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Após derrame, idoso reaprende a falar cantando


Karen Barrow

Pouca gente com mais de 10 anos de idade incluiria "Parabéns a Você" em sua lista de músicas prediletas. Mas o americano Harvey Alter, 62 anos, tem apreço especial pela canção. Ela o ajudou a reaprender a falar.

    Certa manhã de junho de 2003, Alter, então criminologista autônomo, estava colocado a coleira em seu cachorro, Sam, em preparação para um passeio em Greenwich Village, bairro em que ele vive há 30 anos. Subitamente, sentiu tontura, desorientação.

    "Meus pensamentos se embaralharam, deixaram de fazer sentido", ele declarou em recente entrevista. "Sabia que estava tendo um derrame". No hospital Saint Vincent, os médicos diagnosticaram um derrame isquêmico, causado por um bloqueio no fluxo de sangue para parte da metade esquerda de seu cérebro.

    Como resultado, a metade direita do corpo de Alter ficou paralisada temporariamente, ele sofreu paralisia do lado direito da face e encontrava dificuldades para recordar palavras e formá-las em sentenças, uma condição conhecida como afasia.

    Horas depois do derrame, Alter foi apresentado a Loni Burke, uma fonoterapeuta que hoje trabalha para o hospital Lenox Hill. Inicialmente, ele não conseguia falar coisa alguma; em alguns dias, conseguia dizer palavras curtas. "Em geral, ele dizia 'não'", conta Burke, "porque se sentia frustrado por não poder falar".

    Depois de três semanas de hospital e dois anos de trabalhosa terapia, a paralisia de Alter quase desapareceu, e seu sorriso voltou ao normal. Mas embora ele conseguisse se comunicar por meio de palavras curtas e com a ajuda de um quadro negro, comunicações verbais complexas continuavam difíceis.

    Com o uso de técnicas padronizadas de terapia de fala como repetição de listas de números e dias da semana, Burke ajudou seu paciente a formar frases curtas. Mas elas eram pronunciadas lentamente, e soavam mecânicas. Então, certo dia, ela pediu que Alter cantasse.

    "Como vou cantar? Nem consigo falar!", Alter se lembra de ter pensado. Mas tão logo Burke começou a cantar "Parabéns a Você", ele se juntou a ela. "O som parecia bom", diz. "Como se eu não tivesse problema algum".

    A técnica, conhecida como terapia de entonação melódica, foi desenvolvida em 1973 pelo Dr. Marvin Albert e colegas no Hospital de Veteranos de Boston. O objetivo era ajudar pacientes que houvessem sofrido danos na área de Broca - o centro de fala do cérebro, localizado no hemisfério esquerdo.

    Os pacientes ainda dispunham de hemisférios direitos relativamente saudáveis. E embora o hemisfério esquerdo seja o responsável primordial pela fala, o direito é usado para a compreensão da linguagem, bem como para o processamento de melodias e ritmos.

    "Você se pergunta o que pode ser feito para ativar o hemisfério direito", diz o Dr. Gottfried Schlaug, neurologista do Centro Médico Beth Israel Deaconess, em Boston, que estuda os efeitos da música sobre o cérebro.

    A terapia de entonação melódica parece envolver o hemisfério direito ao solicitar dos pacientes que marquem o compasso de ritmos e repitam melodias simples. Os terapeutas trabalham primeiro com pacientes para criar sentenças cantadas ao ritmo de canções conhecidas, e depois se esforçam por remover a melodia, deixando um padrão de fala mais normal.

    Mas relativamente pouca pesquisa foi conduzida para compreender como esse tipo de terapia afeta o cérebro de um paciente de derrame. Em estudo concluído em 2006, Schlaug e colegas de Harvard acompanharam o progresso de oito pacientes que sofriam de afasia de Broca, em 75 sessões de terapia de entonação melódica.

    Imagens de ressonância magnética demonstravam que quando os pacientes estavam pronunciando palavras e frases simples, o padrão de atividade do hemisfério direito do cérebro de alterava significativamente ao longo do tratamento.

    "A combinação de entonação melódica e de acompanhamento percussivo do ritmo ativa um sistema do hemisfério direito do cérebro que sempre existiu, mas tipicamente não é usado para a fala", disse Schlaug.

    Ele recomenda a terapia de entonação melódica para pacientes que não disponham de forma significativa de fala mas consigam compreender linguagem e tenham a paciência requerida para as sessões de terapia.

    Antes que a música voltasse à sua vida, Alter tinha dificuldade para pensar nas palavra que desejava usar, e formá-las. Para ele, ao que parece, a terapia de entonação melódica foi essencial para retreinar seu cérebro a fim de falar com tom e ritmo.

    "Depois de um derrame, o cérebro está aprendendo a se adaptar", disse o Dr. Albert Favate, diretor do departamento de derrames do hospital Saint Vincent, em Nova York.

    "Para alguém com afasia de Broca, a terapia de entonação melódica pode permitir um retorno aos padrões de fala anteriores, o que pode melhorar a espontaneidade da fala".

    Alter ainda fala de maneira hesitante, com uma cadência perceptível, mas não encontra mais tanta dificuldade em identificar a palavra certa, e conversa alegremente com quem quer que se interesse pela sua situação.

    Embora ele atribua boa parte do sucesso à terapia de entonação melódica, Burke diz que ela é apenas uma de muitas ferramentas empregadas no tratamento.

    No entanto, ela concordou em que a terapia foi essencial. "Pode ter causado a reação inicial de surpresa que o convenceu de que ainda podia falar", disse.

    À medida que se recupera, Alter vem dedicando suas atividades a conscientizar as pessoas quanto à afasia. Ele comanda grupos de apoio a pacientes de derrames e suas famílias, e viaja pelo mundo falando em nome de pessoas que perderam a capacidade de falar.

    E canta "Parabéns a Você" alegremente em companhia de quem quer que deseje entrar no coro. "Mas gosto também do Natal", diz. "Porque sei todas as canções natalinas".

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