Pular para o conteúdo principal

 

O dilema de não morrer



Por Ronaldo Correia de Brito*

    Há cerca de quatro anos um paciente que acompanho teve a suspeita clínica de uma doença neurodegenerativa, uma síndrome parkinsoniana. Nesse tempo, evoluiu com rigidez muscular, perda progressiva de força e da voz, alteração da marcha, dificuldade para deglutir e respirar. Após exaustivas investigações, o diagnóstico nunca foi confirmado, nem se chegou a uma terapêutica que sustasse a progressão dos sintomas.

    No momento, ele não anda, não fala, se alimenta através de uma sonda enterorrenal, passando em torno de vinte horas por dia num respirador não invasivo. Há um ano vive sob cuidados de uma equipe médica e para-médica, em atendimento domiciliar semi-intensivo. Vez por outra precisa ser internado por conta de complicações infecciosas.

    Muitos pacientes idosos e com doenças crônicas vivem esse mesmo sofrimento. Aqueles que pagam seguro saúde recorrem ao sistema Home Care e podem ser assistidos em suas próprias casas, buscando internamento hospitalar apenas nos agravamentos do quadro clínico. Nas cidades brasileiras onde não existe essa prestação de serviço, os familiares assumem os gastos, sempre muito elevados. As pessoas pobres recorrem ao SUS e sem condições de assistência em casa, ficam cronicamente internadas, por tempo indefinido, às vezes até morrerem.

    Enfrentamos impasses de natureza filosófica, ética e, para alguns, também religiosa, próprios da modernidade tecnológica, ao decidirmos se alguns pacientes devem ou não continuar vivendo. Vive-se cada vez mais, por conta da evolução da medicina e de cuidados com a alimentação, a higiene e exercícios físicos. Nem sempre essa vida longa representa uma vida produtiva, consciente, em gozo das faculdades mentais e dos sentidos.

    Os bens de saúde não estão ao alcance de todas as pessoas, dependendo a longevidade do poder econômico. Um pobre com doença crônica não sobrevive o mesmo tempo que um rico com poder de comprar assistência médica. Essa perversão gerou um sentimento de onipotência nos familiares e nos pacientes que têm dinheiro e buscam a cura e nos médicos que tratam e oferecem a cura.

    A morte parece ter os dias contados e a vida não possuir limites. Compra-se o prolongamento da vida, mesmo que ela seja de qualidade duvidosa, como se compram produtos em prateleiras de supermercados. As UTIS estão repletas de doentes mantidos artificialmente, num desafio às leis naturais, que sempre regeram o tempo de nascer e morrer.

    A velhice prolongada tornou-se um desafio de nosso tempo. Como manter populações cada vez mais numerosas de pessoas idosas? Dentro dessa questão uma outra mais grave se coloca: como deliberar sobre o prolongamento ou não de uma vida que já cortou seus elos com o mundo, mas que continua habitando entre nós?

    São perguntas de natureza ética, provocam a fúria das Igrejas ao serem formuladas, mas estão bem próximas de cada um. Porque o doente crônico cujo perfil tracei pode ser o pai ou a mãe. Algum dia esse dilema também será meu e seu.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

  Alzheimer: a batalha para salvar a memória    Jeffrey Kluger       Perdeu as chaves ou esqueceu os nomes outra vez? As pessoas maduras estão fazendo tudo para manter a memória acesa. O que funciona e o que mete medo?      Minha memória começou a me preocupar no dia em que quase congelei um bicho de estimação, mais exatamente um saquinho com peixes tropicais. Na escala de apreço aos animais domésticos, os peixinhos ficam logo abaixo do gato da família e logo acima de um bom conjunto de descanso para copos. Num momento de distração, guardei os peixes na geladeira junto com os outros pacotes de compras. Por sorte, consegui resgatá-los antes que virassem jantar.      Esse episódio me alertou para o fato de que minha memória já não é tão boa. E tenho razões para ficar preocupado. Tenho quarenta e tantos anos e entrei na idade em que a maioria das pessoas começa a perceber que não é mais a mesma, já não enxerga tão bem, não tem tanta disposição e acha difícil manter a silhueta. S
    Idosos que fazem sexo são mais saudáveis Levantamento feito nos EUA mostra a vida sexual depois dos 60. Trabalho mostrou que os que faziam mais sexo eram os que tinham mais saúde.      Segundo estudo, 81% dos homens e 51% das mulheres entre 57 e 85 anos não dispensam o sexo (Foto: New York Times)      Esqueça aquela história de que o vovô e a vovó preferem ver TV no sábado à noite. Um levantamento feito nos Estados Unidos revela que, pelo menos entre os americanos, os idosos entre 57 e 85 anos são muito mais sexualmente ativos do que os “jovenzinhos” podem pensar. E mais: os que mais fazem sexo na terceira idade são também os mais saudáveis.      O estudo encomendado pelos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos, e publicado na revista científica “The New England Journal of Medicine”, revela que a maioria dos americanos acima dos 57 não apenas faz sexo, como considera o ato sexual uma parte muito importante da vida.      Entre as idades de 57 e 64, 73% dos idos