Pular para o conteúdo principal

 Da velhice como potência ativa da vida





Por Afin

    Para melhor instituir o controle sobre o corpo, o poder precisa fragmentá-lo, daí a divisão em limites de idade que, a partir da psicologia, da pedagogia, mais dizem o que deve um corpo fazer em determinado período de sua existência do que o que ele pode realizar em sua potência. E assim foram instituídas as idades do homem: Infância, Maturidade, Velhice.

    Nos estratos capitalísticos, que levam em conta apenas a produção no plano do capital (força de trabalho, mais-valia = lucro) sem qualquer menção a alguma satisfação existencial legítima, os velhos, assim como as crianças, não servem. Estas porque ainda não atingiram a rigidez exigida dos músculos; aqueles porque não a possuem mais. No caso da velhice, essa “dispensa” das funções ocorre quando todas as energias já foram sugadas e todas as linhas de atuação do ser em sua totalidade já foram interrompidas, restando o triste fascínio com o opressor que o descartou. E isso não ocorre necessariamente aos 60, 70, pode ser aos 30, 80, 12 anos... Para a ordem capitalista o homem é uma peça descartável.

    Quem adotará então a responsabilidade pelos velhos? Ficam para o Estado. O INSS e suas filas. Mas os governos, assim como para toda a população, os velhos também serão negligenciados em seus direitos: ou será que as condições das ruas de Manaus dificultam o trajeto apenas dos adolescentes imaturos? A ineficiência da saúde pública é para todos, bebês, gestantes, jovens, e os velhos não tem privilégios. E assim educação, transporte, moradia, água, emprego...

    Aí é que entram as propagandas governamentais para suavizar a violência a partir da mera adestração do corpo, em vez do seu desenvolvimento natural que já foi abortado; por isso 3ª Idade... Melhor Idade... Eufemismos. Você ainda é jovem, só tem 90 anos!

    Para o filósofo Spinoza, um corpo está tanto mais apto para agir no mundo mais e melhor quanto mais experiências possua nas relações com outros corpos, no sentido de fazer composições que propiciem aumento de potência de agir. Alegria. A velhice como dor ou como infantilização não existe. A velhice não é a velhacaria de certos senadores, secretários de governo, deputados senis. A velhice não é um empecilho nem aos outros nem a si. É um existir de uma natureza diferente, incapturável. Só quem sabe o que é a velhice são os velhos que a experimentam. É uma serenidade ativa em olhar o mundo, em construir com uma potência intempestiva o novo e necessário para o alegre existir comunitário...

    São esses e outros temas que poderão ser desenvolvidos num encontro entre os afinados do Núcleo Esquizo-Terapêutico da AFIN e os velhos do Tancredo Neves, nesta sexta-feira, às 8h da manhã, no posto de saúde Maria Leonor Brilhante, que fica na Grande Circular, nesse bairro citado, Zona Leste de Manaus.

    “A velhice não é uma aproximação da morte, mas sim um gozo diferente, de todos os pontos de vista... O que me agrada é a suavidade; é o tempo; é a intelectualidade, a imaterialidade das relações. É um hedonismo, porém é um hedonismo superior, que as pessoas chamam velhice e que, na verdade, é a mais elevada forma de vida, uma forma que é preciso recuperar por completo. Desse ponto de vista, parece-me que todos os velhos deveriam continuar a trabalhar, porque a aposentadoria é uma coisa absurda.” Antonio Negri, filósofo italiano.

    "A velhice é uma idade esplêndida!... Não é um mal em si. Amamos as pessoas de fato pelo que elas são. Acho que afina a percepção. Vejo as coisas que não via antes, percebo elegâncias às quais eu não era sensível. Agora, eu as vejo melhor, porque olho para alguém pelo que ele é, quase como se eu quisesse carregar comigo uma imagem dele, um percepto ou tirar da pessoa um percepto. Tudo isso torna a velhice uma arte.". Gilles Deleuze, filósofo francês.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

  O dilema de não morrer Por Ronaldo Correia de Brito*      Há cerca de quatro anos um paciente que acompanho teve a suspeita clínica de uma doença neurodegenerativa, uma síndrome parkinsoniana. Nesse tempo, evoluiu com rigidez muscular, perda progressiva de força e da voz, alteração da marcha, dificuldade para deglutir e respirar. Após exaustivas investigações, o diagnóstico nunca foi confirmado, nem se chegou a uma terapêutica que sustasse a progressão dos sintomas.      No momento, ele não anda, não fala, se alimenta através de uma sonda enterorrenal, passando em torno de vinte horas por dia num respirador não invasivo. Há um ano vive sob cuidados de uma equipe médica e para-médica, em atendimento domiciliar semi-intensivo. Vez por outra precisa ser internado por conta de complicações infecciosas.      Muitos pacientes idosos e com doenças crônicas vivem esse mesmo sofrimento. Aqueles que pagam seguro saúde recorrem ao sistema Home Care e podem ser assistidos em suas próprias
  Alzheimer: a batalha para salvar a memória    Jeffrey Kluger       Perdeu as chaves ou esqueceu os nomes outra vez? As pessoas maduras estão fazendo tudo para manter a memória acesa. O que funciona e o que mete medo?      Minha memória começou a me preocupar no dia em que quase congelei um bicho de estimação, mais exatamente um saquinho com peixes tropicais. Na escala de apreço aos animais domésticos, os peixinhos ficam logo abaixo do gato da família e logo acima de um bom conjunto de descanso para copos. Num momento de distração, guardei os peixes na geladeira junto com os outros pacotes de compras. Por sorte, consegui resgatá-los antes que virassem jantar.      Esse episódio me alertou para o fato de que minha memória já não é tão boa. E tenho razões para ficar preocupado. Tenho quarenta e tantos anos e entrei na idade em que a maioria das pessoas começa a perceber que não é mais a mesma, já não enxerga tão bem, não tem tanta disposição e acha difícil manter a silhueta. S
    Idosos que fazem sexo são mais saudáveis Levantamento feito nos EUA mostra a vida sexual depois dos 60. Trabalho mostrou que os que faziam mais sexo eram os que tinham mais saúde.      Segundo estudo, 81% dos homens e 51% das mulheres entre 57 e 85 anos não dispensam o sexo (Foto: New York Times)      Esqueça aquela história de que o vovô e a vovó preferem ver TV no sábado à noite. Um levantamento feito nos Estados Unidos revela que, pelo menos entre os americanos, os idosos entre 57 e 85 anos são muito mais sexualmente ativos do que os “jovenzinhos” podem pensar. E mais: os que mais fazem sexo na terceira idade são também os mais saudáveis.      O estudo encomendado pelos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos, e publicado na revista científica “The New England Journal of Medicine”, revela que a maioria dos americanos acima dos 57 não apenas faz sexo, como considera o ato sexual uma parte muito importante da vida.      Entre as idades de 57 e 64, 73% dos idos