma
relação de afectos

 

Por Liliana Sousa* - pesquisadora mentora
Diretamente para o Portal

 

Resumo 

Esta reflexão sobre a relação afectiva e educativa entre avós e netos pretende identificar o conjunto de desafios que se colocam a esses dois actores numa fase de acentuadas alterações sociais e demográficas. Centra-se no laço avós-netos enquanto um espaço de encontro de gerações, onde se cruzam diferentes tempos sociais, individuais e familiares. Aborda os diferentes estilos adoptados pelos avós na relação com os netos e analisa os papéis desempenhados pelos avós mais apreciados pelos netos. Finalmente, tenta compreender o triângulo relacional em que pais, avós e netos se envolvem, analisando as implicações para o desenvolvimento de laços mais ou menos adequados com a geração mais nova.  

Introdução 

A reflexão sobre a relação avós-netos remete-nos, inevitavelmente, para as nossas experiências: os nossos avós, os nossos netos! No meu caso fez-me reviver com intensa saudade as memórias do meu avô (materno) Delfim, o único avô com quem convivi: morreu aos 81 anos, quando eu tinha 15 anos. Não conheci as minhas avós, pois ao contrário do que é comum, morreram antes dos maridos: a minha avó materna Rosa – morreu antes de eu ter nascido, a minha avó paterna – Olinda – morreu quando era eu pequena (tinha uns 5 anos). O meu avô paterno – Luís - morreu quando tinha 20 anos, mas vivia longe e nunca convivi com ele.

As memórias dos meus avós, principalmente do meu avô Delfim, conduziram-me a reflectir sobre a relação avós-netos em quatro linhas: as implicações das mudanças sociais e demográficas, uma vez que apesar de apenas terem passado uns 20 anos desde que eu deixei de poder conviver com qualquer dos meus avós, há um conjunto de alterações que estão a reformar a interacção avós-netos; o espaço de encontro de gerações vivenciado entre avós e netos, uma vez que as memórias que tenho são de uma menina pequena que se confronta com os avós e os pais com ideias e mundos de vida diferentes, interagindo e aprendendo em conjunto; os diferentes estilos de ser avô, pois apesar de ter convivido com apenas um dos meus avós, a minha experiência profissional e pessoal mostram que há várias formas de exercer os papéis de avô e neto; o triângulo relacional avós-pais-netos, já que a relação avós-netos pode ser vista como autónoma, mas os pais fazem sempre parte dela. 

1. Mudanças sociais e demográficas e implicações na relação avós-netos 

Torna-se quase impossível reflectir sobre a relação avós-netos sem fazer referência às mudanças sociais e demográficas que as têm vindo a modificar e a tornar mais possíveis (Sousa, Figueiredo & Cerqueira, 2004). 

Aumento da esperança de vida com (in)dependência
A actual
geração de avós é a primeira na história que pode esperar ter tempo para ver os netos crescer e serem adultos. Actualmente, a assunção do papel de avô/avó ocorre em média entre os 50 e os 60 anos, o que possibilita que avós e netos possam esperar

viver  viver em comum 2 a 3 décadas, sendo que a terceira década ocorrerá com os netos adultos. Este maior tempo conjunto pode ocorrer num contexto de dependência ou independência dos avós, daí que não se possa desejar apenas que os avós cuidem dos netos, cada vez mais poder-se-á esperar que também os netos cuidem dos avós. Assim, emerge uma relação de cuidados recíproca: os avós cuidam (ou ajudam a cuidar) dos netos enquanto estes são mais pequenos e os netos poderão cuidar dos avós quando estes chegarem uma fase da vida de maior debilidade. 

Neste contexto de prolongamento da vida, verifica-se que a actual geração de netos é a primeira que pode esperar conhecer os quatro avós. Há poucas décadas atrás, sendo a esperança de vida mais reduzida, apenas alguns avós resistiam mais anos, por isso o mais natural seria os netos conhecerem um ou outro avô, mas raramente os quatro. Esta convivência cria um conjunto de laços e desafios. Os laços novos centram-se, essencialmente, na interacção entre avós maternos e avós paternos, que terão de construir uma relação entre si, ainda que mediada pelo neto.  

Estes novos laços constituem um desafio para avós e netos: os avós têm de interagir entre si, complementando-se e dando carinho e afecto ao seu neto comum; os netos terão de aprender a lidar com quatro avós diferentes, adaptando-se aos estilos diferentes e repartindo o seu tempo. Kornhaber (1996) estudou os aspectos que podem afectar as relações avós-avós, identificando as seguintes: diferentes origens culturais (levam a confusão e competição); diferentes níveis económicos e recursos (causa ressentimento, especialmente, nos menos favorecidos); diferentes origens religiosas (gera-se competição para conquistar a preferência do neto); diferentes opiniões, valores e estilos de vida (cria divisão e, até, hostilidade na família).  

O aumento da esperança de vida tende, cada vez mais, a adicionar uma outra geração nestas relações: os bisavós. Verifica-se, actualmente, que 20% das mulheres que morrem com 80 ou mais anos são bisavós. Podemos esperar, cada vez mais, que os avós vejam os netos crescer e até ter filhos, por isso a relação bisavós-bisnetos começa a emergir como potencialmente importante. Este laço tem sido muito pouco estudado, principalmente, pela sua raridade que, com certeza, virá a diminuir nos próximos anos. 

Melhoria da qualidade de vida
O
aumento da esperança de vida tem sido, felizmente, acompanhado pela melhoria da qualidade de vida. Existem, ainda, muitos avós que vivem em condições de pobreza e vulnerabilidade social, mas existe uma tendência para que tenham mais formação académica e melhores rendimentos. Esta melhoria nas condições de vida permite que os avós não tenham que manter actividades de subsistência para equilibrar os seus rendimentos e, assim, disponham de mais tempo para os netos. Ao mesmo tempo, tendo mais formação podem proporcionar mais e novas experiências aos seus netos. De qualquer forma, mesmo os avós com menos formação e poder económico sempre encontram alternativas criativas para estar junto dos netos e lhe providenciarem afecto. 

 

Verticalização das famílias
As
famílias estão a tornar-se mais verticais devido à diminuição da taxa de natalidade, mais mulheres que escolhem não ter filhos e aumento da longevidade, ou seja, co-existem várias gerações, cada uma delas com poucos elementos, sendo as mais novas aquelas que menos membros têm. Como os casais têm filhos mais tarde, a diferença de idades inter-geracional é maior, nesta sequência pode esperar-se que famílias de quatro gerações se tornem cada vez mais comuns, com maiores diferenças de idade. No que respeita à relação avós-netos, daqui resulta a diminuição do número de netos, permitindo que os avós possam dar uma atenção mais individualizada aos netos. Aliás, é curioso verificar que antes existiam menos avós para mais netos, agora mais avós para menos netos. Voltando à verticalização das famílias, é importante referir que esta circunstância acarreta, igualmente, o aumento da importância das relações inter-gerações, uma vez que diminuem os colaterais, mas aumenta o número de gerações. 

 

Integração das mulheres (mães) no mercado de trabalho
O
aumento das mulheres/mães que integram o mercado regular de emprego tem vindo a exigir uma modificação na implicação dos avós na educação dos netos: por exemplo é cada vez mais frequente que os avós assumam tarefas como levar os netos ao infantário ou à escola, que os levem às actividades extra-curriculares, … Contudo, é de prever que esta situação sofra algumas alterações, uma vez que também os avós (avô e avó), cada vez mais, estão inseridos no mercado de trabalho e desempenharão essa actividade até mais tarde. Por isso, este recurso aos avós poderá estar em risco e ser necessário encontrar outras formas de apoio.

Aumento da mobilidade geográfica das famílias
O aumento da mobilidade geográfica das famílias tem-se efectuado, principalmente, com a migração das gerações mais novas rumo aos meios urbanos, onde se encontram mais e melhores oportunidades de emprego. Desta forma, aumenta-se a distância entre avós e netos, que complexifica e distancia as relações. De facto, o contacto regular e face-a-face é insubstituível na construção duma relação afectiva e educativa, quando tal não ocorre ou é esporádico, a relação torna-se mais concentrada em ocasiões específicas, como as férias, os aniversários ou as festas.

Mais avós preferem viver sós
Cada vez mais pessoas, de todas as idades, optam por viver sós.
Também os avós de hoje, talvez por terem mais qualidade de vida e mais poder económico (que lhes permite, por exemplo, pagar o apoio de que necessitam), acabam por preferir ficar nas suas casas, mesmo que sós. Em simultâneo, verifica-se que os filhos também têm vidas muito ocupadas que não permitem uma maior atenção aos pais. Desta forma, favorece-se a autonomia e diminuem-se os conflitos comuns quando avós, pais e netos coabitam. As relações são favorecidas pela autonomia, mas é igualmente criada alguma distância. 

Novas relações familiares
As novas formas de famílias que têm emergido nas últimas décadas trazem à cena novas relações familiares, por exemplo os divórcios e recasamentos criam novos elementos na família, tais como, os padrastos e madrastas e, cada vez mais, os avódrastos e bisavósdrastos. Estes novos papéis na família, pela sua novidade, colocam a quem os exerce, assim como a quem com eles convive, diversas dúvidas e questões. 

2. Avós e netos: espaço de encontro de gerações 

A relação avós e netos é, indiscutivelmente, um espaço de encontro de gerações. Pode ser conceptualizado com base no entrecruzar de três eixos temporais: tempo social (história da sociedade e da comunidade), tempo familiar (passagem pelas várias fases do ciclo de vida familiar) e tempo individual (aspectos do desenvolvimento individual). 

O tempo social alerta para que grupos que nasceram e viveram em períodos diferentes diferem em múltiplos aspectos (Carter & McGoldrick, 1995), tais como: alteração nos papéis de género (por exemplo, as mulheres têm, pela primeira vez na história, uma carreira profissional); aumento dos níveis educativos; massificação do acesso a bens e serviços; diversificação nas atitudes em relação à família (há novas formas de contornos aceitáveis, como as uniões de facto, os adultos sozinhos). 

O tempo individual reflecte o desenvolvimento de cada pessoa, a sua idade e características próprias em termos de afectivos, cognitivos, sociais e motores. Inclui a relação com outros sistemas (profissional, escolar, comunitário,...), reflectindo-se nas necessidades e prioridades que o sujeito estabelece.  

O tempo familiar cruza-se com os outros e tem uma existência própria. As famílias são reconhecidas como evolutivas e em transformação, num processo simultâneo de mudança, desenvolvimento e continuidade. O ciclo de vida familiar descreve o modo como as famílias evoluem e se transformam, providenciando marcos para dividir o relógio familiar em segmentos. Os estádios são definidos a partir dos momentos de crise/transição, podendo sintetizar-se em dois tipos: crise de acesso (alguém entra no sistema) e crise de desmembramento (alguém sai) (Hoffman, 1989). Apesar de existirem vários modelos de estágios apresentamos o de Carter e McGoldrick (1989) constituído por seis estádios: sair de casa (entre famílias); junção de famílias pelo casamento (novo casal); famílias com crianças pequenas; famílias com adolescentes; deixar os filhos sair; famílias no fim da vida. 

Nesta encruzilhada de tempos, devem considerar-se três gerações com diferentes tempos de vida social, familiar e individual: pais, avós e netos.  

Nesta encruzilhada emergem um conjunto de vicissitudes das relações avós-netos.

Os diferentes tempos sociais entre avós e netos
Os avós têm um presente, um passado e um futuro! Os netos têm um presente e constróem o futuro.

Assim, os avós constituem uma janela privilegiada para o passado da família e da comunidade. Não se pode esquecer que os actuais avós viveram tempos intensos de mudança. Por exemplo: passaram por momentos da vida política que constituíram alterações radicais de estilos de vida e valores, uma vez que viveram o salazarismo, a primavera marcelista e o pós 25 de Abril; testemunharam progressos da ciência e, em especial, da medicina e tecnologia,... Desta forma, os avós constituem-se como uma memória viva do passado, junto deles os netos podem aceder à história da história, um relato vivido e personificado dos factos e da experiência vivida

Reviver estas vivências com os netos permite aos avós ver o mundo através de “olhos novos”: por um lado, algumas experiências são vividas e revividas de outra forma (por exemplo, um avô que esteve na guerra, ao contar aos netos, provavelmente, consegue atribuir-lhe um significado menos negativoos meus netos gostaram de saber!); por outro lado, as questões e observações dos netos permitem aos avós dar continuidade às experiências. Acresce que os netos são uma audiência nova para as experiências dos avós: novos em idade e por isso com