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Em 2050, os idosos viverão mais tempo com saúde e autonomia
Os idosos de 2050 serão bastante diferentes dos de hoje



Por Catarina Gomes

 


      Dizer que "o jovem de hoje será o idoso de amanhã" poderá soar a lugar-comum, mas quando se trata de imaginar a sociedade portuguesa em 2050 - quando cerca de um terço da população deverá ter mais de 60 anos, em vez do um quinto atual - aquela frase é a chave do futuro.

    Olhemos então para Madalena Palmeirim, de 22 anos. Vive em Lisboa, é licenciada e está a tirar mestrado, até há pouco tempo praticou voleibol, evita comer fritos porque sabe que lhe fazem mal, usa a Internet desde os 13 anos, tem página no Facebook e outra da sua banda musical no MySpace.

    Em 2050, quando tiver 62 anos, imagina-se em plena atividade profissional e não lhe choca a ideia de entrar na reforma só por volta dos 70, nem sequer conta com o Estado para lha pagar - "pela via das dúvidas", fez um plano poupança reforma há dois anos. Parece-lhe "justo" que o fim da vida chegue por volta dos 80 anos, em sua casa, idealmente com alguém a quem pague para lhe prestar os cuidados de que precisar.

    Nessa altura, Madalena vai fazer parte da faixa etária da população portuguesa que mais vai crescer - os com mais de 60 anos, apontam projeções das Nações Unidas e do Instituto Nacional de Estatística.

    Os sinais de envelhecimento da população, e os problemas daí decorrentes, já são notórios: além das ameaças à sustentabilidade do sistema de Segurança Social, aumentaram os problemas de dependência de um número crescente de idosos, com as consequentes necessidades e custos da criação de respostas no sector social e da saúde. Mas será que basta imaginar o cenário atual inflacionado para ver o futuro?

    Não, dizem vários especialistas. É que os idosos de 2050 serão bastante diferentes dos de hoje. O facto de a sociedade estar a envelhecer é um sinal positivo, reforça João Peixoto, sociólogo do Instituto Superior de Economia e Gestão, em Lisboa. Mas, apesar de a esperança de vida média continuar a aumentar, não vai esticar até ao infinito, refere. Em Portugal, quando se nasce, pode-se contar viver, em média, cerca de 79 anos: 82, quando se é mulher; 75, se for homem. Em 2050, segundo projeções das Nações Unidas, podemos ganhar mais dois anos de esperança de vida média no total (até aos 84 nas mulheres e aos 78 anos nos homens).

    Mas a grande mudança que se espera vir a acontecer assenta noutros indicadores, os anos de saudável e a esperança de vida sem incapacidade. Ou seja, não bastará viver mais, é expectável que daqui a 40 anos se viva com qualidade de vida até mais tarde, dizem vários especialistas. Os últimos números do Eurostat a este respeito (2007) dão conta de 58 anos de vida saudável nos homens portugueses, 77 por cento da vida sem incapacidade, as mulheres vivem mais tempo mas apenas 57 anos com saúde, 70 por cento da vida sem incapacidade.

    Estes números não existem para 2050, mas espera-se que os idosos sejam mais saudáveis e autônomos até mais tarde, o que também reforça a quase inevitabilidade do adiamento da idade de reforma para uns 70 anos, admite João Peixoto.

    Em Portugal, grande parte dos níveis de iliteracia e analfabetismo estão concentrados em faixas etárias mais velhas da população, nos idosos atuais, que, além de baixos níveis de instrução, tiveram dificuldade no acesso a cuidados de saúde, passaram em muitos casos por situações de carência, o que acaba por se refletir na forma como envelhecem e adoecem.

    E aqui voltamos a Madalena e à sua geração. Os idosos de 2050 andam hoje na casa dos 20, 30 anos e são uma geração mais instruída que a dos seus pais. Ou seja, têm mais acesso a informação, mais comportamentos de prevenção da doença, aprenderam a usar tecnologias da comunicação desde cedo.

    A partir daqui, podem-se fazer algumas previsões, refere a neurologista especialista em envelhecimento, Catarina Oliveira, professora da Faculdade de Medicina de Coimbra. Mesmo sem saírem de casa serão idosos "mais ágeis na interação com o meio", podem estar sozinhos mas fazem compras sem sair de casa através da Internet, marcam consultas online. "Terão mais competências e versatilidade".

    Mas há "uma grande dúvida". Se à partida se espera que estes jovens adaptem estilos de vida saudáveis que lhes garantam mais longevidade com saúde, há uma tendência que pode boicotar esses progressos na futura terceira idade - o aumento do excesso de peso e obesidade infantis, resultado do sedentarismo e maus hábitos alimentares, ressalva a docente.

    João Peixoto acredita que Portugal em 2050 terá então uma muito maior faixa de idosos ativos. Depois haverá um outro grupo de idosos, a partir dos 75-80 anos, esses sim com graus crescentes de incapacidade, com cada vez mais problemas de demência. As Nações Unidas estimam que nove por cento da população nacional tenha mais de 80 anos em 2050, face a cerca de quatro por cento em 2008.

População vai regredir

    Jorge Simões, professor de Políticas da Saúde na Universidade de Aveiro, diz que os sistemas são lentos a adaptar-se às mudanças, como se vê com a rede de cuidados continuados: "Só em 2005 é que o país acordou para a necessidade de criar respostas para uma realidade que já se conhecia há mais de uma década". Também os sistemas de saúde precisam de se adaptar a uma nova realidade. A formação de profissionais de saúde está muito centrada em doenças agudas quando as patologias deste grupo populacional serão sobretudo oncológicas e degenerativas.

    Inês Guerreiro, coordenadora da Rede de Cuidados Continuados, acredita que o grau de dependência vai ser empurrado para a frente mas que o grupo dos mais idosos vai precisar de suporte crescente. Em 2050 seguramente terão nascido unidades específicas para "doentes portadores de demências", por exemplo.

    Uma sociedade envelhecida pode ser vista como uma conquista, mas o problema de Portugal e de outros países será o perigo de perder habitantes. Segundo projeções das Nações Unidas o país poderá chegar a 2050 com cerca de nove milhões de habitantes. Como o envelhecimento não pode ser travado, os governos têm que se concentrar no que pode ser mudado. A demógrafa do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, em Lisboa Isabel Tiago de Oliveira diz que os governos podem investir na área da natalidade, para tentar aumentar o número de filhos que os portugueses têm, uma vez que vários estudos revelam que desejariam ter famílias maiores do que as têm.

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