Pular para o conteúdo principal

 

De olho no diabetes




Por Fábio de Castro


    Pesquisadora da Unicamp demonstra que hipertensão está associada a fatores que desencadeiam uma das mais freqüentes complicações crônicas do diabetes: a retinopatia diabética, lesão que pode levar à cegueira.

    A tendência genética à hipertensão arterial está associada aos fatores que desencadeiam uma das mais freqüentes complicações crônicas do diabetes: a retinopatia diabética, lesão na retina que pode levar à cegueira. A relação foi demonstrada pela primeira vez por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

    O estudo, realizado por Jacqueline Mendonça Lopes de Faria, professora da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, teve apoio da FAPESP na modalidade Auxílio a Pesquisa. O projeto, concluído em junho, foi a base de um novo estudo sobre o tema, já em andamento.

    De acordo com Jacqueline, a pesquisa, cujo objetivo era aprofundar a compreensão da patogênese da retinopatia diabética, tem grande impacto, uma vez que o diabetes é a principal causa de cegueira em pessoas em idade produtiva no mundo.

    Graças aos hábitos alimentares e ao sedentarismo, a doença está em franca expansão no mundo ocidental. Por outro lado, os diabéticos hoje vivem mais, o que torna as complicações crônicas cada vez mais comuns”, disse a pesquisadora à Agência FAPESP.

    Segundo Jacqueline, a hipótese inicial do estudo era que a genética da hipertensão – mesmo antes da manifestação clínica do problema – contribuiria decisivamente para exacerbar a inflamação retiniana na presença de diabetes.

    Comprovamos a hipótese e demonstramos que a hipertensão está associada ao processo inflamatório e ao estresse oxidativo na retina. O tratamento da hipertensão previne os dois problemas”, explicou.

    O estresse oxidativo é o resultado do excesso de produção de radicais livres, que reduz a capacidade do sistema antioxidante presente em cada tecido. “Com o diabetes, a hiperglicemia causa um estresse oxidativo e a produção de radicais livres é aumentada, levando a alterações de proteínas, DNA e lipídios nas células”, disse.

    Tendo comprovado o papel da hipertensão no desencadeamento da inflamação e do estresse oxidativo, o objetivo agora é demonstrar como ela acentua a neuro degeneração, um aspecto inicial da complicação retiniana.

    Esse é o objetivo do projeto em andamento, que será concluído em junho de 2008. Queremos saber qual é a via principal que liga o estresse oxidativo à morte celular programada. Nossa hipótese é que se trata de uma disfunção mitocondrial nas células neurais da retina”, destacou.


Provas experimentais
    Para realizar a pesquisa, Jacqueline utilizou modelos animais experimentais. Ratos que tinham, espontaneamente, características genéticas de hipertensão, foram tornados experimentalmente diabéticos no laboratório.

    O interesse era entender as alterações inflamatórias e de estresse oxidativo, que são eventos precoces na patogênese. Por isso, estudamos os modelos em um período curto, de um mês de duração, após a indução do diabetes”, contou Jacqueline.

    Nesses casos, segundo ela, foi constatada, por meio de marcadores bio celulares e bioquímicos, acentuada reação inflamatória nos animais, em comparação a grupos de controle saudáveis. “Por meio de marcadores também observamos alterações do estresse oxidativo. Houve aumento da produção de superóxido e de defesas antioxidantes da retina”, afirmou.

    Segundo ela, sabe-se clinicamente que diabéticos com acuidade visual perfeita têm alterações funcionais da retina. Isso foi comprovado experimentalmente. “A partir de exames de eletrorretinograma, notamos que os potenciais visuais são alterados antes mesmo de qualquer alteração clínica da retinopatia diabética”, disse.

    Com isso, haveria alterações funcionais que precederiam as alterações observáveis. “A complicação progride mais rapidamente em certos pacientes do que em outros. Por isso, achávamos que a hipertensão concorria com a hiperglicemia, o que foi constatado”, disse.

    O estudo levantou suspeitas de que, embora a retinopatia diabética seja considerada uma inflamação nas células vasculares, outras células da retina podem estar envolvidas.
“Sabemos agora que outros tecidos além dos vascular são afetados. O tecido da retina é predominantemente neural, por isso é razoável imaginar que as células neurais também sejam acometidas pela hiperglicemia”, afirmou Jacqueline.

    No estudo atual foram utilizados modelos de ratos geneticamente hipertensos, mas com tempo mais prolongado: 12 semanas de duração a partir da indução do diabetes. “O objetivo é identificar se a morte programada de células da retina também é um dos eventos iniciais da retinopatia diabética”, explicou.

    Foi observado que os animais diabéticos têm de fato um aumento de células em apoptose – a morte celular programada – na camada dos fotorreceptores. “Nossa pergunta é se a hipertensão aumenta o índice de apoptose na retina. Vimos que, quando os animais são hipertensos e diabéticos, esse aumento é acentuado, o que sugere que a concomitância agrava o efeito de células degenerativas”, disse a pesquisadora.

    Tratando os animais com uma droga bloqueadora do sistema, o Losartan, usado normalmente para tratamento de hipertensão arterial, Jacqueline confirmou que houve redução significativa das células em apoptose em relação à situação normal. “Esse tratamento também preveniu os efeitos oxidativos e a inflamação”, disse.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

  O dilema de não morrer Por Ronaldo Correia de Brito*      Há cerca de quatro anos um paciente que acompanho teve a suspeita clínica de uma doença neurodegenerativa, uma síndrome parkinsoniana. Nesse tempo, evoluiu com rigidez muscular, perda progressiva de força e da voz, alteração da marcha, dificuldade para deglutir e respirar. Após exaustivas investigações, o diagnóstico nunca foi confirmado, nem se chegou a uma terapêutica que sustasse a progressão dos sintomas.      No momento, ele não anda, não fala, se alimenta através de uma sonda enterorrenal, passando em torno de vinte horas por dia num respirador não invasivo. Há um ano vive sob cuidados de uma equipe médica e para-médica, em atendimento domiciliar semi-intensivo. Vez por outra precisa ser internado por conta de complicações infecciosas.      Muitos pacientes idosos e com doenças crônicas vivem esse mesmo sofrimento. Aqueles que pagam seguro saúde recorrem ao sistema Home Care e podem ser assistidos em suas próprias
  Alzheimer: a batalha para salvar a memória    Jeffrey Kluger       Perdeu as chaves ou esqueceu os nomes outra vez? As pessoas maduras estão fazendo tudo para manter a memória acesa. O que funciona e o que mete medo?      Minha memória começou a me preocupar no dia em que quase congelei um bicho de estimação, mais exatamente um saquinho com peixes tropicais. Na escala de apreço aos animais domésticos, os peixinhos ficam logo abaixo do gato da família e logo acima de um bom conjunto de descanso para copos. Num momento de distração, guardei os peixes na geladeira junto com os outros pacotes de compras. Por sorte, consegui resgatá-los antes que virassem jantar.      Esse episódio me alertou para o fato de que minha memória já não é tão boa. E tenho razões para ficar preocupado. Tenho quarenta e tantos anos e entrei na idade em que a maioria das pessoas começa a perceber que não é mais a mesma, já não enxerga tão bem, não tem tanta disposição e acha difícil manter a silhueta. S
    Idosos que fazem sexo são mais saudáveis Levantamento feito nos EUA mostra a vida sexual depois dos 60. Trabalho mostrou que os que faziam mais sexo eram os que tinham mais saúde.      Segundo estudo, 81% dos homens e 51% das mulheres entre 57 e 85 anos não dispensam o sexo (Foto: New York Times)      Esqueça aquela história de que o vovô e a vovó preferem ver TV no sábado à noite. Um levantamento feito nos Estados Unidos revela que, pelo menos entre os americanos, os idosos entre 57 e 85 anos são muito mais sexualmente ativos do que os “jovenzinhos” podem pensar. E mais: os que mais fazem sexo na terceira idade são também os mais saudáveis.      O estudo encomendado pelos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos, e publicado na revista científica “The New England Journal of Medicine”, revela que a maioria dos americanos acima dos 57 não apenas faz sexo, como considera o ato sexual uma parte muito importante da vida.      Entre as idades de 57 e 64, 73% dos idos